quarta-feira, 29 de novembro de 2017

DEPOIS DOS QUARENTA

Admito que depois dos quarenta anos deixei de lado minha boa vontade com a vida, minha necessidade de o tempo todo buscar coisas novas, e me conformei aos fatos estabelecidos.

Parei de sonhar e descobri a realidade, a serenidade de viver um dia de cada vez, sem grandes expectativas.

Depois dos quarenta anos,  eu aprendi a ser um pouco mais eu e menos o mundo. Descobri que a existência podia ser um pouco mais simples. Passei a viver do que tenho ao alcance  das mãos e a ignorar o horizonte.

Abri mão da felicidade para não me sentir mais infeliz.

domingo, 26 de novembro de 2017

FANTASIA ADOLESCENTE

Nos meus tempos de ensino médio, as vezes ficava imaginando como seria minha vida adulta. Não era do tipo ambicioso que sonha bons empregos. Só especulava sobre morar sozinho e todas as coisas que poderia fazer liberto da tutela dos meus pais.
Vendo minha vida hoje, tais devaneios me parecem tão ridículos quanto distantes de qualquer bom senso. Ironicamente, sinto saudades daquela fase adolescente em que morava com meus pais. Naquela época os dias eram mais vivos e minha existência parecia próspera.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O MAIS ANTIGO DOS MEUS BRINQUEDOS

O primeiro marcante brinquedo do qual me lembro foi um presente de natal. Eu devia ter menos de cinco anos na ocasião. Era um boneco do superman de plástico com braços articulados. A capa lhe dava uma certa elegância e majestade em minha imaginação infantil. Lembro-me que quando ele ficou descascado e velho, ganhei um segundo, dado meu enorme fascínio por aquele simples brinquedo.

SOBRE O CAPITÃO AMÉRICA

O Capitão América, juntamente com o Homem Aranha, passou a ter uma revista própria no Brasil em 1979, através da Editora Abril. Era o início de uma época de ouro para os amantes de HQs.

O que me encantava no Capitão América era o fato de ser um velho soldado da segunda guerra, arrancado de seu tempo ( todos que havia conhecido estavam mortos) e tentando ser um herói no seu futuro, que era nosso presente. Era um personagem, portanto, essencialmente trágico e paradoxal.

Me surpreendia o fato de seu escudo indestrutível servir tanto para a defesa quanto para o ataque, comportando-se, sabe-se lá de que forma,  como um bumerangue. 


O fato é que um super herói, para mim, precisava ter algo de triste. E não há nada mais triste do que um herói que perdeu seu próprio mundo. A mesma ideia é personificada, de forma mais poética, pelo surfista prateado.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SOBRE O VÔO NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Quando em pequena idade, lá pelos quatro ou cinco  anos, me tornei um aficionado por HQs , nem mesmo sabia ler. Minha mãe lia às histórias enquanto eu me encantava com as imagens e desenvolvia um profundo senso de fantasia ou intimidade com o mundo da imaginação.

Algumas questões hoje pueris eram para mim decisivas. Não conseguia entender como o superman e outros heróis da DC podiam voar. Afinal, eles não tinham asas. Os heróis da Marvel, ao contrário, pareciam mais realistas, se assim se pode dizer, em relação a isso.

O homem aranha sacudia-se em suas teias, o Hulk pulava longas distâncias e o Thor era impulsionado pelo seu martelo.

Batman era a minha principal referência. Talvez justamente por não ter super poderes. Um herói para mim não era propriamente uma espécie de semi deus. Ele precisava ter alguma coisa de humano e, só mesmo tempo, de extraordinário. Batman me parecia a melhor tradução disso.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

LIVROS, HQ E MUSICAS

Uma coisa que pode ser dita sobre mim, é que ao longo de toda vida habituei mais em HQs, livros e músicas do que na minha própria vida. Até hoje nunca me arrependi disso. Acho que a fantasia e a arte é o que proporciona vida a nossa existência ordinária.

FRUSTRADO

Nunca tive problemas para admitir que fui uma criança feliz que se tornou um adulto frustrado. Não porque tinha grandes ambições. Mas, simplesmente, porque me preocupei mais com minha satisfação pessoal do que com a conquista de um lugar ao sol. 

Fiz opções que não me garantiram sucesso material ou prestígio social. Não me arrependo disso. Mas é estranho crescer e viver em um mundo onde somos educados para o sucesso , avaliados pelas conquistas materiais e não pelo tipo de ser humano que nos tornamos. Sei que é meio clichê dizer isso, mesmo que seja profundamente sincero. O que importa é que pelo menos nunca tive filhos para saber o que isso significa.

A INFLUÊNCIA DA TV SOBRE A MEMÓRIA PESSOAL

Uma constante na vida urbana da época em que vivi é a presença da televisão como uma espécie de companhia e artefato de ambientação nas rotinas diárias. Boa parte de minhas memórias são televisivas. É surpreendente a quantidade de tempo destinada a não viver a vida através do repouso do entretenimento televisivo. Tal comportamento perpassa todas as minhas idades e, pode-se mesmo dizer, formatos minha sensibilidade e modo de ver o mundo. A influência e lugar da televisão é realmente assombrosa. Mesmo eu não me identificando com a maior parte de sua programação, confesso que indiretamente sou afetado por ela no trato social e no meu modo de lembrar o passado. Quando penso em minha infância, por exemplo, minha memória afetiva é cadenciada pela programação de TV . Já falei sobre isso anteriormente. A novidade agora é uma observação simples: não sei se essa memória midiática pode de fato ser considerada relevante em uma história de vida. Afinal, ela é pré moldada e um fenômeno de massas e impessoal.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

DECÊNIOS

Cada década traz um conjunto novo de fatos, perspectivas e sensibilidades bem características. Assim, em um período de dez anos, a existência muda em suas rotinas, nos oferece cenários cotidianos diversos. Mesmo que nada de muito significativo aconteça. O mero passar do tempo muda as coisas e, no mínimo, envelhecemos e já não temos a mesma aparência ou os mesmos hábitos.

Cada década tem sua linguagem, suas questões e bem definem um momento de vida e biografia. Nem sempre é muito clara a forma como uma década se articula com a outra em nosso devir biográfico. Geralmente a memória apenas estabelece seus contrastes e rupturas.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

GEOGRAFIA AFETIVA

Os lugares que frequentava antigamente estão perdidos para mim.Seus endereços estão vazios das referencias que cotidianamente aprendi em rotinas antigas. Nada mais diz em suas geografias as experiências e acontecimentos das quais fui protagonista ou testemunha muda. Tudo está diferente. Inclusive eu, que ao revisita-los, me perco do meu próprio passado. Inutilmente procuro em tudo marcas daqueles caros momentos arquivados na memória. Mas é inútil. Nada do que fui ainda resta nestes familiares espaços que se reinventaram.


domingo, 5 de novembro de 2017

SOBRE O ESQUECIMENTO

Lamento às pessoas e coisas das quais já não me recordo. Nem todas as experiências vividas viram memórias. A maior parte é relegada ao esquecimento, a poeira do tempo de uma vida inteira. Mas o que me perturba um pouco é ser parte da poeira do tempo de alguém. Mas depois de certa idade começamos a nos defrontar com nossa "desimportância" e reconsideramos nossas prioridades, valores e auto estima. 
Aprendemos, assim, a envelhecer...