domingo, 29 de agosto de 2021

MÚSICA E ILUSÃO

Desde muito cedo ouvir música foi para mim ser afetado por uma intensidade da realidade, por uma nostalgia de coisas não vividas, de uma potência da existência que, paradoxalmente, de tão prazerosa me conduzia a melancolia por personificar um encanto vital que escapava ao cotidiano.

SOBRE A MAGIA MIDIÁTICA DOS NOVECENTOS

Sou de uma geração analógica. Cresci sem internet. Tal afirmação me parece ridícula. Mesmo reconhecendo o quanto a nossa subjetividade tornou-se dependente das tecnologias digitais. Mas tal dependência é sempre relativizada por um filho do século XX. Foi ele que inventou as mídias e definiu sua época de ouro através do radio , do cinema , da fotografia e da televisão. Foi o século XX quem reinventou a imagem e sua sedução.  As telas dos computadores e celurares do século XX, com toda sua autodefinição, são incapazes dedespertar nos olhos a  magia de outrora.

CONFLITO DE GERAÇÕES

Medir a vida em anos, me definir por uma idade, sempre me pareceu uma convenção ridícula. Talvez, por isso, nunca gostei de comemorar aniversários.
 Desde pequeno tenho a fantasia de que sou mais velho do que sou. Sempre me identifiquei com a imagem do velho sàbio, portador de um cajado e de uma longa barba branca,  arquejado pelo peso do tempo.
Hoje, ao alcançar meio século de existência, sinto-me centenário diante dos jovens de hoje. Paradoxalmente, considero o velho saltibanco que há em mim mais jovem do que eles, com seus egos inflados, excesso de informação e overdose tecnológica. Os jovens de hoje são quase adultos zumbis idiotizados e adaptados ao distema.
Sou feliz por não ter tido filhos e contribuido , assim, para fazer do mundo um lugar pior.


MITOLOGIA DA MEMÓRIA

Sempre tive uma péssima memória, seja de longo ou de curto prazo. Mas isso nunca me impediu de cultivar o passado, de rememorar as épocas da minha vida. 
A memória afetiva é feita de uma coletânea de imagens/momentos deslocadas de seu contexto e de colorido onírico. Lembrar é, para mim, antes de tudo, sonhar. O passado é o dominio do atemporal, do mítico, que extrapola o vivido. Sei que nada é realmente como me lembro. Mas meu modo de lembrar, me diz quem me tornei.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

TRISTEZA

Existir sempre me foi solitário.
Sempre duvidei da realidade,
das identidades,
e de todos os destinos do mundo.

No fundo, sempre soube,
que a vida é sonho,
perda, ilusão 
e saudade.

Meus melhores dias nunca aconteceram,
enquanto passava os anos
esmagado pela multidão.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

DO LUTO A SAUDADE

Ninguém existe inteiramente em seu próprio corpo. Por isso, a morte dos outros é uma perda de si mesmo, a interdição de um mundo comum e cotidiano, que nos faz questionar nossa própria sobrevivência ao outro, quando sua ausência inaugura desertos.
No fundo, nosso tempo é o tempo dos outros, coabitamos a vida dividindo o mesmo hoxigênio em nossos caminhos cruzados.
Viver é, portanto, uma ação compartilhada, uma composição de corpos e afetos, que nivela a vida e a morte na intensidade e intimidade de  laços que nos atravessam.Por isso, a morte do outro carrega um pouco de nossa própria morte, e a justifica.



quarta-feira, 4 de agosto de 2021

SAUDADE

 

A morte redesenha o passado,

sepulta o futuro,

e reduz o nada da eternidade

ao instante de um susto.



No adeus cravado na memória,

A vida me apequena no assombro cavado

pelo teu silêncio,

Enquanto me fere e conforma um adeus

que não cala a saudade,

que não da conta da vontade de te ver de novo,

enquanto a vida grita:

nunca mais.