quarta-feira, 15 de novembro de 2023

TARDE DEMAIS

Todos que me viram nascer e crescer estão mortos.
A velha casa jaz em ruínas
e quase não me lembro
dos meus melhores dias .

Estão todos mortos
e esquecidos no velho álbum de fotografias.

É tarde demais para saber da vida,
para voltar pra casa,
reencontrar rotinas.

É tarde demais para o tempo
do resto de nossas vidas.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

AINDA SOBRE A VIDA DE ESTUDANTE

A escola é antes de tudo um espaço de convivência e socialização. Isso torna o tempo livre do recreio mais importante do que o tempo das aulas. A sala de aula é como a cela de uma prisão e a vida de estudante, nos anos de ensino fundamental e ensino médio, acontece, mais intensamente , justamente, fora da sala de aula. Pois a camaradagem entre estudantes é o mais elementar aprendizado escolar.

A CRIANÇA MORTA

A criança que fui um dia
não existe mais.
Entretanto, não a consideram morta.
Mesmo que não seja eu
qualquer eco daquela criança
que, certamente, em mim
jamais se reconheceria.

Sei que ela está morta
junto com o corpo e o passado
que lhe definiam 
no seu extinto mundo
 de imaginações, pessoas e infâncias.

Não sou seu futuro.
Hoje , meu corpo, minha vida 
é somente outra consciência
que se perde, independente ,
em outro tempo, pessoas e  coisas
indiferente a um  passado
que nunca foi nosso.



DA VIDA DE ESTUDANTE A VIDA ADULTA

Cursar uma graduação nos anos 1990 nem de longe representou para mim a aposta em uma vida acadêmica ou em uma carreira universitária. Foi ao contrário o coroamento da minha vida de estudante. 
Em outras palavras, os anos de graduação, foram a experiência máxima de um ethos estudantil,  de um estilo de vida juvenil que, em termos de rito de passagem, corresponderia a uma transição a contra gosto para chamada vida adulta e produtiva.
Como é muito convencional, considero que os anos de graduação foram os melhores da minha vida. Um momento de experimentações e convivências únicas que definiram minha sensibilidade e subjetividade de modo duradouro.
Mas nem de longe encarei estes anos de forma prática ou pragmática, pensando na construção de uma persona social ou profissional. Sempre resisti a ideia de ter uma profissão e ser escravo de qualquer trabalho. Expulso do paraíso da vida de estudante, após o fim dos anos de graduação, não me conformei ao deserto de uma pós graduação ou a busca de uma inserção no mercado de trabalho.
Minha sobrevivência permaneceu dependente do  arranjo precário e provisório de um vínculo impregatício pouco satisfatório. Foi o preço que paguei por minha irracional resistência ao caminho que eu mesmo havia até então construído para mim mesmo. Minha juventude passava com os anos , mas meu desajuste a sociedade em que vivia permanecia como um inconveniente traço de personalidade.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

VESTIGIOS DE UM CADERNO ANTIGO

Nas paginas quase ilegíveis de um caderno velho Reencontrei vestígios de um eu mais antigo Que sabia o mundo, a vida e imaginava futuros. No fundo ele existia apenas através de sua narrativa. Desconhecia meu corpo e todos os labirintos Dos tempos da minha existência. Este eu mais antigo, no fundo, tinha muito pouco de mim E, entretanto, não era outro.

RECORDAÇÕES AVULSAS DE QUALQUER INFÂNCIA QUE ALGUM DIA QUASE FOI MINHA

Muito da minha existência sobrevive em segredo nos ecos de uma antiga canção de radio. Pois os cheiros da cozinha da minha avó ainda impregnam as paredes do meu antigo quarto de dormir. 
Mesmo hoje, quando a velha casa já não existe, já não é minha, nem de ninguém. 
Há apenas os ecos do meu passado nas notas de uma velha canção de radio, que todo mundo lembra meio comovido sem nem mesmo saber de mim ou lamentar a ruina da minha quase incerta existência.
O mundo segue imperfeito e quase ilegível superando o encanto semi vivo da memória de nossas ridículas e inúteis infâncias.

