sábado, 24 de novembro de 2018

EXISTÊNCIA NÔMADE

Desde o dia em que saí da casa dos meus país e da cidade em que nasci, para estudar na capital, vivo sozinho e de modo provisório e precário. Mas sempre frequentou minha imaginação a fantasia da casa ideal, do meu lugar no mundo. 

Seria uma casa com quintal, varanda, paredes cheia de quadros e móveis antigos. Seria um lugar de passados, de memória. Uma casa dever ser antes de tudo um espaço de identidade e recordações, um lugar meio fora do mundo. Nunca tive o privilégio de construir uma casa. Sempre me senti nômade depois que me perdi no mundo....

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

MÚSICA E COTIDIANO

Nos anos 80 e 90 o rádio era ainda um dispositivo  consagrado majoritariamente a música popular. Discos e toca fitas também eram assessórios indispensáveis. A música nos frequentava em todo lugar e definia o ritmo da própria vida. Havia no cotidiano uma certa leveza que desapareceria progressivamente nas décadas seguintes com as mídias digitais e a internet. Ocorreu uma banalização sem procedentes da audição musical

VIDA ADULTA

Quando criança eu nutria ilusões banais sobre a vida adulta. Achava que seria um período de emancipação financeira em relação aos meus pais onde poderia viver de acordo com minhas próprias regras.

O tempo mostrou que eu estava errado. Ser adulto não passa de um desencanto em relação a existência. É estar preso à convenções e obrigações. Não ter muito tempo para si mesmo.
Tornar-se adulto é a pior coisa que nos acontece .

AMBIENTAÇÃO

Minha infância foi configurada pelo meio urbano de uma cidade pequena. Mas a origem rural da minha família deixou uma marca silvestre em minha sensibilidade. Gosto do ambiente de casas contra o regime de caixa dos apartamentos. Amo espaços abertos. Sinto falta de experimentar o céu noturno com os olhos e escutar os barulhos de uma paisagem noturna. São coisas que me fazem falta.

ENVELHECIMENTO

Envelhecer significa para mim contemplar a própria existência. Com o passar dos anos nos convertemos em testemunhos de um passado perdido.

O tempo presente é para os jovens. Socialmente nos transformamos em simulacros de nós mesmos. Tudo ganha um sabor de impessoalidade e anonimato quando o corpo já não é mais o mesmo.

sábado, 10 de novembro de 2018

MEMÓRIA DO NÃO SER

Do ponto de vista das minhas expectativas afetivas, minha vida nunca começou, nunca aconteceu como materialização dos meus sentimentos mais profundos de existência, como rito de criação de mim mesmo através da radicalidade dos atos, dá intercessão da ficção do eu e do mundo.

Toda memória da minha existência testemunha o não ser como fundamento e estrutura de tudo aquilo que me foi possível.

SOBRE NÃO SER MAIS JOVEM

Não sei dizer em qual momento exato da vida deixei de ser jovem. Não sei mesmo se quer se isso aconteceu. Juventude e velhice são mais papéis sociais do que propriamente um marco físico e temporal que nos diz o corpo. Psicológica e fisicamente temos todas as idades do pensamento e pouco importa o peso dos anos.
Mas não sou mais jovem ou meu comportamento, prioridades e afetos não são mais os mesmos de vinte anos atrás. É certo que a vida mudou mais do que eu. Mesmo assim, socialmente não sou mais jovem. Não sou visto pelos outros com os mesmos olhos.
Difícil saber exatamente quando fui requalificada socialmente.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

BATMAN


Batman habitou desde muito cedo minha imaginação infantil como personificação mais perfeita do mito do herói. Sua figura me fascinava mesmo nas primeiras histórias carregadas de irrealidade que eu lia em preto e branco.


Acho que não me dei conta da evolução da personagem ao longo dos anos até Flank Miller publicar seu Cavaleiro das Trevas consagrando o lado sombrio e atormentado como traço definidor da personalidade do herói.

Dentre todos os super heróis Batman foi o único que em sua intemporalidade cresceu e amadureceu comigo tornando-se uma variação de si mesmo ao longo do tempo.

as diversas imagens do Batman quase correspondem as minhas próprias idades. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O ATEMPORAL DA VIDA PRIVADA

O essencial da existência tem um gosto de atemporal. No meu caso está associado a vida doméstica e previsível da casa dos meus pais. É tal ambientação  elementar que configura minha sensibilidade e percepção. O vigor da juventude e o território domestico está em franca oposição à minha experiência presente e a todo desabrigo  que  passou a definir meu existir comum, meu acontecer adulto e independente.

COMER PEIXE...

Nos dias de infância na casa dos meus avós, havia algo de singular quando peixe fazia parte do cardápio. 

Gostava de observar minha avó limpando peixes. Depois ela jogava a sujeira no fundo do quintal. Era o momento predileto dos gatos de casa.

Adorava peixe frito. Mas, como toda criança, tinha problema com espinhas presas na garganta. Comia muita farinha para resolver o problema. Mas o que acho mais curioso é que as pessoas ainda comem peixe, mas passam longe de viver a mesma experiência, o mesmo sabor empregando nas coisas, que ainda era possível em minha infância.