quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O BOM FRACASSO

Minha vida se resume ao bom fracasso de ter me tornado um poeta razoável,
de nunca ter tido dinheiro,
bom emprego, filhos e longos relacionamentos.

Tenho orgulho de não ser um exemplo.

ELDENORA GATA ARISCA



Eldenora era a gata mais arisca
de uma linhagem de sete gatinhos.
Cedo tornou-se órfã
e foi buscar pelo mundo 
o aconchego do seu próprio cantinho.

Vagou  por muitos telhados
levando sempre consigo 
a lembrança e o carinho 
de seus familiares felinos.

Eldenora, apaixonou-se pela vida,
colecionou aventuras, experiências,
teve suas crias,
suas boas noites  e maus dias.

Vive, ainda hoje, cheia de manias,
sobre um teto de zinco quente, 
cercada de filhos, netos e alguma poesia.

Mal lembra a inquietude de seus tantos caminhos, descaminhos e experiências
sobre  telhados e  céus estrelados,
buscando seu caro cantinho.

Mas, depois de tudo, 
mesmo tendo encontrado um destino,
Eldenora permanece arisca
 e sente falta da antiga e velha linhada de sete gatinhos.










sábado, 6 de setembro de 2025

O FRACASSO COMO META

Espero, sinceramente, que minha vida se torne um caso de fracasso exemplar. Não quero  ser bem sucedido em um mundo onde somos coletivamente co-responsáveis pelas mais absurdas e cotidianas atrocidades. Recuso-me a participar ativa e tragicamente do progresso da Humanidade.

Definitivamente, não quero ser importante, fazer a diferença ou ser, de alguma maneira, vitorioso em meio a tamanha barbárie. Pois isso significaria minha rendição a padrões e convenções, aos pequenos e grandes absurdos da minha época e cultura.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

DESENHAR NA TERRA

Uma das minhas mais antigas e solitárias brincadeiras de criança era desenhar histórias na terra Com um graveto qualquer. 
Desenhava um quadro, apagava e fazia o seguinte. Pacientemente construi, assim, uma narrativa que ganhava vida e se perdia quase ao mesmo tempo.
Assim eu começava a inventar um mundo dentro de mim, na contramão da realidade.

CONSCIÊNCIA, MEMÓRIA E NOSTALGIA

O passado não é apenas feito de pessoas, lugares e experiências perdidas.  
 Memória não  é só lembrança.Mas, essencialmente, consciência e, como tal, continuidade, presença.
A memória é o que nos define como viventes, como singularidades.
A memória é uma coisa viva que nos define no mundo. 
Cada um de nós é um efêmero e circunstâncial arranjo de memórias que personificam um modo próprio de fabular, de saber o mundo.
Parte considerável do meu dia consiste em me perder em lembranças, saudades e nostalgias....
Nada nos é mais angustiante do que a transitoriedade de todas as coisas.


sábado, 16 de agosto de 2025

INFÂNCIA E FANTASIA

Para meu eu  criança brincar personificava o sentido da vida, pois era uma atividade que entrelaçava a imaginação e a realidade, encantando pessoas e mundos.
O mundo adulto era, então, um mistério encantado na incerta fronteira entre o pensar e o sonhar 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CADERNO DE VERSOS

Um naco de papel sujo de tinta.
Assim eu definia meu antigo
caderno de versos
hoje para sempre perdido e esquecido.

Talvez, tenha sido oportuno
seu extravio.
Pois eram versos sem brilho,
um futil exercício de inquietude
feitos por um eu que já não existe,
que não os reivindica para triste memória.

Jaz para sempre perdido
meu antigo caderno de versos,
permanecerá apagada 
sua irrelevante história.