sábado, 30 de setembro de 2023

ADULTO DESAJUSTADO

Fui uma criança feliz. Minha imaginação inventava o mundo ao sabor dos afetos e fantasias que definam o mais imediato da experiência. Assim, eu me fazia parte dos lugares e situações que me envolviam.
Em contrapartida, me tornei um adulto infeliz. Alguém incapaz de se adaptar a um mundo regido por pragmatismos e ambição, onde não há lugar para fantasia e a preguiça.


quinta-feira, 10 de agosto de 2023

EXISTÊNCIA NÔMADE

Todas as pessoas que sabiam quem eu era , hoje estão mortas, assim como o mundo onde cresci desapareceu sem alarde. Dele não há mais vestígios, apenas vagas e abstratas lembranças que quase não fazem sentido.
Hoje, perdido de quem já fui, não me reconheço em quem me tornei por simples inércia, comodismo e estupido instinto de sobrevivência. Terminarei os meus dias em um íntimo exílio existencial onde diante de tudo e de todos me definirei  como um estrangeiro ou um refugiado de qualquer tempo ou mundo perdido.

quarta-feira, 26 de julho de 2023

SOBRE OS VELHOS ANOS 70

Embora minha existência não se restrinja aos anos 1970, foram neles que que existi mais intensa e profundamente do que em qualquer outro período da minha vida. Foram meus anos de formação.  A  estética dos anos setenta, suas sensibilidades e modos de existência, definem  meu modo de saber o mundo, minhas afinidades eletivas. Há em mim uma ingenuidade onírica que muito lembra a imaginação da cultura da época. Quase não nos damos conta do quanto, de um modo geral, os anos 1970 foram violentos em todo o mundo. Mas o mundo acontecia em cores vivas na intensidade das coisas banais e  sublimes.

quarta-feira, 12 de julho de 2023

TUDO MORRE

A memória diz mais do que uma vivência desfeita. Ela revela a  indeterminação da realidade, de tudo que nos parece permanente, seguro e constante.
A vida é pura incerteza.
Tudo morre.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

LEMBRANÇAS

Saudades daqueles dias sem tempo quando eu pouco sabia do mundo. Onde tudo era meu corpo jovem e intenso, no meio dos outros e em meu pequeno canto de mundo. A vida era tão insignificante e pequena que nada tinha limite. De alguma forma estranha eu me sabia radicalmente livre na prisão de minhas rotinas infantis.

sábado, 1 de julho de 2023

NOSTALGIA DELIRANTE

A velha casa morreu.
O edêmico quintal
que inventou minha infância
não existe mais.

Mas minhas lembranças
tem gosto de sonho.
e acordam 
uma infinita vontade
de fugir de tudo,
de escapar para a terra do nunca mais
onde o passado seja absoluto
e a casa não esteja morta.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

VIDA DE ESTUDANTE

Nas últimas décadas do século XX, especialmente em fins dos anos 80 e ao longo dos anos 90, fazer uma graduação na área de humanas, seja em uma capital de estado ou mesmo em qualquer cidade mais periférica, significava antes de tudo ascender a um outro nível de realidade, era uma imersão em contra cultura que de alguma forma nos traduzia a experiência de ser jovem ou existir a margem da sociedade. Éramos experimentais. A universidade ou faculdade trascendia a prisão normativa e  burocrática da rotina acadêmica.  Convertia-se em uma forma de vida, em um modo de ser, ou em uma sub cultura dentro da sociedade envolvente definida por nossa improdutiva condição de estudante.
Mas muitos de nós não eram capturados por estratégias de aprendiz que nos levariam a ser alguém na vida.
Éramos, antes de tudo, singulares. Tínhamos um mundo na palma da mão. Ser jovem e estudante,  era provar a realidade, ser seduzido por tudo que existe e pretender ir  além de tudo que nos parecia possível.

