sábado, 26 de maio de 2018

A UTOPIA DA INFÂNCIA

Envelhecer é um estado de quase ausência. Um modo de existir na mais íntima limitação física. Algo que torna a infância uma espécie de utopia, de não lugar ideal de plenitude da vida.

É na infância, enquanto imagem de evasão e ausência, que nos abrigamos contra as circunstâncias do tempo.

Daria tudo para viver no passado, me embriagar de infâncias, refazer todas as minhas esperanças, na intensidade de um devir criança.

Quantas saudades tenho de mim mesmo...

terça-feira, 22 de maio de 2018

SOLIDÃO E BIOGRAFIA


Poucas pessoas fora do nosso circulo familiar permanecem presentes em nossas vidas de forma continua. No meu caso, nunca tive amigos de vida inteira. Mesmo em amizades perpetuas, as circunstancias da existência interromperam o convívio mesmo com aqueles com os quais, em algum período de existência, como os anos de graduação, estabeleci vínculos estáveis.

Cada um segue seu próprio rumo, sua trajetória pessoal. Ocasionalmente seguimos juntos por algum tempo na mesma direção. Mas isso é sempre uma experiência perene. Na maior parte do tempo lidamos com a consciência do fato elementar de nossa intransponível solidão.

sábado, 19 de maio de 2018

A MATINHA

A matinha era uma área não habitada e parcialmente arborizada à margem de uma rodovia no longo caminho entre a casa dos meus avós maternos e a casa dos meus pais.

É um destes lugares de passagem que ocupam a geografia da minha infância  como um espaço mágico e quase onírico. 

Inúmeras vezes o percorri na companhia dos meus pais,  a pé ou de bicicleta. Tenho saudades deste lugar que hoje certamente já se tornou outro.

Mas o que importa aqui é a mera constatação que a memória não é feita da lembrança de fatos e momentos, mas antes de tudo de lugares que desenham uma verdadeira geografia afetiva. As memórias possuem um chão, é ele é mais importante do que normalmente nos danos conta.

SOBRE A MORTE DO MEU PAI

Já faz alguns poucos anos que meu pai morreu. Mas a experiência cotidiana da sua ausência faz sua morte acontecer novamente sempre. 

Na sua morte cabem todas as mortes. Inclusive a minha.  o tempo da morte não é linear. Define uma espiral que nos envolve e consome. Isso explica minha perplexidade diante da novidade de sua não existência. É como se ela nunca tivesse acontecido e sua falta não fizesse sentido. Não fui ao seu enterro, o que reforça esta minha irracional recusa do seu fim.

O SENTIDO DA NOSTALGIA

Sei que não posso voltar aos anos de infância. Mas isso não torna pueril minha desesperada nostalgia em relação aos primeiros anos ou duas décadas de vida. O que eu realmente queria, era voltar a ser e sentir como naquele tempo, recuperar um modo de saber o mundo através de intensidades. O que realmente me parece absurdo é ter perdido tal capacidade.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

ROBÔS



Para as crianças de hoje, um brinquedo como este, tão popular em no inicio dos anos 80, deve parecer um objeto ridículo e sem atrativo.  Nossas sensibilidades coletivas e codificações de mundo  mudaram muito nas últimas décadas. Isso se percebe de forma realmente escandalosa em nosso modo de representar e dizer as coisas.

Reconheço que sou devedor das formatações culturais década de 70 e 80 do século XX, período no qual cresci.
Este pequeno e rude brinquedo me desperta uma certa nostalgia que se traduz em carinho pelo objeto antigo que um dia me foi tão intimo.

Robôs eram brinquedos muito populares no período aqui citado e acalantavam a fantasia tanto de crianças quanto adultos, demasiadamente otimistas quanto ao progresso tecnológico e o futuro que nos esperava nos anos 2000.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

MEMÓRIA PESSOAL E RECUSA DO TEMPO HISTÓRICO

Os acontecimentos ditos históricos ou sociais ocupam um lugar modesto na geografia de minhas memórias pessoais. Podem se refletir em hábitos epocais , objetos e experiencias midiáticas como programas de TV, mas não são personificados por acontecimentos. Minha memória é seletivamente direcionada para os fatos cotidianos do meu existir privado. Seja no seio familiar ou na rotina  escolar. O acontecer do mundo não me deixou memórias ou marcas existenciais. Muito provavelmente porque os considero descartáveis e meras notícias de jornal. 

O ELO PERDIDO INFANTIL

O que há de mais curioso e banal nas recordações de infância é o fato da experiência de ser criança não apresentar qualquer vestígio. As recordações parecem remeter a um adulto em miniatura que nunca existiu. Mesmo sendo óbvio que meu raciocínio e experimentação de infância são distintos da forma como recordo os fatos, a experiência autêntica do sentir de infância permanece impossível. É como tentar viver os pensamentos de outra pessoa. Mas a realidade é que é exatamente disto que se trata.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O PASSADO NUNCA PASSA

O passado não me acomete como lembrança. Mas como um plano paralelo de acontecimentos perdidos que paradoxalmente ainda acontecem dentro de mim. É como se eu vivesse uma segunda vida que vai muito além da memória. 

