Experimento um certo desconforto quando penso que daqui a cinquenta ou cem anos o mundo tal como conheço hoje não existirá mais. Muitas questões que me são caras se tornarão irrelevantes assim como a atualidade do meu modo de subjetivação. Pertencer a uma época determinada é ignorar o sem fundo da experiência humana, é torna-se pequeno e irrelevante. Há uma ausência de substância no modo como a experiência de um ego nos estrutura, na maneira como lidamos com o tempo, como ignoramos o devir. Aprendemos a ser...mas isso nada significa na concretude de uma existência.
O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
terça-feira, 31 de julho de 2018
PASSADO E FUTURO
O passado é para mim como um sonho distante. É como se nunca tivesse sido um presente. É como se a memória acordasse qualquer fantasia dentro da irrealidade do tempo. O passado e o futuro é onde nunca sou e , no entanto, o que me define na intuição desta particular existência que me transcende e contém como devir e permanências.
INFÂNCIA E NATUREZA
Quando eu era
criança era hábito na província em que nasci permitir aos pequenos, em seus
primeiros anos, usar as mãos nas refeições diárias sem o constrangimento do uso
dos talheres. Como a base da alimentação era o feijão com farinha combinado com
arroz e carne, a comida era reduzida a uma massa nutritiva de sabor peculiar.
Não sei a razão
de considerar tão significativo este rude costume. Acho que associo livremente
o uso das mãos na alimentação a uma pratica de liberdade contra as convenções. Ou,
talvez, simplesmente me chame atenção seu desuso e a precoce introdução dos
talheres na cultura da infância nos dias de hoje.
Ser criança é
uma construção social que vem mudando vertiginosamente nos últimos tempos em
curto espaço de tempo. Os mais jovens são agora acostumados a lidar com um
volume de imagens e informações cujo acesso era antes reservado a um adulto razoavelmente
culto.
Ao mesmo tempo,
a experiência dos espaços e das paisagens, do mundo natural, parece cada vez
mais distante da experiência da infância em uma sociedade tecnológica e cada
vez mais definida pelo virtual. As crianças já não possuem uma imaginação de
jardim. Pessoalmente, minha infância foi marcada por brincadeiras em jardins.
Vantagem de ter sido criado em casas e não em apartamentos.
segunda-feira, 30 de julho de 2018
SOBRE NÃO TER FILHOS
Minha vida é
banal como qualquer outra. Não vivi nada de extraordinário. Na verdade apenas
existi como todo mundo e sofri como todos os outros as efemeridades de minha época.
Ambientado em um
tempo pequeno, preso a uma família, a um emprego, vivi modestamente. Adaptei-me
as circunstancias existenciais, cultivei gostos e desgostos.
Mas, ao contrário
da maioria dos meus amigos, não tive filhos. Nunca me tornei responsável por alguém.
Considero este um dos meus grandes pequenos acertos. Não foi exatamente uma opção. A não paternidade foi um desdobramento natural do meu modo de viver tão
voltado para mim mesmo.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
TABAGISMO
Comecei a fumar com 18 anos. Era um dia banal, uma tarde de sol. Parei sozinho em um bar para beber uma cerveja antes da aula na faculdade. Pedi um cigarro para me fazer companhia. Acabei gostando da experiência intimista.
Antes disso odiava o cheiro é a fumaça de cigarro. Meu pai era fumante. Durante a infância sempre comprava cigarros para ele. Mas nunca tive vontade de experimentar. Contrariando todas as tendências, acabei , entretanto, me tornando um fumante muito devotado ao vício.
MEMÓRIA E VIDA
A memória é sempre uma reinvenção do agora. Significamos o passado em função das fúteis urgências do tempo presente. Afastamos o intempestivo, o incoerente, em função da necessidade constante de atualizar o sentido, de inventar identidades e sentimentos de mundo.
No fundo somos muito ingênuos em nossa relação com o tempo e a finitude. Exigimos sempre da vida uma consistência que ela não pode nos proporcionar.
ESPIRAL DO TEMPO
Creio ser impossível organizar minhas lembranças e representar minha trajetória pessoal a partir da constância de um ego. Acho que fui vários ao longo da existência.
