O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
segunda-feira, 23 de outubro de 2023
AINDA SOBRE A VIDA DE ESTUDANTE
A escola é antes de tudo um espaço de convivência e socialização. Isso torna o tempo livre do recreio mais importante do que o tempo das aulas. A sala de aula é como a cela de uma prisão e a vida de estudante, nos anos de ensino fundamental e ensino médio, acontece, mais intensamente , justamente, fora da sala de aula. Pois a camaradagem entre estudantes é o mais elementar aprendizado escolar.
A CRIANÇA MORTA
A criança que fui um dia
não existe mais.
Entretanto, não a consideram morta.
Mesmo que não seja eu
qualquer eco daquela criança
que, certamente, em mim
jamais se reconheceria.
Sei que ela está morta
junto com o corpo e o passado
que lhe definiam
no seu extinto mundo
de imaginações, pessoas e infâncias.
Não sou seu futuro.
Hoje , meu corpo, minha vida
é somente outra consciência
que se perde, independente ,
em outro tempo, pessoas e coisas
indiferente a um passado
que nunca foi nosso.
DA VIDA DE ESTUDANTE A VIDA ADULTA
Cursar uma graduação nos anos 1990 nem de longe representou para mim a aposta em uma vida acadêmica ou em uma carreira universitária. Foi ao contrário o coroamento da minha vida de estudante.
Em outras palavras, os anos de graduação, foram a experiência máxima de um ethos estudantil, de um estilo de vida juvenil que, em termos de rito de passagem, corresponderia a uma transição a contra gosto para chamada vida adulta e produtiva.
Como é muito convencional, considero que os anos de graduação foram os melhores da minha vida. Um momento de experimentações e convivências únicas que definiram minha sensibilidade e subjetividade de modo duradouro.
Mas nem de longe encarei estes anos de forma prática ou pragmática, pensando na construção de uma persona social ou profissional. Sempre resisti a ideia de ter uma profissão e ser escravo de qualquer trabalho. Expulso do paraíso da vida de estudante, após o fim dos anos de graduação, não me conformei ao deserto de uma pós graduação ou a busca de uma inserção no mercado de trabalho.
Minha sobrevivência permaneceu dependente do arranjo precário e provisório de um vínculo impregatício pouco satisfatório. Foi o preço que paguei por minha irracional resistência ao caminho que eu mesmo havia até então construído para mim mesmo. Minha juventude passava com os anos , mas meu desajuste a sociedade em que vivia permanecia como um inconveniente traço de personalidade.
sexta-feira, 6 de outubro de 2023
VESTIGIOS DE UM CADERNO ANTIGO
Nas paginas quase ilegíveis de um caderno velho
Reencontrei vestígios de um eu mais antigo
Que sabia o mundo, a vida e imaginava futuros.
No fundo ele existia apenas através de sua narrativa.
Desconhecia meu corpo e todos os labirintos Dos tempos da minha existência.
Este eu mais antigo, no fundo, tinha muito pouco de mim
E, entretanto, não era outro.
RECORDAÇÕES AVULSAS DE QUALQUER INFÂNCIA QUE ALGUM DIA QUASE FOI MINHA
Muito da minha existência sobrevive em segredo nos ecos de uma antiga canção de radio.
Pois os cheiros da cozinha da minha avó ainda impregnam as paredes do meu antigo quarto de dormir.
Mesmo hoje, quando a velha casa já não existe, já não é minha, nem de ninguém.
Há apenas os ecos do meu passado nas notas de uma velha canção de radio, que todo mundo lembra meio comovido sem nem mesmo saber de mim ou lamentar a ruina da minha quase incerta existência.
O mundo segue imperfeito e quase ilegível superando o encanto semi vivo da memória de nossas ridículas e inúteis infâncias.
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