sexta-feira, 30 de julho de 2021

LIVROS

Os livros sempre foram para mim uma experiência de sensações,  mais do que de conhecimento ou saber. Cada livro que me penetrou o corpo na aventura de uma boa leitura, me comunicou sensibilidades e modos de existência,  contra todo logocentrismo e elitismo das letras públicas e institucionalizadas em orientações normativas do dizer e do pensar. Livros para mim são ferramentas de transgressão,  de questionamento do normal e do cotidiano. Todo livro que me tocou , seja de filosofia ou literatura, foi antes de tudo um acontecimento poético e estética  do espanto de qualquer forma de sublime.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

INFÂNCIA E MITOLOGIA

Sou habitado pelo sem tempo de infâncias .
Infâncias vividas e sonhadas
em um devir criança
que fazem de mim um velho alado voando o chão. 

Sou o impessoal da natureza selvagem,
mais animal do que gente,
na intensidade do meu passado
através do vivido da imaginação presente.

Sou mar, céu e vento
na apoteose do anormal e do singular.

Sou o intempestivo de toda indeterminação
no delírio de uma biografia.



terça-feira, 27 de julho de 2021

MEDO DE ESCURO

Quando pequeno eu tinha medo do escuro e da noite. Mas não  creio que seria adequado, no meu caso, qualificar tal medo como transtorno ou fobia.  Era pura e simplesmente uma insegurança de criança  que quase se confundia com o medo da solidão.  
De qualquer forma, eu só dormia com a luz acesa, mas tinha o medo abrandado pela companhia dos meus pais. O maior de todos os medos era o pesadelo de ser abandonado. Contra todos os outros,  bastava eu estar com meus pais.
Acho natural que toda criança tenha medo de escuro dada sua total dependêndencia dos adultos para garantir sua própria sobrevivência.  
Mas o meu medo era alimentado por fantasias irracionais de conteúdo impessoal.  Imaginava fantasmas e criaturas sobrenaturais espreitando no escuro. Óbviamente, nunca me deparei com nenhuma entidade metafísica.  Mas o medo não se alimenta de provas empíricas e nem se ilude com ponderações racionais. Eu tinha medo, e pronto.
Não  sei dizer com que idade o medo se dissipou. Talvez por volta dos meus quinze anos. É  impossível  precisar. 
Para a criança que fui, o mundo era uma coisa enorme e desconhecida. Apenas em casa eu me sentia realmente seguro  sob todos os cuidados das figuras parentais. A vida se resumia em estar em casa. O lado de fora era a televisão , através da qual, o mundo apresebtava-se domado.


A VIDA CONSUMADA ANTES DO FIM

 

Causa um profundo espanto que tudo aquilo que me definiu o cotidiano e a existência durante tantos anos, seja sob a forma de pessoas e lugares, tenha desaparecido repentinamente nas brumas do esquecimento e da ausência de uma hora pra outra.

Definitivamente, nada agora é realmente importante e sobrevivo ao meu passado como uma sucata inútil esperando encontrar minha própria ausência como colapso físico e orgânico da minha nula existência.

Meu tempo presente é sobreviver a quem fui entre os outros sem qualquer expectativa de por vir.

sábado, 24 de julho de 2021

VIDA E MORTE

Meu mundo se tornou menor com a morte dos meus pais e de outras pessoas próximas. Tal subtração ontológica   me impôs uma certa indiferença em relação  a vida e ao mundo. Tudo me parece  tão efêmero e transitório que quase não merece cuidado, que não  cria significado. A morte nos lembra o quanto não pertencemos a vida.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

A CASA ANTIGA

A casa antiga é  agora uma distância no mapa da minha vida. Um ponto perdido de passado, lugar de memória  no território do impossível. Já não  tem realidade  na matéria do inatingivel.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

ENVELHECIMENTO E PRECARIEDADE

Envelhecer nos leva a confrontar nossa finitude em seu sentido mais radical . A morte dos pais e de outros entes queridos, experiência comum  na segunda metade da vida, não raramebte, ingendra em nós novas sensibilidades e questões,  deslocando o ego do centro da consciência.  Embora não  seja uma regra, tendemos a encarar a vida de modo menos pessoal. Percebemos que uma parcela consideravel de nossa experimentação da vida, escapa ao nosso controle e que somos mais precários em nossas  modos de viver do que gostariamos de admitir. 
Cheguei ao cinquenta anos assombrado com a solidão que define  minha presença no mundo, ameaçado por todas as possibilidades de desdobramento da minha biografia.

LEMBRANÇA E VIDA

 

No álbum de fotografias

dos anos dourados da família,

a vida figura plena,

intensa e infinita.

Hoje, entretanto, quase todos estão mortos.

Sou eu um dos poucos sobreviventes

de um passado comum perdido

que ainda hoje nos define o possível da vida.

 

No triste silêncio do álbum de fotografias

Dói a vazia memória de dias seguintes

que foram arrancados do nosso futuro

que jamais se fez presente.


quinta-feira, 1 de julho de 2021

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

Não  há  consciência  sem esquecimento e lembrar é,  paradoxalmente, a forma mais corriqueira de esquecer. Afinal,  o que é o passado além do pertubador silêncio de um túmulo?