Com os Beatles eu aprendi que a vida seria impossível sem música.
O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
terça-feira, 31 de março de 2020
BEATLES E A REDESCOBERTA DO MUNDO
Quando "descobri"os Beatles em meados dos anos 80, a banda já não existia e Lennon estava morto. Mas sua música me encantava com a mesma magia que tinha nos anos 60 e início dos 70. Ela me dizia o sentimento de qualquer outro mundo possível, uma sensibilidade outra e uma ética expressa na imaginação da vida como obra de arte. De alguma forma, eu nasci de novo quando descobri os Beatles e o rock como fonte de um ethos cuja premissa é a construção de nossa singularidade . Isso não muda nunca.
sábado, 28 de março de 2020
NOTA ANTI BIOGRÁFICA
Não importa quem eu sou, o que vivi, sinto ou penso. Tudo que existe é o mundo manifesto em sua impessoalidade e indiferença feita da soma imperfeita da subjetividade de todos nós em todas as epocas.
Toda miragem biografica é desde sempre esquecimento e ilusão.
quarta-feira, 25 de março de 2020
COMIDA CASEIRA
Durante minha infância nos anos 70, e mesmo ao longo da adolescência nos anos 80 do seculo XX, nunca fui a restaurantes. As refeições basicas eram feitas em casa. Comer fora era visto como um hábito fútil da elite e o medo da fome era um fantasma entre as classes populares.
Além disso, O almoço de domingo era sempre especial na rotina alimentar da semana . Frango ensopado definia o cardápio ao lado do macarrão e não podia faltar o acompanhamento de um bom refrigerante. Quanto mais calórica, maior era o valor de uma boa refeição.
quarta-feira, 18 de março de 2020
A MEMÓRIA COMO SIMULACRO
Os melhores dias da minha vida, nunca aconteceram, mas serão sempre lembrados com nostalgia.
Afinal, o presente é sempre o pior dos tempos, e a memória é a utopia do passado contra a agonia do agora, Contra a morte que nos configura o futuro.
terça-feira, 17 de março de 2020
A IMPOSSIBILIDADE DE DIZER A SI MESMO
Ter uma identidade é sucumbir a uma referencia afetiva existencial de cunho impessoal. A identidade não nos individualiza, ela não passa de uma experiência social homogênealizadora. Por isso não a considero um dado biográfico significativo. Minhas referências não dizem quem eu sou, mas ao que me conformei ao lado de tantos outros. Quem eu sou não é uma pergunta valida. Sou um corpo, mas me ignoro como tal através de um eu que me comunica aos outros. Como posso falar de mim sem trair o ilegível que define o exercício da minha existência? O que acontece no intervalo entre o meu nascimento e a minha morte, é o próprio mundo. Não sou eu. Sou apenas parte disso.
domingo, 8 de março de 2020
SENTIMENTO ANTI BIOGRÁFICO
Não vejo a vida como uma evolução linear biológica e psicologicamente definida em um intervalo temporal entre o nascimento e a morte. Mas como um acúmulo de descontinuidades e arranjos de memória feitos por um eu instável a mercê de grandezas impessoais.
A Existência é resultado de perdas, mortes e incertezas. Viver quase não tem substância. É um ato coletivo , algo que envolve o eu e os outros No devir do mundo.
Ter uma biografia não significa nada nesse jogo valorativo e afetivo que cada um de nós desenvolve com a própria singularidade. Ela não passa de um espelho do mundo.
domingo, 1 de março de 2020
SER MARGINAL
Minhas duas primeiras décadas de existência foram definidas pela tutela parental e pela escola. Diante destas duas grandezas sociais desde muito cedo me surpreendi inadequado e resistente. Sempre soube que não seria um alguém para a sociedade. Tenho certo orgulho disso. Sempre fui de alguma maneira inadequado ao meu tempo e ao meu meio social. Também nunca permiti que a educação tirasse de mim a potência da infância e da imaginação. Sou um persistente inadequado , quase um pária incapaz de pertencer a qualquer identidade que não seja alguma forma de marginalidade existencial.
Acho que isso faz de mim essencialmente um poeta.
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