Desde os meus 18 anos a companhia do cigarro e do álcool definiram meu
cotidiano modo de morrer e de viver. Meu sentimento de mundo, a administração
de minhas ansiedades, somada a um temperamento melancólico e frustrações
pessoais, foram compensados pela embriaguez, por uma busca pela criatividade e
pela produção de mim mesmo como uma regra básica do meu dia a dia. Sempre
busquei no banal, nos pequenos detalhes do meu dia a dia, um certo prazer
gratuito de estar vivo. Por isso escutar musica, estar sempre com um fone de
ouvido, sempre foi para mim uma necessidade vital durante as costumeiras
caminhadas de fim de semana.
O que faço aqui não é exatamente um balanço biográfico, mas um esforço singelo para preservar o mundo tal como se apresentou para mim. Tento estabelecer a narrativa definidora da minha existência, os caminhos da minha finitude e meu modo próprio de me inscrever em uma determinada época e configuração de mundo. Aqui me ocupo de todos os tempos de mim mesmo em finitude e espanto. Levo a cabo um balanço provisório de quem fui em minha experiência de mundo.
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
TRAJETÓRIA PESSOAL
Creio que fugi a
todos os roteiros previsíveis da vida adulta e me acomodei em um provisório arranjo
de sobrevivência. O grande problema é que ele se tornou permanente e passou a definir
todo o resto da minha vida.
Aprendi a viver
acampado em meu precário apartamento alugado. Consigo sobreviver de uma remuneração
pífia e da falta de perspectiva profissional.
Tive o mérito de não fazer família, de não ter filhos ou buscar prestígio.
Do meu próprio jeito
me considero até agora um sobrevivente dadas as insalubres rotinas existenciais
que me configuram os atos e a sensibilidade.
A memória do
abrigo da casa dos meus pais, da adolescência perdida, é o maior contraponto a
minha contemporaneidade.
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
SOBRE O ATEISMO
Recebi uma educação católica e durante a infância ir a missa de domingo era uma obrigação imposta por minha mãe.
Mas a ideia de deus nunca contaminou minha imaginação infantil. Quando adolescente, só contrário, o que era evidente para mim era a impossibilidade de qualquer experiência pessoal deste deus que me ensinavam como premissa de todas as coisas. Acho que foi com quinze anos que passei a me reconhecer como ateu, evoluindo em pouco tempo para um anticlericalismo bastante raivoso.
MEMÓRIA E VIDA
Os vestígios de um evento ou de um acontecimento preservado como lembrança, são suficientes para rouba-lo do esquecimento, mas só podem faze-lo ressignifando-o ao sabor do contemporâneo.
Há algo de virtual e de potencial no que se apresenta para nós como passado. Há um campo de incerteza que nos define a memória como experiência do agora.
Lembrar é um inventar a si mesmo através de vestígios, de pistas, que tornam o tempo uma categoria imprecisa.
domingo, 28 de outubro de 2018
SOBRE MINHA FALTA DE AMBIÇÃO
Nunca quis ser alguém na vida. Confundir-me com uma persona, construir identidade através de uma função social, em nenhum momento me pareceu uma forma de realização pessoal. Sempre me senti abaixo de todas as expectativas familiares. Desde muito cedo me dei conta que era um tipo incomum de fracasso exemplar e que nada mudaria isso.
Saber a vida a partir de minhas expectativas mais aberrantes e egoístas, ser inadequado e não adaptado, foi meu maior desafio em um mundo onde somos desafiados à eficiência e a distinção social.
Minha maior ocupação foi apenas a de me sentir bem, o que me fez um preguiçoso, alguém que não serve para um mundo de empreendedores existenciais.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
O PASSADO COMO IDENTIDADE
Tenho mais compromisso com o passado do que com o futuro. O que eu sou é a contemporaneidade do que vivi e não a realidade do que vivo. Envelhecer é inventar passados. Quase tudo em mim é feito de alguma nostalgia. Por isso meu sentimento de mundo transborda melancolias. Sou parte de muitas coisas que não mais existem.
sábado, 20 de outubro de 2018
SOBRE O PASSAR DO TEMPO
É estranho como o tempo passa. Tudo que é jamais será novamente e o mesmo do meu eu é sempre outro.
Acho que é a memória que me inventa e não os fatos. Sou feito de ausências e nostalgias, mas nunca me lembro da primeira vez em que fiz qualquer coisa. É como se nada fosse feito através de um começo e de um fim. Talvez a vida não seja tão linear quanto pareça....
