quinta-feira, 30 de julho de 2026

DESINPORTÂNCIAS


Não  importa se irei acordar pela manhã para perpetuar minha existência inútil em um mundo sem sentido.
A única coisa que importa, em sua brutal banalidade, é a morte.
O resto é  desimportante, enquanto a vida transborda e tudo termina sem ter motivo.
O tempo fica enquanto a gente passa.




sábado, 20 de junho de 2026

O GAROTO QUE DESENHAVA DEMÔNIOS

Fui o garoto que um dia aprendeu a desenhar demônios,
a ferir a folha em branco com sua revolta 
expressando seu profundo  descontentamento
com a família, o mundo e a escola. 

Um dia fui o garoto que aprendeu a dizer não dando voz a sua imaginação na solidão de um quarto simples de periferia. 

Sou, ainda hoje, aquele garoto sem futuro 
que cresceu e destilou sua revolta,
que aprendeu a escrever versos satânicos 
contra tudo que é  divino, belo,  moral e supostamente  maravilhoso.

Sou o garoto que fez um pacto com demônios e superou a falácia da subserviência a autoridade e submissão da consciencia a falácia do bem e do mal.







terça-feira, 21 de abril de 2026

AINDA ME LEMBRO

Ainda me lembro
de quando o mundo era jovem
e tudo parecia possível. 

Ainda me lembro
dos nossos melhores dias,
quando futuros eram iminentes,
quase um dia seguinte. 

Era tão  fácil saber o sabor da vida
que a realidade se restringia aos limites do suportável. 
Tudo era assombrosamente previsível. 

domingo, 12 de abril de 2026

SER É INCERTO


Nada é  mais fugidio do que o tempo presente. 
Através dele o mundo, sempre de novo, 
se desfaz como fumaça 
enquanto tudo parece definitivo e urgente.

Mas é a morte é o que, afinal;  define a duração de nossa urgência enquanto ser vivente.
Ser é incerto e viver duvidoso.
Nada é  para sempre, nada realmente  importa, nada é  verdadeiramente presente...


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

TEMPO E ESQUECIMENTO

Tenho um passado
de gentes e lugares,
uma infância perdida,
uma história de vida,
que define quem  sou.

Tenho um passado
que se desfaz em esquecimento.

É cada vez mais difícil saber quem sou
enquanto meu passado se desfaz
na consciência  incerta do inatual.













quarta-feira, 12 de novembro de 2025

NIILISMO E EXISTENCIALISMO

Tudo na minha vida
foi acidental e provisório.

Tudo me levou a nada
e hoje, na contramão do mundo,
mal sei quem eu sou.

Tudo na minha vida
foi efêmero, superficial e banal.
Nada é matéria de memória 
ou digno de virar história.

Sou apenas um corpo que envelhece,
sem a marca de grandes acontecimentos,
indiferente a realizações e a glória.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A IRRACIONALIDADE DO LUTO

Do ponto de vista de nossa mais involuntária consciência das coisas, a morte é inaceitável.

 Para a consciência nossos mortos estão apenas ausentes. Mesmo que seja uma ausência permanente. A inexistência de um ente querido é inconcebível, assim, como é inconcebível nossa propria inexistência.

 Demorei muito tempo para entender que o luto consiste nesta negação irracional da morte e todas as suas extremas consequências.

Não compreendemos como alguém pode deixar de ser...
Essa é uma das razões pelas quais muitos de nós são presas fáceis das ilusões religiosas e suas metafísicas.

domingo, 9 de novembro de 2025

A MORTE DA MEMÓRIA

Meus pais, meus avós, meus vizinhos , primos , donos de padaria e mercearia, vendedores ambulantes de picolé, jornaleiros,  etc. estão todos mortos.

Aquele velho cotidiano de infância, todos os seus personagens ou protagonistas,  desapareceram sem deixar vestígios.
 Só sobraram em meus silêncios, lembranças mudas que parecem resquícios de sonhos antigos.

Neu passado morrerá comigo.
Não pertence a ilusão da História.


CREPÚSCULO

Lembro-me dos crepúsculos da minha infância.
Era tudo poesia quando o sol se despedia e a noite nos cobria de melancolia.
Hoje isso não acontece mais.... Não há qualquer mansa agonia na paisagem que anoitece.
Hoje mal percebemos  quando anoitece.
O céu  noturno já em silêncio....



sábado, 25 de outubro de 2025

SOBRE A INUTILIDADE DA VIDA

Algumas décadas de existência 
não me levaram a nada.

Nasci, cresci e morrerei qualquer dia,.
sem deixar legado,
pois, tudo que vivi, amei e sofri,
terá sido em vão.

Mas estar livre é justamente isso:
Não pertencer a nada,
nem mesmo a si mesmo.

O passar dos anos nos ensina
que tudo é perecível,
incerto e provisório.

Ninguém está seguro
em seu próprio chão.


