quinta-feira, 8 de outubro de 2020

DESCONTINUIDADES BIOGRÁFICAS

Não  me canso de repetir que a criança que fui um dia, assim como a vida dela, estão mortas e enterradas no tempo. Desapareceram para sempre. Nada em mim apresenta resquícios dela e as lembranças  de infância que me assombram a memória não  passam, portanto, de fantasmas de uma vida passada.
O mesmo posso dizer sobre outros eus  que vestiram meu corpo ao longo do tempo. Sou O resultado de várias mortes. Por isso só  acho possível uma anti autobiografia. Seria ridículo pretender falar sobre meus eus mortos sem trair a mim mesmo. Muito menos seria legítimo pretender uma evolução  linear da minha existência a partir de uma suposta continuidade entre todas as versões de mim mesmo. Há um poucodefictor Who em todos nós.  Mas não somos senhores do tempo. Somos seus escravos.

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