quarta-feira, 27 de junho de 2018

FAMILIA E PERTENCIMENTO

Nasci em 1971 e minha avó materna morreu em 1979. Ela esteve cotidianamente presente na minha vida por apenas oito anos. Mas foi o suficiente para deixar em mim uma marca, uma influência que não cabe na memória.

Devo-lhe a escolha do meu próprio nome, o sabor da sua culinária e a imaginação de suas histórias tantas vezes recontadas. 

Lembro da minha avó como uma espécie de presença mágica que comunica uma metafísica familiar, um sentimento de pertencimento a um passado que me antecedeu e é habitado por muitos rostos e  vivências. Ousaria falar de um modo peculiar  de sentir e ser que remete a uma experiência coletiva e impessoal.

LEITURAS DE FORMAÇÃO II

Machado de Assis e sua trilogia básica ( Memórias póstumas, Quincas Borba e Ejau e Jacó) foram leituras de adolescência e não propriamente de formação.
Mas gostava da ironia e amargura dessas  narrativas. O simples acontecer da vida ganhava um gosto de melancolia e niilismo nesses livros que me agradava profundamente. Mesmo assim nunca o considerei Machado de Assis um de meus autores prediletos. Ele era apenas parte do cânone que a escola nos impõe sem permitir questionamentos.

ON THE ROAD

Há coisas que sei que gosto mas nunca fiz na vida. Sair, por exemplo, sem destino , de carro, ao som de uma boa trilha sonora de clássicos dos anos 60 & 70. Mas nem mesmo sei dirigir. Lembro-me de nos anos de adolescência ter várias vezes saído por aí sem rumo de bicicleta e experimentado um arremedo desta experiência. Nesta época sonhava em ter uma moto quando fosse plenamente um adulto.

Pegar a estrada é um modo de sair das coisas do aqui e agora, provar uma espécie de atemporaridade. Há algo de saudade de uma vida que nunca será vivida.

NUNCA GOSTEI DE TRABALHO

O trabalho nunca ocupou o centro da minha vida. Trabalhar sempre me pareceu apenas uma obrigação banal, uma forma de sacrificar a vida para poder vive-la. Jamais me realizei ou vislumbrei a possibilidade de me identificar através de qualquer persona ou identidade social.  Servir a sociedade como um indivíduo ativo nunca me pareceu uma forma de realização pessoal. 

Sou demasiadamente dado ao devaneio e as artes, a introspeção. Gosto de fazer coisas pelo prazer de não me conduzir a nada. Por isso nunca me preocupei em ser alguém na vida. Sempre me pareceu um desafio mais do que suficiente o simples fato de viver uma vida.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

SOBRE O AGORA

A menor idade, a infância dos atos, que na memória  não cabe, inventa sempre retratos do meu passado.

Penso contra o agora do tempo e a margem da identidade.
Meu lugar é sempre um agora que não me contém.

Adivinho antiguidades de mim mesmo, o agora é sempre o arcaico sentimento do que passou como lugar de identidade.

O sem tempo da memória é pura ontologia...

TEMPO URGENTE

Quando eu era mais jovem me sentia solitário, mas profundamente mergulhado nos ritmos cotidianos da existência.
Hoje me surpreendo fora do mundo, de mim mesmo, e de todas as possíveis possibilidades do acontecer imanente do me fazer humano e banal através de rotinas e identidades.
Vago fora do mundo em idades intempestivas diante da perplexidade dos meus momentos. O agora é feito de interdições, silêncios e envelhecimentos....

sábado, 16 de junho de 2018

SOBRE O INTEMPESTIVO DA MEMÓRIA

É raro lembrar de datas. Cada lembrança remete a sensações, imagens e emoções, que não se dobram a uma linearidade continua e cronológica. Pelo contrário. O tempo não é feito dos anos, de História. Ele insana um devir, o intempestivo. Por isso datas não são importantes. Não é do quando que lembramos, mas do como. É ele que ainda nos acontece, que se atualiza como lembrança.

O ABSURDO BIOGRÁFICO

Com o passar dos anos aprendi que a existência é um acúmulo caótico de experiências, de momentos dentro de momentos, que não conduzem a nenhum propósito.

Entretanto, através dos arranjos seletivos da memória,  estabelecemos sentidos provisórios. Transformamos isso em identidade. 

Acreditamos em nossa ilusão como sujeitos de nossas experiências inventando biografias.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

NOSTALGIAS OU DESENCANTOS?

Em grande medida, a nostalgia que tenho em relação a infância, é alimentada pela simples constatação de que não me envolvo mais com os fatos e com o mundo tal como fazia meu eu infantil.  Está falta de encantamento, de sedução das coisas mais simples, é o que realmente me faz querer o passado de volta. Sou vítima daquele típico desencanto existencial que define a vida adulta.

MEMORIAS GASTRONOMICAS



Quando criança a hora das refeições eram recheadas de sabores e gulodices. Além disso, havia sempre entre o café da manhã, almoço, café da tarde, janta e o derradeiro lanche da noite alguma mastigação. Comer era uma atividade constante e um modo de experimentar o próprio mundo.

Hoje meu apetite é bem modesto. Afinal, o corpo muda e nossas necessidades e prazeres também. Mas tenho saudades daquele período de juventude onde a intensidade das coisas e o ritmo dos dias eram literalmente comestíveis. Domingo, por exemplo, era dia de frango ensopado com batatas e de bolo de banana. Também eram especiais aqueles dias em que minha avó materna, prendada cozinheira, fazia seu delicioso ensopado de carne. Não era raro eu devorar três pratos fundos.

Lembro-me também da farta variedade de doces caseiros que consumia em  boas quantidades. Desde o arroz doce com canela, passando pelo bom bucado até o picolé vendido por ambulantes em pequenas caixas de isopor.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

PASSADO VIRTUAL

Sinto saudades daquele passado que nunca vivi,
Daquele sentimento de felicidade,
Daquele contentamento gratuito e cotidiano,
Que jamais senti.
O passado virtual é um eterno futuro,
Uma fantasia ontológica,
Quase um delírio.
Mas é este sentimento de perda
Daquilo que nunca tive
Que hoje me define em Francas nostalgias.