O devir trans histórico de uma vida inteira
não cabe na memória. É acontecimento continuo e sem forma, pura inconstância
aberta em acontecimento. Sou hoje o acumulo de tantas experiências, perdas e
mudanças que não me reconheço direito no que me tornei hoje. Afinal, tudo que
sou é provisório e incerto, como este instante em que escrevo.
O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
segunda-feira, 26 de junho de 2017
NOS TEMPOS EM QUE EU ESCUTAVA MÚSICA
É curioso como determinados hábitos
se perdem da rotina da gente. Durante a adolescência
passava horas escutando ininterruptamente meus velhos vinis. Ouvir musica era um ritual
diário e privilegiado momento de evasão e, muitas vezes, melancolia. Minhas
circunstâncias e percepções sempre eram acompanhadas por um pano de fundo
musical.
Hoje, embora a musica continue
sendo essencial para mim, já não tenho o habito diário de escutar musica . Mesmo
quando escuto, já não vivo o mesmo encanto de antigamente. Tenho, ao contrário,
certa nostalgia do passado e dos tempos em que de fato escutava musica.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
A DECADÊNCIA DA EXPERIÊNCIA
Certos hábitos
que definiam o cotidiano e eram tão
naturalizados se perderam com o passar da época. Mas, embora remetam ao mais
corriqueiro mimetismo cultural, acabam se convertendo em referencial afetivo e
parte da nossa memoria mais pessoal.
Certos
programas de TV, tipos de comida,
musicas e pequenos hábitos cotidianos, preenchem a economia de nossos hábitos e
se convertem em perdas que se acumulam, sem que percebamos, no simples devir
das praticas coletivas.
O cotidiano
muda o tempo todo e quase não nos percebemos dentro das épocas. O fato é que o
impessoal é, cada vez mais, expressão paradoxal do que se apresenta para nós
como intimidade e subjetividade.
Sofremos de um
vazio de experiências na decadência de nossos jogos de intimidade.
SOBRE OS DILEMAS DA VIDA ADULTA
Quando mais
jovem eu era voluntarioso, como é próprio da idade. Tinha muitas vontades,
idealismos e otimismos em relação ao meu futuro. Tudo parecia fácil. Como se eu
fosse predestinado a realizar tudo aquilo que acreditava.
Tamanha autoconfiança
me fez pouco adaptável a chamada maturidade e a uma boa adequação as obrigações
e pragmatismos da vida adulta. Sempre estive mais preocupado em me afirmar
contra o mundo do que ser parte de seus lugares comuns.
Não me
arrependo de nada. Mas reconheço que decantei do desafio de uma vida estável e
confortável. Preferi a eterna jovialidade do espirito critico e indomável. Viver
é um jogo que quis jogar de acordo com minhas próprias regras. O resultado disso não podia ser outro: o
amargor de um certo sentimento de fracasso pessoal.
Não vivo como
queria e muito menos como preciso. Entre eu e o mundo há o abismo de um
saudável desajuste. Mas quem disse que existem vidas perfeitas e plena
realização pessoal? Cada um vive como
lhe foi possível ao final de tortuoso percurso
existencial. Ou nos adaptamos ao mundo ou o mundo nos pesa nas costas
como uma desagradável obrigação diária. Entre perdas e ganhos, o mais
importante é manter-se fiel a si mesmo.
O PASSADO É TUDO QUE FAZ SENTIDO
Todo meu
passado vivido,
Agora reduzido
a um conjunto
De lembranças
vagas,
É tudo que
guardo de mais caro.
Sou em tudo
aquilo que fui,
Mais
intensamente do que
Em qualquer
versão ainda possível de um eu futuro.
Meu passado é tudo que faz sentido,
É onde ainda
aconteço,
Apesar do
silencio do mundo.
terça-feira, 20 de junho de 2017
TEMPO VAZIO
Berram em mim muitos vazios
Que reinventam o gosto
Dos meus antigos dias.
Sei ansiedades e angustias
Que habitam o sem tempo.
Pois sou em restos de existências
O apagado efeito de algumas
lembranças,
Ontem eu era futuro.
Agora sou menos que um passado.
domingo, 18 de junho de 2017
MEMÓRIA DE VELHOS
O passado muda o tempo todo. Na medida em que envelhecemos aprendemos a cultivar melhor nossas lembranças e nos abrigamos em nossas memórias de uma forma que elas passam a nos definir mais do que nossos atos cotidianos. Assim, nos tornamos plenamente quem fomos. Atualizamos o rosto através de nossas ausências.
Ao mesmo tempo, nos damos conta de que o mundo já não lembra do mesmo modo como lembramos. Somos em nosso passado intimo, seguindo vestígios de uma existência pessoal e irremediavelmente perdida, que nada mais diz ao passado dos outros.
segunda-feira, 12 de junho de 2017
RELACIONAMENTOS E ADOLESCENCIA
Não tive namoricos adolescentes.
Era do tipo que frequentava livros, TV e
quadrinhos . Vivia fechado em meu próprio mundo e não sabia, naturalmente, como
me aproximar de uma garota. Sofri alguns amores platônicos sem consequências.
Hoje acho graça disso, dos meus arroubos de romantismo solitário que alimentava
idealizações vazias.
Creio que era demasiadamente
sensível e idealista para viver a
experiência de qualquer relacionamento real. Quando amadureci emocionalmente,
passei a não me importar mais com relacionamentos. Mas até chegar a este ponto,
percorri um longo caminho de desencontros.
quarta-feira, 7 de junho de 2017
OS LABIRINTOS DA LEMBRANÇA
A memória possui seus
esconderijos e se alimenta da repetição abstrata de tudo aquilo que deixou de ser, mas ainda nos assombra como
lembrança. O apego ao passado nos domina na medida em que envelhecemos.
Passamos a nos preocupar com nossa trajetória pessoal e perdemos o interesse para o tempo do mundo
e da vida social.
Mas o passado tem suas áreas sombrias que
colorem as lembranças ao sabor das precariedades do agora. Nossas
representações do ontem guardam o sentimento daquilo que nos falta agora. É difícil
separar o passado do presente. O primeiro é sempre dito pelo segundo e assim,
em considerável medida, perde-se no que
permanece impreciso ou esquecido apresentando-se como uma pálida imagem de si
mesmo.
TEMPO PERDIDO
Sinto falta do café da manhã
simples do tempo de infância.
Do almoço caseiro,
Da casa antiga e dos dias dos
meus pais.
Sinto falta dos meus avós
E daquela época antiga
Onde eu não sabia que a vida
Era então tão simples
Que justificava todos os
sorrisos.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
MEU MÍNIMO MUNDO
Sempre levei uma vida de pão com manteiga, de dinheiro curto e prazeres pequenos. Sempre estive preso a minha pequena realidade intima. Nunca fiz grandes viagens ou colecionei aventuras. Jamais fui ousado. Mantive uma ingenuidade infantil diante das coisas, uma má vontade com o mundo, que só eu sei no desalento dos meus dias. Não nasci para ser grande. Meu desafio sempre foi aprender a ser pequeno na simplicidade do cotidianamente vivido.
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