sexta-feira, 30 de agosto de 2019

CONSCIÊNCIA E MEMÓRIA


O efeito do que já se foi estrutura a existência. Não, propriamente, no sentido da definição  de uma identidade individual, mas da delimitação de uma memória singular do mundo, da experiência do real, como campo de singularidade e devir.


O passado é uma marca e um modo de ser. Mas ninguém tem um passado.  O passado é múltiplo e uma forma de diálogo. Ele não  é a mera percepção  de um antes e um depois, mas a percepção  da permanência, da insistência de uma vida inteira.
Saber um passado se confunde com a própria consciência.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O CAVALEIRO DAS TREVAS E O CREPÚSCULO DA INFÂNCIA


Em 1989, quando estreou nos cinemas a versão de Batma do diretor Tim Burton, estrelada por Michael Keaton e Jack Nicholson, me  juntei ao coro do puritanos que torciam o nariz para qualquer adaptação cinematográfica de clássicos dos quadrinhos.

Mas poucos anos antes, Flank Miller havia lançado seu Cavaleiro das Trevas, O retorno, minissérie em quatro volumes quer transformaria definitivamente o Batman dos quadrinhos. Foi seu trabalho realmente singular e surpreendente que  repaginou o  homem morcego, convertendo-o em uma espécie de anti herói muito diferente do vigilante encapuçado com o qual, até então, estávamos acostumados.

Com o clássico de Miller o  Batman ficou mais adulto e sombrio nos quadrinhos, mas foi somente com o uniforme totalmente negro da adaptação para os cinemas de Burton que nos demos conta do quanto ele   já não era mais o mesmo.

Eu crescia e Batman crescia comigo.... Isso tinha um gosto de desencanto com o mundo que só mais tarde fui entender. Foi também nos anos 90 que parei de colecionar quadrinhos. A vida adulta se anunciava melancolicamente a minha juventude. Já não era mais possível para mim manter certa sensibilidade infantil ou fantasiosa  sem assumir uma certa decepção existencial com a vida e o mundo.  Eu me tornava “um jovem” por aqueles anos, sem me dar conta de que perdia a infância.   


MEU PAI E MEU AVÔ


Minha existência se inventava através do meu pai e no meu avô.
Eramos distantes em nossa proximidade. Mas a presença deles  me fazia sempre jovem, eterno aprendiz de mim mesmo.

Agora, é na ausência deles que descubro minhas faltas, minha velhice por parte de pai e de mãe.

Cheio do vazio deles vou acariciando meus abismos,
Vou me desconstruindo no desabamento dos anos.

Não importa a quantidade de tempo que cobre o fato de suas mortes. O vazio da casa antiga guarda sempre intensamente o silêncio deles dentro dos meus possíveis futuros.  


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CHUVA ANTIGA



A ausência do sol
Inventava a chuva
Que acordava os telhados.

A terra molhada tinha jeito de bolo.
E o vento trazia o frio.

Era bom estar em casa
Sabendo a vida pela janela
No aconchego do quarto.

A lentidão das horas vestiam preguiças
Apagando o quintal fechado.
Mas restava a vida presa na televisão
Para colorir o tempo
E o  café com pão
no colo de vó.


A HORA DO BANHO



O cheiro do sabonete
definia a água e a hora do banho.

Eu cabia em uma bacia,
Quase não era gente.

Há algo de intermediário
Entre o animal e o homem
através da criança.

Pois ser criança é não ser ainda
completamente humano,
é quase ser coisa,
imaginação e vontade.
Uma força viva da natureza...


Mas eu só percebia isso
Na hora do banho,
no cheiro de asseio 
que me fazia sentir limpo
como um brinquedo novo.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

BOEMIA E SOLIDÃO

Uma das primeiras coisas que aprendi na adolescência,  depois que deixei minha cidade natal  para estudar na capital do estado, foi a me abrigar em bares, passar horas bebendo sozinho e matutando sobre a vida.


Era uma forma de saber de mim quando já  não sabia mais nada do mundo. Foi assim que comecei a me perder de tudo, realizando a grande solidão que sempre me habitou.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

PRESENTE & PASSADO

Passado diz respeito à perdas e esquecimentos. Lembranças são  como a casca oca de um ovo quebrado. Um acontecimento, ao contrário, é  o efeito ou a duração  de uma experiência. É  no plano abstrato e etéreo do infinito que as lembranças persistem pálidas, que se inventa o arranjo sempre provisório da memória.


Mas não posso saber quem já fui um dia através das minhas próprias  lembranças. Elas apenas refletem este eu de agora que as concebe. Pouco revelam sobre o passado. É justamente este  o charme secreto da memória:  A percepção  de nós mesmos como devir e incerteza, como algo sempre provisório.

MUNDOS ARTIFICIAIS

Creio que não  vivo apenas entre dois séculos, mas entre dois mundos: o mundo da TV e o mundo da internet.   Ambos sequestram nossos afetos, desejos,  opiniões e imaginação.  Os dois criam um modo de vida, rotinas que configuram lembranças e vivências.

Nossa memória é  midiática porque em grande parte é  formatada pela experiência destes dois  mundos artificiais. Isso é o mesmo que dizer que nossa subjetividade é pública e social. Não  há  algo como uma vida privada, uma originalidade pessoal. A maior parte de nós é  constituída pelo "comum", reduzido a experiência do entretenimento, de um prazer estético artificial. Desde a segunda metade do século XX, a vida urbana nos condiciona ao  artificialismo tecnológico. 

Conhecer a si mesmo já não  é uma questão relevante.

sábado, 3 de agosto de 2019

MEUS 18 ANOS

Tenho saudades de mim mesmo com 18 anos.
Mas faz tanto tempo que tive 18 anos,
Que não  me lembro mais  de quem eu era com 18 anos.

Vivo até hoje um luto pelos meus 18 anos...
Em qualquer parte do tempo
Meu eu ainda apodrece com seus 18 anos.