A memória é uma faculdade essencial para nossa definição como indivíduos enraizados em uma experiência pessoal do tempo e da vida. Mas é uma ilusão achar que nossas lembranças são suficientemente estruturadas para permitir uma representação satisfatória de nosso arquivo biográfico.
Todas as nossas lembranças somadas dão conta de uma parcela mínima de tudo aquilo que vivemos um dia. Fato que afeta consideravelmente nossas impressões mnemônicas. A maior parte do que vivemos simplesmente esquecemos. Quem, afinal, consegue lembrar de todos os aniversários ou réveillons?
O modo como lembramos é o que realmente é determinante porque expressa nossas eleições subjetivas e valores. Por outro lado é incômodo perceber a deterioração e a fragilidade de nossas lembranças e admitir sua seletividade.
Contrariando nossas expectativas, a vida não cabe em lembranças e o que passou passou. Não viveremos de novo e isso não faz qualquer diferença.
É sempre o que vivemos agora que importa. Mas esse agora, de modo muito perturbador, apenas serve para inventar novos esquecimentos e memórias.
O passado é a pior parte do tempo, a que mais nos afeta afetiva e existencialmente.