quarta-feira, 7 de junho de 2023

MUDAR O MUNDO

Ser jovem é saber a vida na espectativa de mudar o mundo.
É ter a arrogância e a ousadia de imaginar-se no centro de mudanças e rupturas que transformam a vida comum .
Quando jovem eu sonhava um mundo novo como a antecipação de um futuro certo. Imaginava ou vivia a intuição de uma virtualidade que me inspirava devir ou, ainda, como uma ansiedade ontológica que me deslocava do pragmatismo do possível.
Nunca esperei vencer na vida. Sabia que podia transformá-la coletivamente. Isso era tudo que me importava por volta dos meus 18 anos. Não pensava em meu destino individualmente.

sábado, 3 de junho de 2023

MEMORIALISMO ONTOLÓGICO

Não há dia que eu não seja assombrado pela memória dos meus mortos, dos meus melhores dias, antecipando, assim, minha própria ausência do mundo, minha  morte. Surpreendo-me como passiva testemunha da impotência de minha duvidosa e provisória existência.
Sei a mim mesmo como lugar de memórias e saudades, de reconhecimento e celebração dos outros, perdendo meu próprio rosto na impessoalidade da existência comum e dispersa em uma dada época e lugar.

domingo, 14 de maio de 2023

O SEM RUMO DA NOSTALGIA DA INFÂNCIA

Tudo que eu queria
era poder estar agora
abandonado a sombra
da copa da velha mangueira 
perdida no quintal da infância.

Queria não fazer, pensar
ou querer qualquer coisa
no labirinto de antigas memórias
onde aprendi a ser contra o tempo.

Qualquer ideal de felicidade
que me ocorre
é um modo de me imaginar morto,
alheio ao mundo
e ao momento de agora,
desfeito em minha mais íntima  versão do passado.

Ser livre é reinventar o outro do meu ser criança.


sexta-feira, 7 de abril de 2023

ENGAJAMENTO JUVENIL

Não sei dizer como comecei a me interessar por política no sentido de um ativismo de esquerda. Fui adolescente durante o processo de redemocratização do país. Minha identidade com o rock e, mais especificamente com o heavy metal, alimentava em mim certa rebeldia ou inadequação que se traduzia em uma vontade ingênua de mudar o mundo. Inicialmente, comecei a me interessar pelo Anarquismo. Tinha menos de 15 anos na época. Mas acabei aderindo ao comunismo. Naquele momento a URSS ainda existia e vivia a Perestroika. Havia uma espectativa de reinvenção do chamado socialismo real. Tal ideia me atraía. Acabei militando em um partido comunista por um pouco mais de dez anos.  Apoiei sua refundação e vivi intensamente os debates internos sobre a crise do movimento comunista internacional. Neste período também me engajei no movimento estudantil e decidi estudar história, apesar do meu fascínio pela filosofia.
Vivi radicalmente o idealismo voluntarista que , no meu entender, define a juventude.
Apesar da brutalidade da história política do século XX, suas últimas décadas possibilitaram algum otimismo em relação ao futuro.

domingo, 26 de março de 2023

SOBRE DESAPRENDER A BRINCAR

A infância termina quando desaprendemos a brincar, a fabular, como é típico da imaginação infantil ou não inteiramente domesticada.
Mais do que um desencantamento do mundo, o que tal experiência proporciona, é uma morte de si, uma perda de alma.
Não me lembro quando ou como aconteceu comigo.... Talvez, tenha sido por volta dos 16 anos.


sábado, 25 de março de 2023

NOSTALGIA

Tenho saudade de pai, de mãe,
da casa, da rua,
de mim, do tempo
e da cidade
que me viu crescer.