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
MEMÓRIA E GEOGRAFIA
As situações e lugares que
configuram uma circunstância definem uma ambientação, uma sensibilidade própria
a uma experiência vivida. A memória nos diz sua atmosfera, o sabor da
vivencia. Não nos referimos aqui ao fato
como unidade cronológica de algo que aconteceu.
Cada momento possui um sabor especifico que dá cores a nossa recordação
e lhe caracteriza como experiência sensível.
Quando recordamos alguma ocasião lúdica
e agradável de nossa infância somos invadidos pelo sentimento nostálgico de uma
atmosfera. Existe uma dimensão geográfica/existencial
das recordações e ela é decisiva. O referencial espacial é mais decisivo na
recordação do que propriamente sua definição cronológica.
Habitar a vida é mapear
afetividades espaciais , condições atmosféricas.
TEMPO E BIOGRAFIA
Para mim é muito evidente a diferença entre o tempo biográfico e o tempo do mundo ou da sociedade. É no primeiro onde existo concretamente a margem dos acontecimentos coletivos.
É o tempo qualitativo e afetivo da biografia que me define na construção social de subjetividades. É ele que me abriga e proporciona algo próximo a uma identidade sempre provisória, que me confronta com a finitude.
No plano da vida concreta, a dimensão publica e privada da existência se confundem no tempo vivido como matéria e memória.
terça-feira, 16 de outubro de 2018
SOBRE A ATUALIDADE
Nasci em um mundo onde não havia
internet e a tecnologia gozava de uma aura de sofisticação futurista. Era algo
distante do cotidiano mais simples. As novas tecnologias digitais se quer eram
sonhadas ou fantasiadas como possibilidade.
Nasci em um mundo mais simples
onde o critério para circulação dos signos no ambiente cultural da sociedade
ainda era a subjetividade.
domingo, 14 de outubro de 2018
BOTEQUIM
Sempre gostei de frequentar botequins.já fui freguês de muitos. Sempre bebendo sozinho e contemplando o movimento das ruas, observando outros frequentadores, e me isolando de tudo através de um fone de ouvido. Alguns botecos foram engolidos pelo tempo e deram lugar a outra coisa. Outros sofreram reformas e perderam o charme. Os velhos botequins e seus frequentadores cativos pertencem cada vez mais ao passado. Hoje em dia o rústico e o simples são pouco apreciados.
A INFÂNCIA COMO UM ESTADO DE ESPIRITO
Nada se compara a segurança do ambiente familiar onde na infância somos tutelados pelos nossos pais e pelos parentes mais próximos. Essa é a melhor fase da vida. Não estamos suficientemente conscientes do mundo é dos seus problemas. Apesar das obrigações escolares, gozamos de tempo para dedicar a nós mesmos, para o lúdico e a mais imediata simplicidade da existência.
Ter sido uma criança feliz me define hoje como um adulto muito mal resolvido, resistente as obrigações e rigores da maturidade. Teimo em cultivar a infância como um estado de espírito.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
SOBRE MEMÓRIA PESSOAL
Minhas lembranças
invocam um passado que lhes transcende. Elas penetram o presente como matéria viva
do espirito, são algo mais do que simples recordação. Talvez o tempo nem mesmo exista
e todo o vivido permaneça fluindo, nos atravessando, como uma metafisica
presença.
As lembranças
mudam com o tempo através de diversas ressignificações e experiências. Nosso passado
pessoal nunca é o mesmo. Ele nos escapa como acontecimento vivo. Nossa memória
psicológica é sempre movimento e quase não se dá conta da memória do mundo.
ENTRE O PASSADO E O PRESENTE
Este profundo abismo que percebo
entre o meu passado e o meu presente é fonte de angustia. Afinal, traduz um
certo estado de dissociação de consciência. Sinto-me perdido entre o afeto e
identidade com meus eus antigos e a necessidade de um existir para o aqui e
agora que não me afeta na mesma intensidade. É como se viver fosse olhar para traz
e lamentar o que se perdeu, enquanto o presente e suas urgências exigem toda a atenção
possível. Mas ausências povoam minha presença.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
SAUDADES DE MIM MESMO
Sinto falta dos meus passados como abrigo existencial. Não falo de identidade com antigas idades ou com atmosferas afetivas personificada por certos lugares e pessoas. Falo de uma saudade de mim mesmo, da capacidade que eu tinha de me envolver com a vida e situações. Hoje, quase aos cinquenta anos, passei a acumular indiferença e desencantos. O mundo perdeu as cores e a vista ficou meio turva e em preto e branco.
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