domingo, 24 de fevereiro de 2019

MÚSICAS ANTIGAS

Gosto de escutar músicas antigas oriundas de um passado que nunca vivi. O ontem se tornou para mim um refúgio. Gosto do eco de coisas passadas e remotas que me distraem  do tempo presente. 

Gosto da ilusão de ser livre do peso do tempo, frequentar a imaginação de épocas perdidas, a ambientação de anos esquecidos.

Meu futuro hoje é olhar para traz.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

SOBRE A INFÂNCIA

Sei que os tempos de criança são uma construção social, que a infância que nos visita como memória não passa de uma invenção afetiva e fantasiosa de uma consciência adulta. 

Nada disso me impede de afirmar que a vida adulta me tirou muito em troca de pouco. Na infância eu provava a existência através da generosidade de meus afetos e imaginações. Pouco sabia da aridez do mundo e ainda gozava de alguma autonomia frente à coerção social. A vida adulta me tirou tudo isso para me fazer escravo de minha própria sobrevivência. De repente me surpreendi sozinho, vazio e infeliz inscrito em uma realidade de deserto urbano.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

SOBRE LEMBRAR DE SI MESMO

Lembro-me de lugares, pessoas e acontecimentos em diferentes momentos da minha vida. Mas não sou capaz de lembrar de mim mesmo quando mais jovem. Nada mais natural. Quase não prestamos atenção à nós mesmos. Não tenho lembrança da experiência do meu corpo, do meu rosto, dá minha voz. Mas sei que fui muitas outras pessoas dentro deste mesmo corpo que não existem mais.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

UMA FOTOGRAFIA ANTIGA

Nossa foto antiga virou quadro.
Habita agora o branco de uma parede
Onde não existe passado.
Apenas o silêncio presente,
A falsa inércia das coisas inanimadas.
A lembrança já não tem sentido.
Foi reduzida a referência vazia.
A foto já não diz nada.
A saudade não cabe em fotografias.
O passado é feito de tudo que não mais existe.
A foto tem efeito de pintura,
De reinvenção arbitrária
De qualquer realidade perdida.
Ela não comunica o que os olhos não sabem,
O que se perdeu através do devir e da vida.

OPOSIÇÕES

Partilhamos as mesmas emoções e sentimentos. Mas nunca as mesmas opiniões.
Dentro de cada um de nós há um mundo diferente.
A realidade tem a aparência de nossos caprichos. Somos juízes do mundo e advogados de nós mesmos.
No fundo nunca estamos juntos.
Existimos em palavras que nos separam.
É assim que vivemos seguindo entre despedidas e encontros.
As pessoas passam e a vida continua.
Poucas ganham acento na memória.

A VIDA EM FAMÍLIA

Sinto saudades da rotina doméstica da vida  com meus pais. A limpeza da casa, a hora das refeições, de ver TV. Os afazeres pequenos e banais da manutenção da vida , davam um gosto de ordem e segurança que definia o micro cosmos familiar. Era seguro e certo o estar entre os outros, tínhamos certezas uns dos outros... Ninguém nunca estava sozinho. Mas cada um vivia a parte enterrado dentro do seu próprio mundo. Nunca nos conhecemos direito.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

FRACASSO

Ao longo da vida sempre fui inadequado, alguém marginal aos rumos da existência comum.

Mesmo contando com o afeto de alguns e vivendo amizades sinceras, existi a margem dos lugares comuns.

A vida para mim sempre foi uma busca por autenticidade, mesmo que frustrada. Jamais vivi como os outros. Fui menos do que poderia ser. Tenho razões para me considerar um curioso e orgulhoso caso exemplar de fracasso.

SOBRE RELACIONAMENTOS

Só vivi relacionamentos amorosos por volta dos trinta anos. Mesmo assim foram poucos. Cabem nos dedos.
Quando jovem fui uma vítima do amor romântico. Consequentemente não tinha qualquer tino para construção de um relacionamento real.
Na adolescência era fascinado pelo mito de Orfeu e pela poesia. Não tenho o mínimo orgulho da ingenuidade que me movia nos anos de juventude. Muito pelo contrário. Eu lidava mal com a solidão e por isso amarguei certa atrofia emocional por idealizar demais o prazer de uma companhia íntima.
Definitivamente fui um adolescente ridículo.

SER E EXISTIR


Não quero pensar no meu passado como algo que me pertence. Ele é o que me escapa, o que não compreendo.

Todas as descontinuidades, perdas, transformações, que me conduziram a esse instante de aqui e agora são para mim quase ilegíveis.

As vezes penso que não sou uma única pessoa. Cada momento fez de mim uma variação  de mim mesmo. O passado é o presente de vários outros ecoando no imediato do meu agora.
Quem eu sou? No fundo não sei. Talvez eu não seja. Existir é mais do que ser.