Não é apenas a vontade de ser
jovem de novo que me leva a nostalgia
dos anos de infância e adolescência. Creio que o sentimento de
pertencimento ao mundo e a vida é o que mais intensamente sustenta essa fome de
passado.
Na época eu não gozava de tal perspectiva,
achava minha vida profundamente desinteressante e até mesmo frustrante, como
toda boa criança e, depois, adolescente problemático. Mas agora sei o quanto morar com meus pais me
proporcionava um lugar no mundo, o quanto
a rotina domestica era um abrigo existencial.
Ao mesmo tempo, vivia descobertas
e redescobertas diárias, tinha todas as vontades e tempo do mundo para
experimentar a existência. A vida, simplesmente, tinha mais gosto. O futuro estava inteiramente aberto diante das
minhas escolhas. É claro que só temos plena consciência da riqueza dos anos de
juventude quando já não gozamos mais de seus benefícios.
Lamento não ter levado as últimas
consequências todo o potencial daqueles anos de formação e crescimento,
daqueles dias em que a existência ainda gozava de pleno sentido.
Mas lamento ainda mais não poder contar com a segurança da vida em família, com um universo privado ordenado e pleno de referências.