sábado, 25 de maio de 2019

VAZIO BIOGRÁFICO

Depois de quase cinco décadas de existência, ainda sou incapaz de dizer o que foi ou o que é minha vida. Tudo que me acontece está condenado ao esquecimento. Nada do que me parece importante é para sempre. 


A morte é a principal invenção dos meus dias. E o que é a morte, além da expressão de singularidade, da fatalidade imposta pelo lugar comum da biologia?

De fato, não há nada de importante que eu possa dizer sobre minha perecível existência que não seja o eco da fábula da humanidade.

O ÔNIBUS IMAGINÁRIO

Um simples volante velho e um antigo tanque de cimento era tudo que eu precisava, no início dos anos 80, para passar horas brincando de motorista de ônibus no quintal de casa. 

A imaginária experiência de dirigir era saborosa. Hoje, entretanto, sou incapaz de entender como tal brincadeira me fascinava tanto.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

NUNCA TIVE UM CARRO

Nunca tive um carro. Também nunca ganhei o suficiente para ter um carro.  Não aprendi a dirigir. Meus pais também nunca tiveram carro. Andar a pé sempre me pareceu a forma mais adequada de locomoção. Sempre achei pessoas com carro arrogantes e prepotentes.

MEMÓRIA E LEMBRANÇA


Independente da minha idade atual,em relação a memória dos meus avós ou dos meus pais, sempre me sinto um jovem, uma eterna criança. A grandeza impessoal que eles representam enquanto imagens arquetípicas,  determina a atemporalidade da minha vivência juvenil em relação a eles. Trata-se, assim, de um sentimento de si que transcende a concretude da infância enquanto experiência objetivamente vivida.

Há em mim uma fragilidade ontológica e relacional que extrapola a corporeidade moldada por uma “consciência etária”, ou seja, pela persona etária ou social que me define em sociedade. Em relação as figureas parentais ocupo uma função, pertenço a uma dada ambiência  parental, a uma simulação mítica do núcleo familiar, que constela uma experiência arcaica e irracional que me reduz a condição atemporal de criança.

O biográfico e o impessoal se enlaçam na codificação mnemônica revelando uma dimensão atemporal e mítica da experiência de lembrar. Não é apenas minha vida que a memória invoca, é um sentimento de mundo e existência, um modo de ser.


sábado, 18 de maio de 2019

O ENCANTO DA PRAIA

Quando criança considerava a praia um lugar mágico. De fato era algo fora da vida cotidiana, uma experiência reservada ao período de férias escolares. Com regularidade incerta minha mãe nos levava ( eu e minha irmã) para passar uns dias  na casa de um tio.Ele morava em uma cidade turística e de belas praias. A experiência do mar me fascinava e contrastava com o medo que minha mãe sempre teve dele.

Curiosamente, depois de adulto, raramente fui a praia. Mas nunca esqueci o gozo que a vivência do mar me provocava na infância. Hoje sou incapaz de experimentar qualquer coisa parecida.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

VARIAÇÕES DO EU


Não sei quantos de mim existem espalhados pelo tempo da minha pequena vida. Mas sei que são muitos. Alguns mal lembro que fui um dia, embora sejam variações de um mesmo rosto.

Admito que as variantes  que definem  qualquer pessoa ao longo de uma  existência, todas as descontinuidades e impasses que dão substância a experiência biográfica, me provoca vertigem.

O meu ser de hoje é, dentre todas até agora, a versão mais desvalida de todas as que até então foram possíveis. Trata-se justamente daquela que se avizinha da velhice, que a toma como problema.  

MEMÓRIA E INVOLUÇÃO BIOGRAFICA: EXPOSIÇÃO DE UMA PSEUDO TEORIA


A memória é o modo como produzimos o passado. Ele só pode existir na medida em que lembramos. E cada um tem seu próprio modo de lembrar e significar suas lembranças. As vezes  fazemos isso com tamanha intensidade que arrancamos as cores do momento presente e destituímos o futuro do posto de senhor de todas as espectativas.

De fato, depois de certa idade, o passado passa a ser nosso lugar de identidade e existência. Ele se converte em uma espécie de paraiso perdido, em que pese todas as idealizações envolvidas.

Não existe isenção na memória. Ela é tão seletiva quanto nossos desejos. A memória desautoriza a representação linear de um tempo irreversível e qualquer evolucionismo biográfico. Chego mesmo a pensar que toda minha vida é a história da degeneração de uma criança através da sua suposta conversão em adulto. Para mim a vida é um processo de degeneração que nos conduz da perfeição da infância a deformação completa coroada pela  morte.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

IMPOSSIBILIDADE BIOGRÁFICA


Para mim a vida esta longe de ser um processo linear e evolutivo do nascimento a morte. O ciclo vital de uma existência singular é como uma espiral onde, por exemplo, a criança, o adulto e o velho, existem sincronicamente.

A vida adulta e a infância coexistem de algum modo naquele que sou hoje como uma espécie de superposição de planos de existência, ou sensibilidades  concorrentes.

Nem mesmo me considero um ego preso ou apegado a uma experiência privada de uma época, de um lugar ou núcleo familiar. Há algo de profundamente impessoal e instintivo em tudo que constitui minha experiência vivida. O dado biográfico é, para mim, secundário. Isso me permite melhor aceitar o caráter perecível de tudo aquilo que vivo, vivi e viverei no acumulo precário dos anos.

A vida é como um grande oceano no qual não passo de uma gota d’agua.