O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
SOBRE DESIGUALDADE E DESTINO
Minhas limitações financeiras me tornaram sensível a desfuncionalidade e brutalidade estrutural da sociedade em que vivemos.
Bem sei o quanto entre nós a desigualdade é a mais sensivel expressão de nossa coletiva barbarie política, econômica e social.
Ao mesmo tempo, não nego que nunca quis jogar o jogo pragmático do sucesso. Nunca esperei ser bem sucedido em nada e, também, nunca quis vencer na vida.
Nunca quiz me tornar um "incluído" em um sistema de merda que faz do fracasso um dado estrutural e necessário a sobrevivência de seu ideal de "sucesso" ou, simplesmente, sujeição.
sexta-feira, 11 de outubro de 2024
ROCK E CONTRA CULTURA
Quando por volta dos quinze anos meus ouvidos foram arrebatados pelo rock and rool, também me vi embriagado pela contracultura dos anos 1960. Uma coisa naquele momento parecia levar a outra.
Eu vivia os anos 1980 e havia uma certa ingenuidade criativa no modo como eu então experimentava minha juventude na descoberta da vida.
sábado, 24 de agosto de 2024
DESABRIGO
É impossível voltar
para casa.
Todos se foram
e a casa jaz vazia,
silenciosa e morta.
Agora,
ela é apenas
uma casca.
Não há para
onde voltar.
Todos se foram.
A casa não é mais
um lugar.
A vida se perdeu no tempo
e eu me perdi dos outros,
da casa e do mundo
em radical desabrigo.
sexta-feira, 23 de agosto de 2024
SONHO DE CONSUMO
Ao longo da minha mocidade meu principal “sonho de consumo” era o modesto luxo de ter uma escrivaninha e algumas estantes para acomodar minha então modesta biblioteca.
Nunca realizei tal sonho e constato com certa amargura que ele permanece ainda como uma meta depois de eu ter ultrapassado meio século de existência.
Nada na minha vida correspondeu as minhas expectativas....
segunda-feira, 19 de agosto de 2024
O DESAPARECER DO MUNDO
Os lugares onde cresci
já não existem mais.
Estão mortos todos aqueles
que me viram nascer.
A vida passa
e já quase não existo
enquanto o mundo
desaparece dos meus olhos.
sábado, 10 de agosto de 2024
BIOGRAFIA
Sou apenas mais um corpo que soube um tempo, um lugar, e depois desapareceu sem deixar vestígio, como quem nunca nasceu.
Sou apenas a ilusão de um rosto na multidão, mais uma história de vida, equivalente a tantas outras, que não importa em sua singularidade.
Desde sempre toda vida jaz morta.
sexta-feira, 9 de agosto de 2024
A INFELICIDADE COMO VOCAÇÃO
Hoje avalio que talvez eu tenha herdado minha profunda má vontade com a vida, todo meu desencanto, com a existência, das frustrações e insucessos que eu percebia latentes nos humores e afetos da minha mãe.
Talvez, a infelicidade seja uma vocação de família. Ninguém cai muito longe da origem.
quarta-feira, 7 de agosto de 2024
IDEAL DE VIDA
Meu mais íntimo ideal de vida
é me tornar inútil, improdutivo, autônomo e irrelevante.
Quero passar a margem da sociedade, das grandes questões da humanidade.
Acordar todos os dias para o imediatismo das minhas intimidades.
Afinal, viver é coisa que não nos leva a nada além da morte.
quarta-feira, 31 de julho de 2024
UM POUCO DE NOSTALGIA
Nos rasos dias de juventude, onde meus pais e avós eram vivos e a vida fazia sentido na intimidade de um lar, tudo parecia definitivo e certo, como os dias e as noites.
Quão iludido era meu eu menino pelo conservadorismo familiar que fazia o mundo inteiro caber entre os muros de um quintal.
Hoje, perdido em um mundo é vasto e indomável, sei que nada faz sentido além do vale tudo da sobrevivência.
A vida não vale uma tarde de infância.
domingo, 21 de julho de 2024
VIDA BOA
Não tive uma vida boa. Aliás, nunca aceitei nenhuma definição convencional de vida.
Creio que apenas sobrevivi como uma vítima passiva da época e lugar onde nasci.
Não acredito em livre arbítrio, nem que a existência tenha algum propósito. Afinal, morrer não é um propósito, mas uma obrigação.
Não espero no fim de tudo qualquer redenção.
Não tive uma vida boa porque tal rótulo não se aplica a vida.
sexta-feira, 28 de junho de 2024
O ARTIFÍCIO DA MEMÓRIA
A memoria ecoa uma condição passada,
perdida,
onde a vida agora
surge como fantasma,
vestígio de outras formas
de me saber no mundo
entre pessoas e coisas desaparecidas.
Talvez eu já seja
através da memória
parte da minha própria lembrança.
Talvez, de alguma forma,
eu já não exista
aqui e agora,
não passando de um eco
do meu lado de fora.
quarta-feira, 24 de abril de 2024
BANCAS DE JORNAIS E REVISTAS
Muito antes do advento da internet as bancas de jornais e revistas eram fonte privilegiada de informação e entretenimento.

Leitor de HQs desde muito cedo eu era mais atraído por uma banca do que por qualquer barraca de doces ou lanchonete.
Quantas vezes não desviava o dinheiro da merenda para comprar revistas em quadrinhos?
Mas as grandes vedetes destes estabelecimentos eram as tiragens diárias dos jornais impressos que, pode-se dizer, desempenhavam um papel decisivo como formadores de opinião.
O poder de públicar algo era decisivo em uma sociedade onde o direito a palavra e a opinião era de poucos e considerado, no contexto de uma ditadura, até mesmo perigoso.
Mas , apesar da censura, a riqueza de nossa produção semiótica e sua ampla circulação era surpreendentemente ampla. Mas era preciso saber ler nas entrelinhas.
Mas, apesar da popularidade das bancas de jornais e revistas, o analfabetismo, naqueles anos 1970, em que eu crescia, ainda atingia grandes camadas da população pobre, negra e periférica.
O letramento era basicamente um privilégio das camadas médias e brancas das cidades. A escola estava longe de ser acessível aos mais pobres.
O fato é que é difícil dimensionar hoje em dia a importância cultural das bancas de jornais e revistas no cotidiano das cidades mesmo pequenas e províncianas.
Assinar:
Comentários (Atom)