segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O FUTURO DE NOSSAS INFÂNCIAS

A criança que fui
Não existe mais.
Pode-se dizer
Que está morta,
embora eu seja
o que dela ficou
Ainda no mundo.
Sem mãe,
Sem pai,
Sem esperança.

Em segredo,
entretanto,
frequento, ainda,
algumas infâncias.
Sei imaginações contra o mundo
Tão poderosas quanto qualquer metafísica.

A criança que fui está morta.
Nada mais me importa
além do luto 
que agora define 
o futuro das minhas infâncias.



sexta-feira, 25 de novembro de 2022

A VIDA QUE SEGUE....

As pessoas que me definiam do lado de fora de mim, hoje estão todas mortas.
Meu corpo também não é mais como antigamente e não apreende os lugares e os tempos, que, de tantas maneiras,  nos inventam a consciência. 
Posso dizer que estou por um triz, incapaz de traduzir o mundo em movimento e experiência.
Também não tenho um lugar ativo nele e me distancio do espírito do tempo. Sou cada vez uma opaca imagem silenciosa de um passado 
ignorado.
Isso é tudo que podemos esperar da vida, enquanto ela segue a revelia.

sábado, 12 de novembro de 2022

VIDA E ETERNO RETORNO

Carrego em meu rosto
Traços de tantos outros!
Há nele  os meus pais,
Avós,
e variantes infinitas de muitos
que antes de mim vieram
contra o mundo.

Saber a própria singularidade 
é surpreender-se múltiplo,
um nômade , um ninguém,
na totalidade aberta do inumano,
que grita a terra no corpo
no eterno retorno da vida
no inominável de um rosto.




sábado, 5 de novembro de 2022

MINHA VIDA QUASE MORTA

Saudades da casa, 
dos cheiros,
Sabores,
que definiam 
aqueles dias
Onde todos,
apesar de tudo,
estavam vivos, 
e eu não podia
adivinhar
o  triste futuro
que nos aguardava.

FIM DE ANO, QUASE FIM DO MUNDO

Há em mim um certo sentimento de finitude que reduz o fim do ano a um confronto com o passado.
Envelhecer é viver a morte dos outros, saber o tempo como uma coleção de perdas e mutações sem propósito.
Todo fim de ano o passado cresce em nós em direção ao silêncio.
Tudo que somos ou fomos está sempre desaparecendo.
Todo fim de ano é quase fim do mundo.

sábado, 22 de outubro de 2022

HQs , ÉTICA, E REALIDADE

As HQs fazem parte da minha vida desde a mais tenra idade. Logo, minha experiência com os quadrinhos experimentou várias fases, sensibilidades e fabulações, na fronteira entre o ficcional e o real.
De um modo geral, o mundo dos quadrinhos sempre foi para mim uma metafísica, uma mitologia. Nunca enxerguei o mundo dos quadrinhos como uma indústria de interterimento, mas como um universo paralelo e comunicante.
Talvez, por isso, tome os super heróis da DC e da Marvel como modelos éticos e, não raramente, anti-morais anunciando outros modos de vida.

ENTRE O INSTANTE E O MOMENTO

O perpétuo instante de mudar,
De deixar, continuar,
Faz parecer que nada para de ser.
Mas tudo definha e morre,
tudo se perde,
Desacontece.

Mesmo o instante que permanece,
Envelhece, perece,
e não mais se reconhece
no espelho do momento,
Sempre atual.

Sou cada vez menos o instante,
o momento,
diluído em memória,
Consumido por esquecimentos.




sexta-feira, 7 de outubro de 2022

FINITUDE E DESENRAIZAMENTO

Os lugares onde cresci 
não existem mais.
Como não existem mais meus pais,
a criança que fui um dia,
ou a cidade onde nasci.

Tudo foi reduzido ao não lugar da memória,
foi escondido a margem da história,
enquanto o mundo segue sem brilho ou glória.

A existência não nos basta,
mas é tudo que temos hoje,
e amanhã não teremos ou seremos nada
nos abismos do esquecimento.

Nosso lugar mais certo
é um canto qualquer de cemitério
onde seremos nada e ninguém.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O TEMPO CONTRA A GEOGRAFIA

O tempo me diz lugares e pessoas. 
Minha memória é pura geografia,
corpo e superfície.

O tempo para mim
quase não existe
além da experiência
da fotografia.

