Nossas lembranças não tem futuro. É isso que as torna preciosas, únicas, dentro de nós na experiência de biografias.
O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
sexta-feira, 24 de abril de 2020
MEMÓRIA E VIDA
O tempo e a vida que vivi só será visível dentro da leitura coletiva de um passado, dos dizeres de uma época, e na imaginação das coisas perdidas. Isso não pode mudar qualquer narrativa pessoal, qualquer memória íntima de experiências desaparecidas.
domingo, 12 de abril de 2020
INFÂNCIA E TELEVISÃO
Antes da internet a televisão capturava nossos afetos, imaginação e pensamentos. Era impossível alguém estar realmente em casa sem ter uma televisão. Através dela o mundo se inventava, estabeleciamos rotinas, hábitos e ilusões. Minha própria infância foi em grande medida produzida pela televisão.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
UMA NOTICIA TRISTE
Lembro-me de uma excursão de escola durante o ensino médio cuja volta foi marcada por um episódio triste. Uma colega de classe recebeu no retorno, logo ao descer do ônibus, a notícia do falecimento do pai, que andava muito doente.
O choro franco e desesperado dela na ocasião me impactou muito. Afinal, eu não tinha ainda nem 18 anos e a morte dos meus pais me parecia, então, uma possibilidade absurda. Na minha ingenuidade não admitia a realidade dos órfãos e considerava inadmissível que minha colega perdesse seu pai ainda tão jovem. Me parecia algo contrário a natureza.
Lembro que escrevi um bilhetinho tentando inutilmente conforta-la. Não recordo seu conteúdo. Mas sei que não tinha na epoca maturidade suficiente para escrever qualquer coisa realmente significativa.
A dor e a situação dela me impactou de modo profundo justamente porque era para mim algo inconcebível, um verdadeiro absurdo. Eu ainda acreditava que havia um sentido, uma ordem, que nos garantia que a realidade sempre seria definida por certo "bom senso" da natureza.
SOBRE INFÂNCIA E IMAGINAÇÃO
O tipo de envolvimento de uma criança com a realidade é essencialmente amoroso e depende da capacidade de " fabulação ", de significação imaginativa.
Para una criança os fatos nunca são apenas os fatos. Por isso sou dominado por uma nostalgia desmedida da infância. Quando criança eu podia sentir a alma do mundo. A escola demorou para me roubar isso.
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