domingo, 26 de março de 2023

SOBRE DESAPRENDER A BRINCAR

A infância termina quando desaprendemos a brincar, a fabular, como é típico da imaginação infantil ou não inteiramente domesticada.
Mais do que um desencantamento do mundo, o que tal experiência proporciona, é uma morte de si, uma perda de alma.
Não me lembro quando ou como aconteceu comigo.... Talvez, tenha sido por volta dos 16 anos.


sábado, 25 de março de 2023

NOSTALGIA

Tenho saudade de pai, de mãe,
da casa, da rua,
de mim, do tempo
e da cidade
que me viu crescer.

Saudade de tudo aquilo
que me fazia viver,
que nunca me deixou morrer
e me faz acreditar que um dia
de alguma forma eu existi
entre os outros.




domingo, 12 de março de 2023

ENTRE SÉCULOS

As últimas décadas do século XX definiram o  arco temporal dentro do qual minha vida se tornou o que poderia ser. Em outras palavras, os anos 70 à 90 do século XX são meu território existencial.
É sobre suas ruínas que o século XXI me reinventou no anonimato de nossa triste aventura humana.
Devo dizer que, em certo sentido, me sinto um órfão do último século.

sexta-feira, 10 de março de 2023

A MORTE E OS NOSSOS LUGARES DE VIDA

Os lugares são definidos pelas pessoas que os habitam ou frequentam. Por isso a morte de alguém pode mudar profundamente a rotina de um lugar. Nossa existência é um fato acima de tudo geográfico e material.
Há lugares que mudaram tanto, acumularam tantas mudanças e mortes , que não lhes reconheço mais, pois foram totalmente ressignificados.
Os lugares onde cresci não guardam nada da criança e do jovem que fui, apesar de todas as minhas memórias afetivas.

sábado, 4 de março de 2023

A LIVRARIA DOS ESTUDANTES

Livraria dos Estudantes era o nome do sebo de província que nos anos de adolescência alimentou minha coleção de HQs e depois minha biblioteca. Desnecessário dizer que não haviam concorrentes.
Sujo, mal iluminado...
Era de fato um lugar bagunçado e meio insalubre como todo autêntico sebo deveria ser. Seu dono, um homem magro, pequeno e sem instrução, praticamente adivinhava sem muito critério o preço de suas mercadorias. O valor correspondia muitas vezes mais a aparência do cliente do que o eventual valor do livro negociado.
Não se conseguia muita coisa interessante naquele lugar. Alguns clássicos da literatura universal, alguma publicação acadêmica meio defasada e uma ou outra surpresa garimpando bem.
Mas eu não podia reclamar quanto a parte das HQs, naquele tempo, ainda reduzidas aos formatinhos ou famigerados gibis.
Tinha, nos termos usados pelo vendedor, o status de "freguês bom". As vezes levava até alguma coisa fiado, pois tinha crédito no estabelecimento pelos anos de fidelidade.



sexta-feira, 3 de março de 2023

NOSTALGIA

Parece um sonho
a lembrança
de que um dia
eu já fui criança.

Sinto falta da simplicidade
que definia a infância
e todos aqueles futuros
que não  se tornaram realidade.

Sinto falta do tempo onde eu tinha
uma vida inteira pela frente
e o mundo inteiro  cabia na minha existência.