segunda-feira, 27 de março de 2017

ESTRELA CADENTE

Quando eu era pequeno

O céu noturno era mais intenso.

Ainda era possível flertar com estrelas cadentes

E brincar com pequenas ilusões e desejos.

Acreditava em meus pedidos secretos

Como quem aposta no mundo

Mais do que na realidade.

Tudo era tão simples,

Tão nítido e mágico,

Que a vida me parecia possível.


quarta-feira, 22 de março de 2017

A MEMORIA DAS RUAS VIVIDAS



Em alguma medida nos tornamos parte das rotinas do lugar em que habitamos. Toda vez em que fui forçado a mudar de endereço, me senti arrancado de um cenário vivido e lançado ao desafio de recompor minhas rotinas.

A vida pode aparentemente não mudar muito em função de uma troca de endereço. Mas  ela gera uma alteração significativa em nossa cotidiana apreensão do mundo.

O roteiro dos meus percursos cotidianos, como o trajeto  de casa ao trabalho, sempre foi também um frequentar pessoas e lugares cuja especificidade deixavam marcas em meu modo de vivenciar as coisas.

Quando penso nos vários endereços em que morei, lembro de muita gente que nunca mais vi, referencias de ruas e lugares antes tão frequentados, mas nos quais hoje não me reconheço mais. Em uma única década, a face de  uma rua muda muito.  O cotidiano é dinâmico e a própria rotina, em seu repetir infinito, não exclui transformações.

Reencontrar lugares que já me foram íntimos  depois de um grande hiato é  sempre uma experiência de desencontro. Pois os lugares já não os mesmos, assim como também sou outro.

sexta-feira, 17 de março de 2017

CRIANÇAS PERDIDAS



Dos meus poucos companheiros daqueles dias distantes das primeiras infâncias, não reencontrei se quer um, pelos caminhos da vida. Eles pouco brincaram comigo e frequentaram minha existência. Compartilhamos instantes sem grandes  consequências afetivas. Mesmo assim ficaram em mim como doce memória.


Soube já adulto que alguns morreram precocemente. A vida seguiu sem eles, como continuou sem nossas infâncias.


Pensar nisso não me desperta grande nostalgia. Apenas um certo desencanto diante da lembrança de vê-los empinando pipas contra um céu azul e claro.  Coisa que nunca aprendi.


O EU E AS ÁRVORES

As velhas árvores da minha infância
Não existem mais.
O meu eu que as conheceu
Também faleceu.
Ambos existem apenas na lembrança
Que agora me define
Em relação ao que se perdeu.
Mas estou apenas de passagem,
Levando comigo lembranças
Que só eu sei do jeito que sei.

quarta-feira, 8 de março de 2017

SOBRE A EXISTENCIA ORDINÁRIA



Trabalhar e viver de salário, me afundar nos dilemas da economia domestica e na gestão cotidiana da simples reprodução da vida material, sempre foi para mim um um desafio injusto. Nunca fui muito organizado e pragmático. Sempre estive mais preocupado com a falta de sentido da vida e com  o charme de certo ócio quase aristocrático. 

Cinema e literatura  sempre foram ocupações mais importantes para mim  do que  a dura realidade de gerir uma casa.  Nunca fui do tipo que quis dar certo na vida. Jamais me adequei a persona do adulto responsável. Nunca me preocupei em ser "bem sucedido". Sempre fui dado a filosofias e a preguiças existenciais. Pode-se dizer: um vagabundo por natureza.

MEMÓRIA, EXPERIÊNCIA E LEMBRANÇA



A memória não nos proporciona  o simples rememorar do passado. Não é um sinônimo de lembrança, pois esta remete aquilo que se perdeu e se converteu em um pálido registro de pensamento. A memória, em seu sentido mais forte, é a contemporaneidade de uma experiência. Ela nos diz que ainda somos naquilo que foi vivido, diz que, no aqui e agora, de alguma maneira, aquela experiência ainda acontece, que não é apenas  um passado. Lembranças podem ser reelaboradas ou esquecidas. Mas a experiência é aquilo que somos e o passar do tempo não nos tira.  


Defino experiência como uma vivência psicológica que transcende o fato bruto no tempo, que transborda a memória.  A experiência é simbólica e cíclica. Sempre pode ser reeditada. É como, usando aqui um exemplo bem simples, as celebrações do réveillon. Todos os anos, de forma diferente, repetimos pessoalmente a mesma experiência. E ela nunca acontece exatamente da mesma forma.  Mas sua “natureza” é impessoal. É como a história de uma amizade. Dois amigos serão sempre dois amigos e isso diz muito sobre qualquer um que já tenha vivido uma grande amizade. Mas viver uma amizade é algo banal e comum a todos. Nossa história pessoal nada tem de especial.


A memória é a presença da experiência como modo de acontecer de nossa própria  condição humana. É aquilo que nos é profundamente pessoal ( no superficial da lembrança particular) e, ao mesmo tempo, indiretamente  compartilhado  com todo mundo ( como experiência universal). 


sábado, 4 de março de 2017

LEMBRANDO MEU PAI

Já faz alguns poucos anos que meu pai morreu. Mas ainda sonho com ele. Sonho em um tempo indeterminado de infância e adolescência.
A morte de pessoas que nos servem de referência à própria existência é uma coisa que nunca se aceita. É como uma ferida que nunca cicatriza e permanece doendo no tempo aberto e incerto da vida.
O passar dos anos é algo as vezes desesperador, pois nos traz a amarga consciência de que tudo está sempre se perdendo ou por um fio.
A vida passa rápido demais. Não cabe bem mesmo no curto espaço de uma biografia....