A existência não se esgota neste agora que sempre é feito daquilo que já foi. O passado é o único tempo que realmente existe. E nem mesmo precisa ser lembrado para acontecer perpetuamente no desconhecimento constante da minha existência.

ENVELHECER É REINVENTAR INFÂNCIAS

Começar a envelhecer me conduziu a uma valoração da infância, a uma desvalorização da fase adulta, onde nos adaptamos as exigências e códigos da vida social em detrimento de nossas estratégias intuitivas de subjetivação. Existe um devir criança que representa evasões, distanciamentos, de tudo aquilo que nos furta a irreverência e a espontaneidade. A vida se torna insuportável quando nos tornamos pragmáticos e apenas nos dedicarmos ao exercício da sobrevivência.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

TERRITÓRIO EXISTENCIAL

O duplo território, definido pela casa dos meus pais e dos meus avós maternos, configurava toda a minha realidade de infância. 

O mundo era, então, como um lado de fora irrelevante que  quase não possuía efetividade. Nem mesmo a vida na escola foi capaz de desfazer esta impressão primeira da vida que hoje se reinventa na medida em que me desencanto com as verdades tolas do dia a dia.

O fato é que o tempo passa e nossas preocupações privadas e supostamente pessoais, não passam de uma ilusão.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

IMPRESSÃO BIOGRÁFICA

Meus tantos tempos vividos, dá criança, a juventude, a maturidade que anuncia um incerto envelhecimento, não permitem qualquer balanço provisório ou conclusão.

Meu tempo vivido é feito de descontinuidades. É a aleatória combinação de fatos dispersos onde o acontecer do mundo diz mais as coisas do que qualquer subjetividade que eu possa ingenuamente reivindicar.

Por outro lado não reconheço qualquer determinismo. Apenas a impossibilidade de qualquer teleologia.

LEITURAS DE FORMAÇÃO I

TPelo que me lembro, foi no final dos anos oitenta do século passado que comecei a me interessar pelos livros. Isso sem abandonar a paixão pelas HQs.
O mundo vivia um momento de reviravoltas que marcariam profundamente os anos noventa. A queda do muro de Berlim, o fim da URSS e depois a guerra no golfo, além dos confritos no Oriente Médio, mostravam o quanto não havia nada a se comemorar com o fim da guerra fria. Tudo era pura incerteza naquele fim de século de surpreendentes novidades.
Comecei a ler historiografia, literatura e filosofia. Até hoje estes três campos ainda definem meus interesses como leitor.  Minha primeira curiosidade intelectual foi o anarquismo e depois o Marxismo. Por mais que Proudhon e Bakunin me fascinacem acabei me incrinando para Marx e o Marxismo. Afinal, naquele momento, a militância politico partidária era o que parecia mais concreto e efetivo para um morador de província. Como anarquista seria apenas um sonhador isolado vivendo de devaneios de contra cultura. Afinal, na mesma época o rock se consolidava para mim como uma referência identidaria. Logo me rendi a dialética e  Hegel como uma espécie de revelação religiosa.
Como todo adolescente inquieto e solitário eu era demasiadamente ingênuo e voluntarista e vislumbrava a militância política como uma estratégia de socialização. Não demorou muito e me tornei um militante comunista. Como eram tempos de perestroika e crise do movimento comunista,  pelo menos não sucumbi a  um marxismo ortodoxo. Em pouco tempo, mesmo  Flertando  com o anarquismo, passei a me definir como um comunista cuja principal referência era Lukacs e a Escola de Frankfurt. Preferia uma leitura mais filosófica do "jovem Marx" do que seus textos sobre  economia política. Eu não sabia, mas havia me tornado mais um hegeliano de esquerda do que um Marxista. Sartre um outro autor que me dispertou profundo  interesse naquele período e hoje basicamente não me diz nada.

OS TRÊS PLANOS DA VIDA


A trajetória de uma vida está condicionada a três planos aos quais estamos presos: a família, a escola e o trabalho. É o que nos define no mundo. No inicio vivemos sob a tutela de nós pais e a vida privada familiar é o que nos define. A escola nos lança ao adestramento de um existir mais amplo e social que, de um modo muito duvidoso, nos prepara para um existir “produtivo”, ou seja, para o trabalho. É quando as expectativas retornam a reprodução do plano familiar. È preciso encontrar alguém e constituir família, reproduzir o ciclo.

Confesso que sempre me senti deslocado em relação a estes três planos, mas não tive a sorte de me tornar o membro rebelde de uma bem sucedida banda de rock. Tive o destino obscuro e medíocre de quem não nasceu para nada. Não constitui família e muito menos conquistei nome e patrimônio através de um trabalho. Do ponto de vista da sociedade posso ser considerado apenas mais um destes casos de existência banal.



domingo, 6 de maio de 2018

SOBRE OS LIMITES DA MEMÓRIA VIVA

É fato que a memória não dá conta de todas as coisas vividas ao longo do desenvolvimento de uma vida inteira. Ela funciona mais como um filtro que coleciona momentos dispersos e estabelece uma unidade entre eles. Mas Trata-se de uma versão virtual ou um inventário precário de experiências; algo que nada esclarece a aventura de existir.

Sei muito pouco sobre mim mesmo é o modo como me relaciono com meu passado, intermediado por um conjunto de lembranças vagas, dizem mais afetos do que a experiência de mim mesmo.