O tempo não é lugar,
Não é coisa.
Mas um modo de sonhar.

sábado, 17 de setembro de 2022

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE

Persisto hoje existindo em um mundo onde a maioria dos adultos que me serviam de referência estão mortos. Não deve, portanto, surpreender que eu não me sinta mais parte deste mundo, mas uma sobra impertinente do meu próprio passado. Não me venham falar sobre espectativas ou futuros.

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

ALÉM DO FIM DE TODOS OS MUNDOS

O mundo que me viu nascer
morreu prematuro
e pouca memória deixou
aos sobreviventes.

O mundo que me verá morrer
Já nasceu doente,
sem tempo, sem chão,
Sem presente.
Talvez, deixe poucos sobreviventes.

Alguns acreditam que ele será mesmo
um dos últimos mundos possíveis
antes do fim da eternidade.
Pessoalmente, isso pouco me importa,
pois é sempre no passado
que me sinto presente,
além de todos os mundos,
aquém de todos os tempos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

CASO EU MORESSE HOJE

Morrer hoje não teria qualquer importância. O mundo seguiria em sua insanidade coletiva, como sempre, e meu desaparecimento não seria se quer notado. A conclusão da minha existência não afetaria minha biografia. Tudo que sou já descansa em algum passado. Já superei a fase de novidades.
Morrer hoje em dia seria descanso, libertação, ou, simplesmente, um alívio.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

MEMÓRIA SONHO

Me reconheço em um passado
que me foge ao vivido,
que me desconhece,
mas me confunde
com o mais profundo do tempo,
Lá onde a memória é sonho .




sexta-feira, 12 de agosto de 2022

NOSTALGIA

Existo em meus passados,
no tempo dos meus tantos mortos,
onde a realidade é sonho
e a vida  não tem mais futuro.

Existo onde é sempre tarde demais.
Onde nada mais acontece,
mas tudo é sempre diferente
nos labirintos que inventam  memórias.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

SOBRE O PASSAR DAS COISAS

A casa onde cresci não existe mais.
Assim como os meus pais, meus vizinhos,
E o céu azul que me abrigava todos os dias, misturando a vigília um pouco de encanto de sonho.
Eu mesmo já não existo. A vida é outra. Mas o tempo não tem memória. Segue entre a indiferença e o esquecimento, sempre jovem, enquanto a gente morre e a vida segue.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

1980

Em 1980 eu tinha apenas nove anos de idade. Meus pais estavam vivos e o meu futuro era imenso e imprevisível.
A década começava para mim com a morte trágica de John Lennon e com a trilha sonora do filme Xanadú. Afinal, como já disse, eu tinha apenas nove anos. Era ainda suficientemente jovem para me supor feliz.
Olivia Newton-John se tornaria, então, para mim, uma das grandes musas da saborosa década que se iniciava.

TEMPO E EXÍLIO

 Pouco há em mim dos dias de hoje. Sou feito da época onde nasci e cresci. O tempo é como a marca de um sonho, de um outro país do qual fui exilado. Sou um estrangeiro no presente e no futuro. Pois tudo que realmente vivi habita o passado. Quem dúvida que cada um de nós vive sempre conforme seus mais íntimos e profundos passados?

sábado, 6 de agosto de 2022

MATÉRIA E MEMÓRIA

O passado é aquilo que não tem presença ou existência. É a incerteza de uma lembrança que nos enraíza no tempo. 
Dito de forma clara e direta:  o passado não existe, ou acontece totalmente fora de nós, no em si do tempo, entrelaçando matéria e espírito, no devir criador.
No meu tempo há apenas descontinuidades e inacamentos, múltiplos desaparecimentos, na composição da minha finitude, em confronto aberto com o espírito do tempo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

HQs IMPOSSÍVEIS

Na época do chamado formatinho, algumas HQs se revestiram de uma aura mítica. Eu sabia que elas existiam, mas me eram inacessíveis. Tornavam-se, assim,  objeto de imaginação e desejo.  Impossibilitado de lê-las, eu imaginava e inventava as histórias, como quem sonhava acordado.

BOAS LEMBRANÇAS

Todas as minhas boas lembranças são referentes a momentos de ócio ou exercícios lúdicos. Nunca se referem a qualquer atividade produtiva ou obrigação.
O que importa na vida é, definitivamente, aquilo que não interessa coletivamente ou, simplesmente, as melhores lembranças são aquelas pelas quais jamais seremos lembrados.

