Eles não se tornaram ancestrais quando morreram e vão além da memória dentro de mim.
O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
terça-feira, 23 de março de 2021
CONTRA O CONCEITO DE ANCESTRALIDADE
ancestralidade não é um vonceito que da conta da falta que dinto dos meus pais e dos meus avós. É uma ideia que não explica o quanto a vida dekes esta contida na minha, mais do que minha propria vida na ausência deles.
segunda-feira, 22 de março de 2021
O QUINTAL
As mangueiras não existem mais no fundo do quintal.
Nem bananeiras, bambus, cana ,
cigarras, marimbondos e mariposas
decoram hoje a paisagem
que tanto nos comunicava
um tempo ancestral
onde a natureza
ainda corria nas veias.
Hoje o quintal é quase um deserto
dentro do que restou de nós.
sexta-feira, 19 de março de 2021
TEMPO E ALTERIDADE
Olho os futuros do mundo
com os cansados olhos
dos meus passados.
O amanhã não me importa.
O tempo não é tudo,
e a vida transforma
o sentir e o saber
do meu corpo imerso
no inacabamento do instante.
O amanhã não é nada
diante do abismo do agora.
Todos os dias tenho nascido de novo
e me surpreendido o fantasma de um outro
que escapa do espelho.
terça-feira, 9 de março de 2021
A SOLIDÃO COMO MODO DE VIDA
fui uma criança solitária no ceio familiar. Apesar de toda atenção dos meus pais, de ter uma irmã, sempre me sinti prisioneiro do meu mundo interior e das minhas fantasias.
Só tive convívio social através da escola. Mas nunca fui capaz de construir grandes amizades, mesmo sendo sociável. Vivia pulando de uma paixão platônica a outra. Além disso. minha mãe não me deixava brincar na rua com outras crianças, o que me fez tomar a solidão como um modo de ser.
Acabei me tornando um adolescente ainda mais solitário e romântico pouco adaptado a realidade. Por fim, me tornei um adulto de vidarelativamente isolada e perdido no mundo. Alguém incapaz de adaptar-se ao teatro da existência comum e suas tantas contradições.
Chego aos cinquenta anos reconhecendo na solidão um modo de ser. Não mais como um fardo, mas como uma necessidade.
quarta-feira, 3 de março de 2021
A MISÉRIA DA VIDA ADULTA
tornar-se adulto é se transformar em um escravo de qualquer trabalho que nos condena a não viver para sobreviver.
Existimos para o vazio do consumo e para ditadura dos boletos. Não existem biografias. Fomos reduzidos ao quantitativo de números.
ANCESTRALIDADE
Depois que nossos familiares morrem eles se tornam ancestrais. Ganham uma outra vida na intensidade da memória. Se tornam um campo afetivo, uma presença abstrata, que não cabe na experiência da ausência. trata-se, antes de tudo, de uma falta que nos preenche tornando o passado uma palavra obsoleta.
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