domingo, 27 de setembro de 2020

SOBRE A MISÉRIA DA VIDA ADULTA

Quando eu era criança,  tudo que mais queria era crescer, ter um emprego, sair da casa dos meus pais e ganhar o mundo, ser dono do meu próprio destino e imune a qualquer tutela. 
Agora, tudo que mais queria era voltar a ser criança,  ter meus pais vivos de novo, e estar protegido, na casa antiga, de todos os absurdos e horrores da vida adulta.
Depois que a gente cresce, a vida perde o encanto, o sentido, e  nossa idealização  da liberdade se volta contra tudo aquilo que nos tornamos. Até  a opressão da escola e seus saberes chatos  provoca nostalgias diante da rotina de assalariado. 

IMAGEM & MEMÓRIA

O passado cresce
Contra o futuro.
A memória apaga o presente
Nas imagens em movimento
Do simulacro de uma vida inteira.
O tempo no corpo
Diz quantas vezes morri
Ao seguir existindo 
Contra o eu e o mundo
Até o infinito da pele das coisas.

domingo, 20 de setembro de 2020

Órfandade

Nos últimos anos sempre me perguntei se haveria para mim vida possível depois da Morte da minha mãe. Agora que a perdi, me confronto com a resposta a tal questionamento.
De fato, ela ocupava o centro de meus enraizamentos na realidade e no tempo, me proporcionava uma ambiência  e identidade com o mundo. Agora que a perdi, nada é  mais como antes. Há um traço amargo de morte em tudo que sinto e que faço. Algo que transcende o luto e se afirmar como sensibilidade. A vida para mim se tornou um deserto. Não me sinto mais vivo, mas não  estou morto. Sou apenas um órfão  perdido, enterrado no continuar dos dias,  sem vontade alguma de seguir em frente.
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

MATURIDADE E ENVELHECIMENTO

Ser adulto é  se tornar uma criança deformada e um indivíduo que a sociedade considera responsável por seus atos, embora desponha de uma margem de escolha bastante limitada.
Pessoalmente me surpreendi "adulto" na medida em que fui perdendo o interesse pelos assuntos humanos.
Agora me surpreendo envelhecendo depois que me tornei órfão e a morte ocupa o primeiro lugar entre os assuntos que povoam meus pensamentos. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

SOBRE O ABSURDO DA VIDA

A vida sempre me pareceu um jogo estranho entre lembrança e esquecimento onde a fragilidade de si mesmo diante da realidade do mundo chega a ser brutal.
No final a morte encobre nossos rastros biográficos e nossa existência não faz a menor diferença..A vida sempre me pareceu algo terrivelmente absurdo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

SOBRE OS ANOS 70 III

 

Um habito muito comum entre as donas de casa nos anos 70, era moer carne em um pequeno moedor caseiro. Para mim aquela atividade tinha um conteúdo lúdico, era como uma brincadeira. Sempre provava na ocasião um pouquinho de carne crua. Mesmo que sob a censura dos adultos que  consideravam isso um mau costume.

Cabe esclarecer que naquela época era muito comum a participação direta ou indireta das crianças nos afazeres domésticos.

 


 

SOBRE OS ANOS 70 II

 

A sensibilidade de uma época é em grande parte definida pelos objetos e hábitos cotidianos. O espaço e o uso das coisas dizem mais o tempo do que a passagem dos anos no calendário.

Dentre os objetos que definiam nossos hábitos e experiências nos anos 70,  além das folhas de acetato colorido com o qual cobríamos a tela da TV preto e branco, é o escovão usado para passar cera nos tacos de madeira , então muitos frequentes como piso dos cômodos das residências. Em relação a eles a enceradeira elétrica ( terrivelmente barulhenta) foi um grande progresso na época. Encerar o chão fazia parte da rotina dos afazeres domésticos. Costuma ajudar minha mãe  nesta tarefa. 

 


 

 

 

MEMÓRIA E EXPERIÊNCIA VIVIDA

 

O caráter afetivo da memória é o que nos confere identidade como viventes dentro do tempo e dos outros que nos frequentam.  É através do lugar da memória no acontecimento da consciência que nosso eu se formata. Mas nada disso faz valer o esforço de qualquer reflexão autobiográfica. Tudo esvai, tudo se perde, e nada do que vivi é digno de qualquer permanência ou lembrança.  O mundo segue sempre indiferente a migalha de nossas  vidas.

Por outro lado, envelhecer é habitar lembranças. Não há como fugir delas. E sempre lembramos das coisas de um modo diferente a cada momento, obedecendo as urgências de nosso sentimento de agora. Deste modo, lembrar não é um ato de pensamento orientado ou controlado por um ego. É um processo que nos foge do controle.

Não devemos impor as nossas lembranças qualquer encadeamento ou teleologia. A vida não é um evoluir linear de experiências e fatos que seguem os roteiros impostos pela sociedade. É sempre algo mais do que isso, algo imprevisível e sem qualquer  finalidade.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

SOBRE OS ANOS 70

Fora de mim e dentro do mundo, pertenço  profundamente aos anos 70 do século XX. Não apenas por ter sido a época dos meus primeiros anos. Mas, antes de tudo, pela experiência impessoal de um tempo presente onde ainda era possível  criar vida, contemplar horizontes, e viver  de esperanças. Obviamente, entretanto, tal memória não  contempla a experiência de muita gente que anonimamente compartilhou esta  época comigo.

MORTE E ORFANDADE

Depois que minha mãe  morreu passei a pensar a morte como algo desejável  e até mesmo necessário. Afinal, nada mais me prendia a vida e ao mundo no banal cotidiano da minha anônima existência.
Escapar de vez do jogo da vida me pouparia de muita coisa na inutilidade do tempo vivido...

DESCONTINUIDADE BIOGRÁFICA

Não  pretender uma narrativa biográfica é querer ir além da prisão  do eu perene e narcisista da modernidade. É  desconstruir a Persona que busca impor uma orientação  teleologia a matéria biográfica,  torna-la linear na organização  de uma artificial memória das coisas e de si mesmo.
Afinal, a existência não  tem sentido e se faz através de  diversas descontinuidades. Não me reconheço no meu próprio passado, pois o eu de antes era um outro cuja consciência me escapa.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

NOSTALGIA

Saudade dos meus primeiros anos
Quando eu vivia a vida
Como se fosse um sonho.

Quando o mundo era enigma
E meu eu incerto
No devir intenso dos afetos.

Saudades daqueles anos
De sábia ignorância,
Onde  minha existência
Era um caminho aberto. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

REECORDAR A INFÂNCIA

Lembrar os anos de meninice como uma idade de ouro não é  o mesmo que ter nostalgia de uma inventada felicidade perdida, mas terc saudades daquela  abertura para o infinito das coisas que a vida adulta nos tira.