sábado, 30 de outubro de 2021

FIM DO TEMPO

A cidade onde nasci
habita dentro de mim,
mas é outra no mapa,
contra toda a minha memória. 
Ninguém sabe sobre a casa
onde cresci,
sobre as pessoas que conheci.
Ninguém mais lembra da minha história. 
Meu tempo partiu com a aurora,
rumo ao abismo do esquecimento.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

MEMÓRIA E IMPESSOALIDADE

A mídia televisiva e impressa  faz parte da minha memória pessoal, do meu modo de lembrar as décadas e experiências passadas. De fato, boa parte de nossa identidade é impessoal, massificada, por mais íntima e singularizante que podemos considerá-la.
 Somos produtos de uma época, moldados por hábitos e comportamentos coletivos. Não somos senhores de nossa própria identidade e de nossa memória. Por isso não deixamos vestigios.
Se há um modo de subjetivar e singularizar memorias, não  há como compartilhar o mais intimo de tal experiência que, fatalmente. há de morrer conosco.

domingo, 24 de outubro de 2021

FICÇÕES E MEMÓRIA

Tenho saudades de dias perfeitos.
Mas nunca vivi dias perfeitos.

O fato é que o passado se torna melhor 
com o acumular dos anos.

sábado, 23 de outubro de 2021

CONSCIÊNCIA NÔMADE

Meu passado é minha pátria.
Minha vida é minha cidadania.
Habito uma biografia
e não pertenço a nenhum Estado.
Sou minha história de vida,
e, mesmo nela,
não encontro qualquer identidade.

sábado, 16 de outubro de 2021

LEMBRANÇAS

Cultivo lembranças . Mas sei que elas não são o passado, mas qualquer modo de me saber no tempo dos outros e do mundo. Lembrar é inventar-se, acrescentar algo a realidade de nossos dias. Um algo que lhes escapa, sob o desfarce de nostalgia.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

BIOGRAFIA

Uma biografia não  cabe em palavras,
cria o infinito do seu tempo menor
na exploração do silêncio
de um viver maior. 

Biografia é um verbo de carne,
imaginação de mundo,
que não se reduz
a mentira de um eu
e as convenções de uma época.

Ela é a experiência de um devir biológico 
destituido do universal.

Toda biografia é esquecimento.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

DOIS TEMPOS

Divido minha vida em dois momentos: os tempos em que tinha mãe e o tempo em que sobrevivi orfão. Plural e singular, estes dois tempos definem dois sentimentos de mundo. Um vinculado a matriz biológica da minha vida e outro perdido dela, como se reinventado o momento do parto como um ser lançado ao caos do mundo.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

INFÂNCIAS E ABERRÂNCIAS

Quantas infâncias aconteceram em mim
e ainda correm pelos jardins do sem tempo até a toca do coelho branco?

O mundo ainda é uma brincadeira
na potência  da imaginação criadora,
mesmo que eu tenha adultado,
me tornando racional e amargo.

As crianças que fui um dia
ainda sonham e brincam
em qualquer parte de mim
anunciando delírios e paradóxos
contra os hortodoximos das ordens dos eus.

Elas sabem os incorporais,
encontros e acontecimentos,
seguindo junto com Alice através do espelho.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

MORTE E MEMÓRIA

O tempo ensina a saudade como matéria viva da realidade em voráz movimento sem sentido. 
Construimos nosso futuro mirando nosso ilusório passado biográfico. 
De onde supostsmente viemos importa mais do que para onde vamos. A vida nos ensina a morrer através da memória na medida em que nosso mundo pessoal encolhe e se desmancha no ar. Mas a existência não é linear, não sabe a distância entre dois pontos perdidos no infinito.

domingo, 10 de outubro de 2021

ÓCIO E HIGIENE DOMÉSTICA

Minha mãe tinha mania de limpeza. A maior parte do tempo estava a limpar ou arrumar a casa em tarefas sucessivas e intermináveis de de ordem doméstica. Quando adolescente, lavar diariamente o banheiro e alguns comodos de piso frio, além de molhar as plantas, eram afazeres que faziam parte da minha rotina. Mas como todo jovem, meu objetivo era não  fazer nada a maior parte do tempo. Lêr, assistir TV, e escutar música, era o que realmente me ocupava.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

SOBRE A FRAGILIDADE DE NOSSAS LEMBRANÇAS

As lembranças  que me pesam na memória  não dão conta do passado, oferecem uma pálida imagem do que foi vivido. Mas como poderia ser diferente? O passado esgota-se em si mesmo como esquecimento. Pois o eu é uma experiência  descontinua condicionada ao presente. Um presente que nunca é o mesmo como o próprio  eu. O passado é o oposto da ação. E a vida é ação, superação,  que ignora seus próprios  vestigios.
 A memória que importa é aquela lembrança involuntária marcada no corpo: saber comer, falar, respirar, ou, simplesmente, reconhecer. Não a memória  afetiva da identidade, dos momentos. Por isso as lembranças são tão frageis.

domingo, 3 de outubro de 2021

MEUS MUNDOS

O mundo é feito das experiências e imagens que acumulamos dentro de nós. Pode-se dizer que em cada época da vida vivemos em um mundo diferente e único. Partindo do mundo de intensidades e imaginações da infância, cheguei ao mundo quase deserto dos meus pós cinquenta anos. Foi uma viagem triste e tediosa. Mas cheguei aquele mundo onde vida e morte se nivelam em uma nadificação radical da existência. 
Todos os meus mundos de antes não cabem no mundo de hoje, que faz de horizonte, a vertigem do abismo e do sonho.