O caráter afetivo da memória é o que nos confere identidade como viventes dentro do tempo e dos outros que nos frequentam. É através do lugar da memória no acontecimento da consciência que nosso eu se formata. Mas nada disso faz valer o esforço de qualquer reflexão autobiográfica. Tudo esvai, tudo se perde, e nada do que vivi é digno de qualquer permanência ou lembrança. O mundo segue sempre indiferente a migalha de nossas vidas.
Por outro lado, envelhecer é habitar lembranças. Não há como fugir delas. E sempre lembramos das coisas de um modo diferente a cada momento, obedecendo as urgências de nosso sentimento de agora. Deste modo, lembrar não é um ato de pensamento orientado ou controlado por um ego. É um processo que nos foge do controle.
Não devemos
impor as nossas lembranças qualquer encadeamento ou teleologia. A vida não é um evoluir linear de experiências e fatos que seguem os roteiros impostos
pela sociedade. É sempre algo mais do que isso, algo imprevisível e sem qualquer finalidade.
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