Do mesmo modo, longe de um evolucionismo teleológico, minha existência é um acúmulo de rupturas, uma desconstrução e reconstrução constante de todas as coisas. O que sou hoje é a negação de meus múltiplos passados e não o resultado natural deles.
SOBRE MINHAS AMBIÇÕES
A realização pessoal e profissional, desde que superei a adolescência, não mais se impôs para mim como uma meta ou preocupação muito séria.
Desencantado com as convenções da existência social, me coloquei o engrato desafio de uma busca introspectiva por autenticidade. Nunca soube direito o significado de tal objetivo.
Aos olhos dos outros devo ser um exemplo de fracasso. O que não me afeta. Ainda acredito que a experiência de viver plenamente escapa às convenções.
Levo uma vida materialmente humilde perto dos cinquenta anos. Mas minhas ambições escapam a qualquer pragmatismo.
Ainda tenho esperanças de levar a mim mesmo as últimas consequências. E isso me importa mais que qualquer ventura financeira ou prestígio social.
PERIODIZAÇÃO BIOGRÁFICA E AMBIENTAÇÃO
É curioso como
cada momento da vida da gente possui um modo próprio de ambientação. Determinadas
músicas, filmes, pessoas, lugares, etc. decoram um intervalo de nossas vidas
estabelecendo uma espécie de textura ou rotina afetiva.
Não somos
responsáveis por estas configurações. Elas apenas nos acontecem e depois se
dissipam tão repentinamente quanto se estabeleceram. Mas cada momento tem suas
questões, seus desafios ou enredos. Não estão diretamente associados a idade ou
aos papeis e circunstâncias sociais. Mesmo quando envolvem as circunstâncias de
um emprego ou uma mudança de endereço.
Para o bem e
para o mal estes períodos dão o ritmo de um devir biográfico,
forjam nossa personalidade e não é fácil entender o que exatamente os formata, o que nos conduz de um momento a outro.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
AMBIENTAÇÕES
Ás vezes me
lembro das ambientações dos tempos de
criança. Coisa pouca como o quintal da casa dos meus avós maternos ou os
jardins da casa dos meus pais. São lembranças fragmentadas que dizem lugares
onde ainda me abrigo, que me servem de referência.
Claro que a rua em que cresci
não é hoje a mesma rua. Faltam pessoas e configurações de cenário apagadas pelo tempo. Não é o mesmo ambiente.
Ouso mesmo dizer que tudo que estes lugares são ficou no passado. Pelo menos
para mim. Mas trata-se de um passado que ninguém jamais saberá. Nem mesmo faria
diferença saber. É todo um modo de vida que se perdeu e não pode ser
restaurado.
quarta-feira, 4 de julho de 2018
A MATURIDADE COMO DESENCANTAMENTO
Quando eu tinha vinte ou trinta
anos, me encantava intensamente com certos livros e filmes que hoje me parecem
peças banais das artes do século XX. Não guardo mais aquele deslumbramento da
descoberta que preenchia de significados e buscas estas pequenas experiências estéticas.
Hoje as considero banais embora ainda me despertem profunda admiração.
Certamente, o que mudou não foi
minha compreensão destas obras, mas minha capacidade de ser afetado por estas
pequenas experiências vocacionadas a
realização de qualquer gozo intelectual.
Envelhecer me tornou cético e um
pouco insensível. Coisa que não considero ruim. Já não sou arrebatado por
qualquer coisa. Este é um defeito dos jovens. Com o peso do tempo nos ombros perdi muita
daquela vaidade e audácia que me caracterizava. Deixei de sonhar outros mundos,
com futuros redentores que expulsariam todas as insuficiências da minha vida
cotidiana.
Filmes e livros já não me
transformam em outro na vida do pensamento. Hoje sei que nenhum conhecimento ou
opinião fará de mim uma pessoa melhor. Deixei definitivamente para traz meus
dias de inocente romantismo. Vivi o suficiente para me tornar um pouco de tudo aquilo que não queria ser
quando jovem.
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