quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

QUANDO UM ANO NÃO ACABA...

No Réveillon do ano em que minha mãe morreu, a zero hora não tinha cara de tempo. Nada dizia o ano seguinte. Tudo era a melancolia de saber o passado dentro de mim como a perde de alma de todas as coisas vivas....

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

MATURIDADE

 

Não é apenas pelo vigor e boa disposição física que tenho saudades da juventude. É também pelo fato dos meus pais estarem vivos e por me animar, então, um certo gosto pela existência, que o passar dos anos arrancou de mim.

Acho que quando desaprendemos a brincar, quando deixamos a infância, começamos a estabelecer uma relação desencantada com a existência. Afinal, tudo que nos diz respeito, a partir de então, se reduz ao desempenho de uma dada persona através da qual os outros nos enxergam como parte do jogo social. A vida adulta nos rouba qualquer traço de espontaneidade, de intensidade e imaginação no trato com o mundo.

A CONSCIÊNCIA DO TEMPO HOJE

Toda minha memória e vivência íntima das coisas é perecível.
A memória do mundo é que persiste, coletivamente,
Através do nossas lembranças e esquecimentos.
Mas se cada um de nós está fadado ao esquecimento, ao silêncio do passado acumulado nas entranhas da consciência coletiva, agora este mesmo passado é cada vez mais o íntimo desconhecido outro dos situações contemporâneas.
A História já não nos acrescenta nada em tempos de um presente cada vez mais estendido.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

MAMÃE BEBÊ

Nunca soube a criança
Dentro da minha mãe.
Desconheço o que nela
Era o ser mais profundo 
Em vida nos tempos diversos
Do seu acontecer biográfico...
Mas sou íntimo agora
Do mais profundo da sua eternidade
Dentro de mim.....

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

MATERIA BIOGRÁFICA

O tempo, a paisagem, a palavra e o corpo, através dos outros. Isso define a experiência da vida no movimento se quase ser.
A consciência tem gosto de sonho e na memória parece que a vida é a ficção de um filme, qualquer coisa dentro dos olhos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

QUASE CINQUENTA ANOS

 

Os dias eram mais claros quando eu ainda era jovem, assim como as noites eram mais profundas. Existia em mim qualquer intensidade agora desconhecida em meu envolvimento com a vida. Sei que sabia o mundo de outra perspectiva quando o futuro me parecia ainda maior do que o passado.

Cheguei a idade do niilismo, quando o dia seguinte é um deserto e o amanhã apenas silêncio. Quase tudo se tornou para mim impossível.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

CARTÕES DE NATAL

Na infância via chegar em dezembro pelo correio cartões de natais de familiares dirigidos a minha mãe ou ao meu pai.
Era um costume que hoje, desaparecido, em tempos de tecnologias digitais, parece um artifício mais sofisticado do que qualquer coisa produzida pela ciência da computação.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

VIDA ACADÊMICA

Passar para uma universidade pública na capital, com 18 anos, foi o fato que condicionou todo o resto da minha vida.
Uma graduação em História, entretanto,  me levou a um questionamento dos saberes e dos poderes da academia como instância colonizadora do pensamento. 
Desistir da possibilidade de uma carreira acadêmica foi admitir para mim mesmo que as letras me levavam acima de tudo a poesia é a uma poética do mundo.
Sendo assim, me tornei errante e sem rumo. Um adulto precário no mundo de obrigações e sobrevivencias impostas pelo imperativo de produtividade e consumo que nos impõe o sistema.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

PASSADO

 

Tenho um passado.

Mas o que importa?

O passado não tem vida,

Não acontece,

Apenas lateja dentro da gente

como nostalgia, como ausência,

de algo em nós que deixou de ser,

que não podemos mais viver.