sábado, 26 de março de 2022

O MUNDO EM QUE NASCI

O mundo em que nasci, suas sensibilidades, dispositivos e artefatos culturais, modos de saber o corpo, não passam de uma sombra na memória, um conjunto desarticulado de vestígios e lembranças, totalmente impotentes diante da concretude crua das realidades do tempo presente.
Mas a época em que nasci, em sua ausência, me parece mais real do que o tempo de agora que me impõe a ditadura da sua presença. 
Depois se certa idade, pertenço mais ao passado do que ao futuro, sou mais memória do que vida. O mundo em que nasci é o único que realmente existe dentro de mim.
Sou nativo das últimas décadas do triste século XX cujos ecos ainda nos assombram. Persisto nas sombra do mundo pequeno e doméstico de quem já fui na vida, quase como uma memória onírica consagrada ao fantastico e ao maravilhoso do ontem como memória e delírio vivo.


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