Saudade de tudo aquilo
que me fazia viver,
que nunca me deixou morrer
e me faz acreditar que um dia
de alguma forma eu existi
entre os outros.




domingo, 12 de março de 2023

ENTRE SÉCULOS

As últimas décadas do século XX definiram o  arco temporal dentro do qual minha vida se tornou o que poderia ser. Em outras palavras, os anos 70 à 90 do século XX são meu território existencial.
É sobre suas ruínas que o século XXI me reinventou no anonimato de nossa triste aventura humana.
Devo dizer que, em certo sentido, me sinto um órfão do último século.

sexta-feira, 10 de março de 2023

A MORTE E OS NOSSOS LUGARES DE VIDA

Os lugares são definidos pelas pessoas que os habitam ou frequentam. Por isso a morte de alguém pode mudar profundamente a rotina de um lugar. Nossa existência é um fato acima de tudo geográfico e material.
Há lugares que mudaram tanto, acumularam tantas mudanças e mortes , que não lhes reconheço mais, pois foram totalmente ressignificados.
Os lugares onde cresci não guardam nada da criança e do jovem que fui, apesar de todas as minhas memórias afetivas.

sábado, 4 de março de 2023

A LIVRARIA DOS ESTUDANTES

Livraria dos Estudantes era o nome do sebo de província que nos anos de adolescência alimentou minha coleção de HQs e depois minha biblioteca. Desnecessário dizer que não haviam concorrentes.
Sujo, mal iluminado...
Era de fato um lugar bagunçado e meio insalubre como todo autêntico sebo deveria ser. Seu dono, um homem magro, pequeno e sem instrução, praticamente adivinhava sem muito critério o preço de suas mercadorias. O valor correspondia muitas vezes mais a aparência do cliente do que o eventual valor do livro negociado.
Não se conseguia muita coisa interessante naquele lugar. Alguns clássicos da literatura universal, alguma publicação acadêmica meio defasada e uma ou outra surpresa garimpando bem.
Mas eu não podia reclamar quanto a parte das HQs, naquele tempo, ainda reduzidas aos formatinhos ou famigerados gibis.
Tinha, nos termos usados pelo vendedor, o status de "freguês bom". As vezes levava até alguma coisa fiado, pois tinha crédito no estabelecimento pelos anos de fidelidade.



sexta-feira, 3 de março de 2023

NOSTALGIA

Parece um sonho
a lembrança
de que um dia
eu já fui criança.

Sinto falta da simplicidade
que definia a infância
e todos aqueles futuros
que não  se tornaram realidade.

Sinto falta do tempo onde eu tinha
uma vida inteira pela frente
e o mundo inteiro  cabia na minha existência.


sábado, 25 de fevereiro de 2023

DESENRAIZAMENTO

A ausência de pessoas e lugares que de algum modo me definiram como ser vivente estabelecem hoje os limites do meu tempo, da minha época.
 Não envelheço apenas fisicamente, mas, antes de tudo, psicologicamente. Isso pressupõe um deslocamento de qualquer estratégia de enraizamento ou identidade.
Sou cada vez mais estrangeiro em meu cotidiano no mais radical estranhamento do mundo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

BANCAS DE JORNAIS E REVISTAS

Muito antes da internet e dos micro computadores as bancas de revista eram lugares mágicos de informação e sonho. Até às últimas décadas do século XX era realmente quase impossível separar uma coisa da outra. 
A edição dos jornais diários eram normalmente a atração principal destes estabelecimentos. Mas para mim eram os chamados gibis ( formatinhos) que roubavam todo interesse e atenção entre os diversos formatos e tipos de revistas e publicações. Merecem também destaque os álbuns de figurinhas colecionáveis. 
O fato é que saber um pouco do mundo exigia frequentar uma boa banca de jornal.
Falar sobre isso não é nostalgia, mas reaprender o passado como um sonho concreto além de todas as convenções atuais de realidade. 

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

MELHORES DIAS

Meus melhores dias de vida desapareceram
no abismo do esquecimento.
Nem eu mesmo me lembro deles.

É como se nunca tivessem acontecido
ou como se eu tivesse vivido um sonho.

Acho que minha existência aconteceu
onde eu não estava
e qualquer outra pessoa a viveu
em meu lugar.

A vida é uma ilusão do tempo.
A morte é a única realidade.
O nada define o não ser e a eternidade.