segunda-feira, 29 de julho de 2019

ECOS TROPICALISTAS EM UMA ADOLESCÊNCIA DOS ANOS 90


Se o rock e, especialmente o heavy metal, sempre representaram para mim um ethos, um modo de vida construído a partir de uma dada sensibilidade musical, alguns álbuns de MPB, sempre me comunicaram qualquer sentimento, nostalgia, ou, simplesmente, ambientações de infância. Diferente do rock, cuja sonoridade me diz sempre o presente e o futuro, certa MPB me comunica  um passado remoto. Não é por coincidência que os três álbuns que melhor traduziram para mim tal sentimento sejam tropicalistas.

 Refiro-me ao lírico, saudosista e delicioso Domingo de Gal Costa e Caetano Veloso (1967), que é quase uma reverência a revolução da bossa nova e a João Gilberto,  o primeiro álbum de Caetano Veloso (1968) e o primeiro  álbum solo  de Gal Costa (1969). Neste dois últimos, a tropicaria explode em cores e sonoridades únicas.

Os três álbuns juntos compõem um único passeio sonoro existencial. Nunca  consegui separa-los como experiência musical. Mesmo tendo adquirido e conhecido cada um deles  em momentos diferentes ao longo dos anos 90; época em que todos os meses me deliciava com a compra de pelo menos um vinil novo.







domingo, 28 de julho de 2019

SOBRE CARROS E BICICLETAS

Nunca aprendi a dirigir. Jamais me passou pela cabeça  ter um carro. Seria uma concessão  desnecessária as convenções  da vida contemporânea. 

Estar preso a um carro, uma casa, Um emprego... existir se tornou uma prisão.  Mas posso pelo menos evitar esta prática cela que é  o carro.

Passarei a vida inteira aprendendo a ser livre. Talvez eu precise reinventar o hábito de pedalar.

Lembro-me de quando criança  ganhei minha primeira bicicleta. Foi o presente dia presentes. Nada ensina mais a liberdade a uma criança  do que uma bicicleta.

sábado, 27 de julho de 2019

PANTERA NEGRA E QUESTÃO RACIAL


Quando criança eu não tinha uma consciência muito clara sobre racismo. Mas possuía uma consciência da minha condição  de negro em uma sociedade de brancos. Por isso heróis negros como o falcão, Luke Cage, Pantera Negra e tempestade dos X Man me chamavam tanta  atenção. 


A primeira aparição  do Pantera Negra se deu em uma aventura do quarteto fantástico. A maravilha de um rei negro africano, descrito como o homem mais rico do mundo e senhor de avançada tecnologia, era uma imagem cara a minha imaginação  de criança  negra. Ela feria  o dissimulado e cotidiano preconceito que, mesmo sem saber entender, eu percebia existir. Afinal, estava habituado a ver negros em situações subalternas. Mesmo que nunca tivesse sido vítima direta de qualquer situação de preconceito. 


Se no universo DC, durante muito tempo, os super heróis foram exclusivamente brancos, o universo Marvel  fazia soprar , de forma pioneira nos quadrinhos,  um pouco do vento fresco das lutas sociais dos anos 60. De algum modo muito positivo isso teve um efeito em meu imaginário infantil.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

NO DIA DA INDEPENDÊNCIA NACIONAL


Enquanto estudantes do ensino fundamental e médio, por vontade e gosto da minha mãe, tanto eu quanto minha irmã, participávamos todos os anos do desfile da independência nacional. Isso cobre os últimos anos da década de 70 e inicio da década de 80 do século XX. 

Não me agradava participar disso, mas me submetia a tal experiência para agrada-la. Em cidade provinciana, naquela época, os desfiles da independência tinham certo brilho como experiência comunitária.

O autoritarismo dos tempos da ditadura ainda eram, então, muito presente. Louvar a pátria fazia parte do dantesco catecismo cívico.  Além disso, defendia-se a bandeira da escola em que se estudava. Cada uma queria o maior destaque e os aplausos da multidão. 

Minha escola era particular e moldada pela filosofia de sua diretora conservadora. Todos os dias eramos enfileirados no pátio para cantar  hinos e fazer orações. Hoje tudo isso me parece um pesadelo. Mas toda  dimensão politica destes costumes aberrantes me escapavam quando criança.  

Mesmo assim, era desagradável usar luvas, segurar bandeiras, e passar horas em pé sob um sol quente vestindo uniformes coloridos.  Não tenho saudades destas ocasiões. 

quarta-feira, 17 de julho de 2019

PASSADO PESSOAL

Tenho um passado que me faz viver contra o presente e o futuro. É  um passado modesto, feito de cenas quebradas de infância, experiências domésticas,  rotinas de escola, e vivências banais de mundo.


Nada que valha um momento de História.

Este passado presentificado como afeto, como vazio, ocupa meus pensamentos, define sensibilidades, estabelecendo uma estética de existência. 

É através  dele que me defino, que me estranho, no indeterminado tempo do instante onde quase não  sou agora.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

DA MORTE DOS EUS


Atualmente quase não  me conheço.
Mas todos sabem quem sou.
Quem é,  afinal, este eu?

Quem foi aquele eu que morreu
Sem qualquer vestígio de morte?


A criança  que eu fui
Está morta

Mas em mim continua presente
Como uma incômoda ausência.
Tenho saudades dela...

sábado, 13 de julho de 2019

O ACONTER BIOGRÁFICO

O eu não  está no centro de um esforço  autobiográfico, mas os outros. Lembrar é vivenciar vínculos no tempo e no espaço.  Há algo de profundamente  impessoal em qualquer biografia. É  o compartilhado, o que é  comum, que define a singularidade  de uma existência. Sou o resultado da composição de pessoas e coisas ao longo de um tempo determinado. Não  posso saber de mim sem falar do outro, do fora de mim mesmo. Toda lembrança é coletiva.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

SOBRE INFÂNCIA E CRIANÇAS


Não tenho qualquer empatia com crianças. Não reconheço nelas nenhum traço da minha própria infância. As épocas mudam e o modo de ser criança também. Mesmo qeu sejamos todos perpassados por um devir infantil apesar da persona adulta.

Minha experiência de infância é algo incomunicável as gerações seguintes. Proporciona uma espécie de pertencimento a uma época e conjunto de códigos e experiências lúdicas que figuram na memória como uma espécie de marca ancestral de um paraíso perdido.

Minha infância me define. Justamente por isso não tenho simpatia por crianças.



quarta-feira, 10 de julho de 2019

A VIRTUALIDADE DE SER


A criança que fui um dia não existe mais. Suas memorias e pensamentos são como uma sombra em minha experiência de tempo presente. Sou um outro que a sucedeu no tempo e no espaço sem saber direito de si mesmo.

A impessoalidade de ser alguém me assombra no exercício de viver. Existo sobre o signo da indeterminação. O outro é a condição da prática de mim mesmo. A identidade que a memória me proporciona, é representação virtual de um constante vir a ser. No final das contas, quase nada sei sobre mim mesmo.      


segunda-feira, 1 de julho de 2019

MORTE E INFÂNCIA

Os tardios anos de maturidade, velhice e desencanto pouco importam na vida.  O determinante é  poder dizer que foi uma infância  plena e feliz que nos conduziu a isso. Apenas  uma boa infância faz a morte valer a pena.