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O BOM FRACASSO

Minha vida se resume ao bom fracasso de ter me tornado um poeta razoável,
de nunca ter tido dinheiro,
bom emprego, filhos e longos relacionamentos.

Tenho orgulho de não ser um exemplo.

ELDENORA GATA ARISCA



Eldenora era a gata mais arisca
de uma linhagem de sete gatinhos.
Cedo tornou-se órfã
e foi buscar pelo mundo 
o aconchego do seu próprio cantinho.

Vagou  por muitos telhados
levando sempre consigo 
a lembrança e o carinho 
de seus familiares felinos.

Eldenora, apaixonou-se pela vida,
colecionou aventuras, experiências,
teve suas crias,
suas boas noites  e maus dias.

Vive, ainda hoje, cheia de manias,
sobre um teto de zinco quente, 
cercada de filhos, netos e alguma poesia.

Mal lembra a inquietude de seus tantos caminhos, descaminhos e experiências
sobre  telhados e  céus estrelados,
buscando seu caro cantinho.

Mas, depois de tudo, 
mesmo tendo encontrado um destino,
Eldenora permanece arisca
 e sente falta da antiga e velha linhada de sete gatinhos.










sábado, 6 de setembro de 2025

O FRACASSO COMO META

Espero, sinceramente, que minha vida se torne um caso de fracasso exemplar. Não quero  ser bem sucedido em um mundo onde somos coletivamente co-responsáveis pelas mais absurdas e cotidianas atrocidades. Recuso-me a participar ativa e tragicamente do progresso da Humanidade.

Definitivamente, não quero ser importante, fazer a diferença ou ser, de alguma maneira, vitorioso em meio a tamanha barbárie. Pois isso significaria minha rendição a padrões e convenções, aos pequenos e grandes absurdos da minha época e cultura.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

DESENHAR NA TERRA

Uma das minhas mais antigas e solitárias brincadeiras de criança era desenhar histórias na terra Com um graveto qualquer. 
Desenhava um quadro, apagava e fazia o seguinte. Pacientemente construi, assim, uma narrativa que ganhava vida e se perdia quase ao mesmo tempo.
Assim eu começava a inventar um mundo dentro de mim, na contramão da realidade.

CONSCIÊNCIA, MEMÓRIA E NOSTALGIA

O passado não é apenas feito de pessoas, lugares e experiências perdidas.  
 Memória não  é só lembrança.Mas, essencialmente, consciência e, como tal, continuidade, presença.
A memória é o que nos define como viventes, como singularidades.
A memória é uma coisa viva que nos define no mundo. 
Cada um de nós é um efêmero e circunstâncial arranjo de memórias que personificam um modo próprio de fabular, de saber o mundo.
Parte considerável do meu dia consiste em me perder em lembranças, saudades e nostalgias....
Nada nos é mais angustiante do que a transitoriedade de todas as coisas.


sábado, 16 de agosto de 2025

INFÂNCIA E FANTASIA

Para meu eu  criança brincar personificava o sentido da vida, pois era uma atividade que entrelaçava a imaginação e a realidade, encantando pessoas e mundos.
O mundo adulto era, então, um mistério encantado na incerta fronteira entre o pensar e o sonhar 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CADERNO DE VERSOS

Um naco de papel sujo de tinta.
Assim eu definia meu antigo
caderno de versos
hoje para sempre perdido e esquecido.

Talvez, tenha sido oportuno
seu extravio.
Pois eram versos sem brilho,
um futil exercício de inquietude
feitos por um eu que já não existe,
que não os reivindica para triste memória.

Jaz para sempre perdido
meu antigo caderno de versos,
permanecerá apagada 
sua irrelevante história.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

INFÂNCIA E TEMPO LIVRE

A invenção da infância não se confunde com o ideal de um corpo e uma consciência em formação, aos quais atribuimos uma inocência e ingenuidade idealizadas.
A infância defini-se, acima de tudo, pelo tempo e pela imaginação livre, pelo ócio criativo. Apesar da rotina da escola e da casa ditadas pelos ritmos e lógicas dos adultos, a criança é senhora do seu tempo.

O que mais me provoca nostalgia quando recordo a infância é justamente a memória do lúdico tempo livre de brincadeiras e fantasias quase infinitas através do qual a vida tinha gosto e fazia sentido.



quinta-feira, 19 de junho de 2025

FELICIDADE

A felicidade é estar em casa
lembrando um passado
que não tem tempo ou lugar. 

É ignorar o mundo,
estar em si mesmo,
saber-se  em paz
longe de tudo .

A felicidade é uma ausência,
é qualquer coisa sem nome
que não existe mais
enquanto o ego da gente
ainda se desfaz.

domingo, 15 de junho de 2025

NOSTALGIA OU QUASE UTOPIA

Tenho saudades de um passado
em que todos estavam vivos
e a felicidade era banal 
como um pedaço de pão.

Naquele tempo a vida
era o simples passar das coisas.
Nada tinha razão 
ou demandava explicação.

A vida era apenas a vida.
Tudo o mais, era ilusão.