ESPECULAÇÃO NIILISTA

Minha biografia é feita de descontinuidades, esquecimentos e saudades. No fundo existir é perder-se de si até ultrapassar o limite da própria existência.
Caso eu morresse hoje, meus últimos instantes seriam consagrados ao silêncio, a falta de sentido que define o acaso de tudo que existe. Afinal, existir é a ficção de um corpo vivo e a morte é o ocaso de um sonho.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

MEU PRIMEIRO INFARTO AGUDO

O infarto que sofri no dia seis de julho parecia reescrever em mim o crepúsculo dos meus pais, ambos vítimas de complicações cardíacas. As reminiscências da experiência deles definia minha própria vivência que, quanto mais concreta e profunda, menos pessoal se apresentava a mim mesmo.

Meu primeiro infarto me ensinou a viver sem amanhã e indiferente ao hoje, certo de que qualquer existência é como fogos de artifício em um céu duvidoso de qualquer lugar que não existe.

A vida não passa de literatura mal feita.




terça-feira, 17 de maio de 2022

NÃO TIVE FILHOS

Não ter tido filhos foi para mim uma forma de preservar a mim mesmo . Jamais sacrifiquei minha existência, abdiquei de parte da minha vida para ser responsável pela vida de alguém. Preservei minha integridade   interrompendo a cadeia vital dos meus antepassados. Me tornei o beco sem saída da familia ao não  transmitir a nenhum outro ser meu patrimônio genético.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

OS OUTROS

Ninguém é em si mesmo.
Os outros definem nossa existência, 
nossa presença no mundo.

Meus outros eram os meus pais,
hoje mortos.
Sem eles não sei mais de mim
entre os vivos.


domingo, 1 de maio de 2022

MATÉRIA E MEMÓRIA

Meu passado é matéria viva,
sempre dilatando no tempo,
crescendo,
com a duração dos meus dias.

Ele é o que se move,
Entre matéria e memória,
entre sonho e vigilia,
através do corpo
desfeito no devir,
na presença que me faz
na vastidão infinita
de um instante incerto 
na persistência da vida
além de mim.


quinta-feira, 14 de abril de 2022

SOBRE MEU DESENCANTO COM O MUNDO

É certo que hoje não tenho mais a capacidade de me envolver com as coisas, de viver entusiasmos, ou descobrir novidades, como tinha na juventude.  
Depois de certa idade tudo se torna previsível, banal, e sem brilho. Afinal, o futuro é menor do que era e já me cansei do jogo do mundo. A vida social em todas as suas manifestações desperta um sentimento de opressão e impotência. A rebeldia e generosidade da juventude foi abatida pelo peso dos anos ou redusida a mansa indignação dos conformados .
Amanhã será outro dia. Mas isso já não significa nada para quem sabe que não verá o fim da história. 
Por outro lado, os jovens de hoje me parecem mais velhos do que eu me tornei em seu hedonismo narcisista e futil de tempos de novas sensibilidades e tecnologias.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

COMO ME TORNEI PERPLEXO

A existência dos meus pais sempre me pareceu muito maior do que a minha. Agora que eles não existem mais, eu me sinto muito menor do que a vida. Vivo  em um estado permanente de luto e perplexidade que desafia toda premissa para qualquer filosofia positiva ou centrada na experiência do Ser.

quinta-feira, 31 de março de 2022

LUTO E EXISTÊNCIA

Aos cinquenta anos perdi minha mãe.  Desde então a vida se quebrou dentro de mim e meu passado pessoal se fez um território existencial. Passei a existir nele, virtualmente, indiferente ao presente e ao futuro. Tornei-me inteiramente niilista diante da existência. A própria vida se converteu em assombro. A morte ganhou as cores de uma consciência de mundo.

quarta-feira, 30 de março de 2022

JUVENTUDE E NEO PAGANISMO

Por volta dos meus trinta anos, quando eu lia Jung e deitava cartas de tarô, a vida me parecia mais misteriosa, menos óbvia. Tudo era mais intenso. Toda experiência tinha um gosto de sonho. Eu escutava música quase o tempo todo. A música era meu modo de perceber o tempo. Percebia o gênio de cada lugar. O mundo era para mim algo vivo em suas multiplas manifestações.  Pode-se dizer que minha percepção da realidade era radicalmente definida por uma espécie de neo paganismo, por uma intuição  magica de natureza.

