sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

QUASE SEM PASSADO

Não sei definir meu lugar dentro da historia da minha família. Na verdade se quer conheço o histórico familiar de meus próprios pais e dos meus avós. Tal ignorância é característica da minha geração. 

A memória coletiva ou social não nos é atrativa. Aliás, muito precariamente lidamos com nosso próprio passado pessoal. Somos demasiadamente consumidos pelo presente e por expectativas de futuro que nunca se realizam. Fomos educados à não olhar para trás. Envelhecer não nos proporciona tempo para lembrar....

domingo, 17 de dezembro de 2017

NÃO ME LEMBRO...

Não me lembro da primeira vez
Em que provei o gosto de um chocolate,
Do meu primeiro dia na escola,
Do meu primeiro amor...

Não me recordo da emoção
de ter feito qualquer coisa
Pela primeira vez.
É como se tudo fosse
Pré estabelecido, cotidiano
E indefinido,
No devir concreto das coisas.

É como se eu não fosse
Um redescobrimento constante
De mim mesmo
Além da prisão de todas as definições
E conceitos vividos.
è como se nada um dia 
houvesse sido inventado
por uma primeira vez.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

VIDA E MEMORIA II

A memória é uma faculdade essencial para nossa definição como indivíduos enraizados em uma experiência pessoal do tempo e da vida. Mas é uma ilusão achar que nossas lembranças são suficientemente estruturadas para permitir uma representação satisfatória de nosso arquivo biográfico. 

Todas as nossas lembranças somadas dão conta de uma parcela mínima de tudo aquilo que vivemos um dia. Fato que afeta consideravelmente nossas impressões mnemônicas. A maior parte do que vivemos simplesmente esquecemos.  Quem, afinal, consegue lembrar de todos os aniversários ou réveillons? 

O modo como lembramos é o que realmente é determinante porque expressa nossas eleições subjetivas e valores. Por outro lado é incômodo  perceber a deterioração  e a fragilidade de nossas lembranças e admitir sua seletividade.

Contrariando nossas expectativas, a vida não cabe em lembranças e o que passou passou. Não viveremos de novo e isso não faz qualquer diferença.

É sempre o que vivemos agora que importa. Mas esse agora, de modo muito perturbador, apenas serve para inventar novos esquecimentos e memórias.

O passado é a pior parte do tempo, a que mais nos afeta afetiva e existencialmente.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

VIDA E MEMÓRIA

Aprendi a frequentar o passado como matéria viva dos fatos que me consomem. Me tornei mestre na arte da evasão cronológica. Fiz do tempo dos mortos morada privilegiada dos meus pensamentos. 

Sei que o presente não ocupa lugar proeminente no acontecer de mim mesmo, que meus atos banais e cotidianos pressupõe uma espécie de arcaísmo biográfico oculto na sombra das imagens de infância.

O futuro é sempre um tempo cada vez menos possível. Minhas urgências habitam meu passado afetivo e idealizado como memória e referência de ser neste mundo.

sábado, 9 de dezembro de 2017

A DESCOBERTA DA POESIA

Não me lembro exatamente de quando comecei a escrever poemas. Mas posso dizer com certeza que Fernando Pessoa foi o primeiro poeta que li. Tinha 17 anos quando peguei emprestado em uma biblioteca pública uma coletânea de seus versos e me fascínio com seus heterônimos. Creio que a experiência de sua leitura inspirou-me a rabiscar meus próprios versos. 

Eu era um adolescente melancólico e dado a solidão. A poesia apresentou-se para mim como uma vocação. Fazia versos como quem escreve um diário.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A SOLIDÃO COMO DESTINO

Poucas pessoas foram realmente importantes em minha vida. Falo no sentido da intimidade de longo prazo que normalmente é uma exclusividade do núcleo familiar. 

Tive grandes amigos que frequentei intensamente por certo período. Mas não gozei do privilégio de amizades de infância ou de décadas de viver cotidiano e compartilhado. Tive isso exclusivamente com uma ex namorada. Mas nunca vivi qualquer coisa próxima da rotina de uma união estável. 

Sempre fui, em alguma medida, um grande solitário e  considerei, invariavelmente, a convivência com meus pares um modo de confrontar a mim mesmo, uma forma de cuidado de si.

Se na infância meu mundo era profundamente marcado pela fantasia das HQs, a partir da adolescência me tornei um leitor de filosofia e literatura, um amante dos livros. E foi nesta condição que me inventei como adulto. A minha vocação para solidão sempre foi latente. Mesmo quando eu era demasiadamente jovem e cultivava o ideal do amor romântico, minhas idealizações erótico afetivas me conduziram a solidão como um imperativo idealista. Justamente por isso perdi a virgindade tardiamente e para viver meu único caso de amor.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

SOBRE MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS

Como todo mundo passei por várias idades, épocas e lugares. Pouca coisa permaneceu constante ao longo da existência. Mas são essas poucas coisas que fazem diferença. Seja de forma positiva ou negativa. 

Normalmente damos mais valor às mudanças do que as permanências. Mesmo reconhecendo que mudanças frequentemente acarretam perdas.

  Pessoalmente, gostaria de ter algumas certezas cotidianas para melhor aproveitar as pequenas e grandes mudanças em vez de me sentir desenraizado da minha própria existência. Todas as coisas vividas, afinal, são assustadoramente frágeis e efêmeras....

domingo, 3 de dezembro de 2017

SOBRE O EU QUE ME INVENTA

O eu é mais uma forma de habitar o passado do que um artificio da consciência. A memoria estabelece as coordenadas da existência. Ela diz quem nós somos através do modo como lembrarmos. 

O agora é apenas um detalhe de quem somos na contramão do tempo. Não consigo encontrar um ponto fixo onde minha existência caiba neste eu que me organiza como uma coletânea sempre atualizada de pequenas lembranças.

Tudo que sei é que não sou exatamente este eu constante articulado pela memória.

A INTIMIDADE DA EXISTÊNCIA

Ao longo destes anos, que não cabem por inteiro em minha memória, levei uma vida sem grandes traumas. Sofri uma existência banal e discreta. Destas que são logo esquecidas porque não deixam marcas. 

Tudo que vivi diz respeito apenas a mim mesmo. É intraduzível, embora possa ser precariamente domesticado pelo sentido de uma narrativa.

Mas o fato é que o meu modo próprio de perceber é saber o mundo morrerá comigo sem deixar efeito, herdeiros ou perpetuadores. 

sábado, 2 de dezembro de 2017

SAUDADES DA INFÂNCIA

Quando criança, nunca pensei muito no tipo de adulto que seria um dia. Hoje penso o tempo todo na criança que fui , embriagado de nostalgia. 

O passar dos anos é um acúmulo de perdas e transformações sem horizonte. E a vida adulta a pior parte de toda biografia. Acho mesmo que somente durante a infância soube todo o encanto de estar vivo. Não sobra muito depois disso.