quinta-feira, 31 de março de 2022

LUTO E EXISTÊNCIA

Aos cinquenta anos perdi minha mãe.  Desde então a vida se quebrou dentro de mim e meu passado pessoal se fez um território existencial. Passei a existir nele, virtualmente, indiferente ao presente e ao futuro. Tornei-me inteiramente niilista diante da existência. A própria vida se converteu em assombro. A morte ganhou as cores de uma consciência de mundo.

quarta-feira, 30 de março de 2022

JUVENTUDE E NEO PAGANISMO

Por volta dos meus trinta anos, quando eu lia Jung e deitava cartas de tarô, a vida me parecia mais misteriosa, menos óbvia. Tudo era mais intenso. Toda experiência tinha um gosto de sonho. Eu escutava música quase o tempo todo. A música era meu modo de perceber o tempo. Percebia o gênio de cada lugar. O mundo era para mim algo vivo em suas multiplas manifestações.  Pode-se dizer que minha percepção da realidade era radicalmente definida por uma espécie de neo paganismo, por uma intuição  magica de natureza.

sábado, 26 de março de 2022

O MUNDO EM QUE NASCI

O mundo em que nasci, suas sensibilidades, dispositivos e artefatos culturais, modos de saber o corpo, não passam de uma sombra na memória, um conjunto desarticulado de vestígios e lembranças, totalmente impotentes diante da concretude crua das realidades do tempo presente.
Mas a época em que nasci, em sua ausência, me parece mais real do que o tempo de agora que me impõe a ditadura da sua presença. 
Depois se certa idade, pertenço mais ao passado do que ao futuro, sou mais memória do que vida. O mundo em que nasci é o único que realmente existe dentro de mim.
Sou nativo das últimas décadas do triste século XX cujos ecos ainda nos assombram. Persisto nas sombra do mundo pequeno e doméstico de quem já fui na vida, quase como uma memória onírica consagrada ao fantastico e ao maravilhoso do ontem como memória e delírio vivo.


terça-feira, 22 de março de 2022

EU E A CIDADE

A cidade que me viu nascer,
que me fez crescer,
já não me conhece mais.
Eu também 
não me reconheço nela.
Habitamos outros espaços 
onde não cabe nosso passado.

sábado, 12 de março de 2022

ANATOMIA DA NOSTALGIA

Minha memória  é o espólio de muitos eus perdidos. Por isso cada lembrança tem gosto de sonhos, de outras vidas.
O passado não me lega identidades ou heranças, mas um profundo sentimento de exílio, de ausências de mim mesmo e de mundos vividos.

domingo, 6 de março de 2022

LEITURAS SEMPRE PENDENTES

Nunca li a bíblia. Afinal, nem mesmo na infância, quando predomina algo de mágico na experiência  do pensamento, fui seduzido pela mitologia cristã.
Mas é uma leitura que me desperta certa curiosidade, com as devidas considerações históricas e hermeneuticas. Mas antes dela espero realizar arduas leituras mais importantes e desafiadoras antes de morrer. Penso em Guerra e Paz de Tóstoi e nos vários volumes de Em busca do tempo perdido de Prost. São obras que já hoje nos fogem a experiência de leitura, em tempos de informação e imagem digital. 

sábado, 5 de março de 2022