sábado, 26 de março de 2022

O MUNDO EM QUE NASCI

O mundo em que nasci, suas sensibilidades, dispositivos e artefatos culturais, modos de saber o corpo, não passam de uma sombra na memória, um conjunto desarticulado de vestígios e lembranças, totalmente impotentes diante da concretude crua das realidades do tempo presente.
Mas a época em que nasci, em sua ausência, me parece mais real do que o tempo de agora que me impõe a ditadura da sua presença. 
Depois se certa idade, pertenço mais ao passado do que ao futuro, sou mais memória do que vida. O mundo em que nasci é o único que realmente existe dentro de mim.
Sou nativo das últimas décadas do triste século XX cujos ecos ainda nos assombram. Persisto nas sombra do mundo pequeno e doméstico de quem já fui na vida, quase como uma memória onírica consagrada ao fantastico e ao maravilhoso do ontem como memória e delírio vivo.


terça-feira, 22 de março de 2022

EU E A CIDADE

A cidade que me viu nascer,
que me fez crescer,
já não me conhece mais.
Eu também 
não me reconheço nela.
Habitamos outros espaços 
onde não cabe nosso passado.

sábado, 12 de março de 2022

ANATOMIA DA NOSTALGIA

Minha memória  é o espólio de muitos eus perdidos. Por isso cada lembrança tem gosto de sonhos, de outras vidas.
O passado não me lega identidades ou heranças, mas um profundo sentimento de exílio, de ausências de mim mesmo e de mundos vividos.

domingo, 6 de março de 2022

LEITURAS SEMPRE PENDENTES

Nunca li a bíblia. Afinal, nem mesmo na infância, quando predomina algo de mágico na experiência  do pensamento, fui seduzido pela mitologia cristã.
Mas é uma leitura que me desperta certa curiosidade, com as devidas considerações históricas e hermeneuticas. Mas antes dela espero realizar arduas leituras mais importantes e desafiadoras antes de morrer. Penso em Guerra e Paz de Tóstoi e nos vários volumes de Em busca do tempo perdido de Prost. São obras que já hoje nos fogem a experiência de leitura, em tempos de informação e imagem digital. 

sábado, 5 de março de 2022

domingo, 20 de fevereiro de 2022

NUNCA MAIS....

Nunca mais minha mãe ou minha tia prepararam o almoço. Nunca mais a fome foi meu modo de estar em casa.
Nunca mais fui feliz na vida dos outros.
Nossa existência  virou passado
e a casa morreu vazia de todos.
Não existe mais hora do almoço. 


terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

DA PROVÍNCIA À CAPITAL

Nasci em uma província. Minha família nunca viajou à Capital. Meu mundo tinha o tamanho do quintal dos meus avós. E ele era infinito. Continha todo o universo.
Hoje moro na capital e minha vida carece de mundo.Todo lugar é um deserto.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

CREPÚSCULO ESMERALDA E NOVO AMANHECER

Com a queda das vendas, os anos 1990 foram um periodo particularmente sombrio para o Universo DC. A morte do Super Homem e A Queda do Morcego são os dois grandes arcos  clássicos deste periodo. Mas é com Crepúsculo Esmeralda e Novo Amanhecer que experimentamos mais radicalmente a vertigem da eclipse do mito do herói que marcou esta época. É através do luto insano de Hal Jordam e do trágico  começo de um novo Lanterna Verde, que vuvenciamos uma espécie de melancolia entre fantasia e realidade que comunica o mais precário da condição humana. Afinal, estes dois últimos arcos são sobre mortes e perdas pessoais. Só com o passar dos anos e perdendo pessoas fui capaz de adentrar, na noite mais escura, a densa tristeza destas narrativas do campeão esmeralda cujo grande poder sempre foi a força da vontade.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A CASA DOS MEUS PAIS

A casa dos meus pais  é minha única definição de lar.
Mesmo que meus pais estejam mortos,
que a casa abrigue o silêncio, 
ela ainda é, material e imaterialmente, o único lugar onde realmente  existo. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

ONTOLOGIA DO ESQUECIMENTO

O passado não para de crescer,
de se tornar presente,
intenso, imenso,
e reinventar, reivindicar, o tempo intimo do meu silêncio. 

A Memória é um tudo que me devora.
Quem eu fui é cada vez mais o que me tornei e desaparece
na crescente incerteza do agora.