sábado, 24 de agosto de 2024

DESABRIGO

É impossível voltar
para casa.

Todos se foram
e a casa jaz vazia,
silenciosa e morta.

Agora,
ela é apenas 
uma casca.

Não há para
onde voltar.

Todos se foram.
A casa não é mais
um lugar.

A vida se perdeu no tempo
e eu me perdi dos outros,
da casa e do mundo 
em radical desabrigo.


sexta-feira, 23 de agosto de 2024

SONHO DE CONSUMO

Ao longo da minha mocidade meu principal “sonho de consumo” era o modesto luxo de ter uma escrivaninha e algumas estantes para acomodar minha então modesta biblioteca. 
Nunca realizei tal sonho e constato com certa amargura que ele permanece ainda como uma meta depois de eu ter ultrapassado meio século de existência.
 Nada na minha vida correspondeu as minhas expectativas....

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

O DESAPARECER DO MUNDO

Os lugares onde cresci
já não existem mais.
Estão mortos todos aqueles
que me viram nascer.
A vida passa
e já quase não existo
enquanto o mundo
desaparece dos meus olhos.

sábado, 10 de agosto de 2024

BIOGRAFIA

Sou apenas mais um corpo que soube um tempo, um lugar, e depois desapareceu sem deixar vestígio, como quem nunca nasceu.
Sou apenas a ilusão de um rosto na multidão, mais uma história de vida, equivalente a tantas outras, que não importa em sua singularidade.
Desde sempre toda vida jaz morta.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

A INFELICIDADE COMO VOCAÇÃO

Hoje avalio que talvez eu tenha herdado minha profunda má vontade com a vida, todo meu desencanto, com a existência, das frustrações e insucessos que eu percebia latentes nos humores e afetos da minha mãe.
Talvez, a infelicidade seja uma vocação de família. Ninguém cai muito longe da origem.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

IDEAL DE VIDA

Meu mais íntimo ideal de vida
é me tornar inútil, improdutivo, autônomo e irrelevante.
Quero passar a margem da sociedade, das grandes questões da humanidade.
Acordar todos os dias para o imediatismo das minhas intimidades.
Afinal, viver é coisa que não nos leva a nada além da morte.