segunda-feira, 29 de abril de 2019

A INADAPTAÇÃO COMO VOCAÇÃO

O funcionamento do mundo sempre me pareceu algo absurdo. Quando criança tudo fazia mais sentido para mim através dos filmes da TV ( era raro eu ir ao cinema) , das HQs e, mais tarde, dos livros. 

A escola não mudou isso. A vida escolar se resumia para mim a um artificialismo abstrato através de seus conteúdos impostos, de sua desagradável rotina de exercícios, testes e provas.

Eu me alimentava silenciosamente de fantasia à margem de todo cotidiano. Confesso que isso nunca mudou. Permaneci a vida inteira inadaptável ao existir pragmático e normativas da realidade social.

Mas a música era minha mais intensa forma de evasão, meu modo predileto e mais eficaz de me desligar de tudo.

Nunca fui capaz de aderir satisfatoriamente a uma persona, a uma função ou identidade social. Não foi fácil para mim escolher uma profissão. Não me sentia seduzido por nenhuma vocação. Acho que foi por isso que escolhi a graduação em História, tendo sempre a filosofia como vocação. Mas eu era de família humilde e tinha receio de não conseguir ganhar a vida através da filosofia. Não sei bem porque a História me parecia uma alternativa mais viável. Hoje sei que nunca me livrei da filosofia.... minha vida profissional se definiu por improviso e arranjos provisórios que se tornaram definitivos. Como já disse, o funcionamento do mundo sempre me pareceu algo absurdo. Nunca achei que teria um lugar nele. Eu tinha uma imaginação demasiadamente intensa e pouca vocação para a realidade. Só com muita sorte poderia ser alguma coisa na vida. 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

MÚSICA E AMBIÊNCIA


Desde a mais elementar infância tive consciência de que a vida possui um componente sonoro determinante.

Os sons, e a música espacialmente, dão ritmo a nossa experiência do real. Uma música que nos toca é um lugar, um ambiente. 

Música é essencialmente movimento, um deslocamento. Ela é a forma mais direta de dizer memórias , afetos e deslocamentos.

Minha mãe sempre cantava. Quando criança a medida do mundo era para mim a intensidade e textura de sua voz.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

CASA


Minha casa sempre será a casa dos meus pais. Mesmo que já não a tenha como residência por quase trinta anos, é lá que ainda moro como um ausente.

 Não subestimo a memoria afetiva do lar familiar, o fato de ser esta casa antiga, incondicionalmente, minha referencia de abrigo ou, simplesmente, meu lugar no mundo.

Mesmo que meu quarto esteja vazio é lá que me guardo sempre do tempo e do acontecer do mundo.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O CÉU E MINHAS IMAGINAÇÕES



Não me lembro até qual idade cultivei uma espécie de deslumbramento pelo céu. Talvez até os dez anos, arriscando um palpite muito arbitrário. O fato é que perdia sempre algum tempo pela manhã, no final da tarde, e , principalmente a noite, contemplando o firmamento. A lua e as estrelas me fascinavam. Mas era um pouco antes do crepúsculo que as nuvens pareciam contar histórias. Adivinhava em suas formas desenhos de rostos, animais e paisagens grandiosas. Era como se o céu contasse uma história sempre melancólica antes do anoitecer.

Eu me sentia terrivelmente pequeno diante do céu.