quarta-feira, 12 de novembro de 2025

NIILISMO E EXISTENCIALISMO

Tudo na minha vida
foi acidental e provisório.

Tudo me levou a nada
e hoje, na contramão do mundo,
mal sei quem eu sou.

Tudo na minha vida
foi efêmero, superficial e banal.
Nada é matéria de memória 
ou digno de virar história.

Sou apenas um corpo que envelhece,
sem a marca de grandes acontecimentos,
indiferente a realizações e a glória.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A IRRACIONALIDADE DO LUTO

Do ponto de vista de nossa mais involuntária consciência das coisas, a morte é inaceitável.

 Para a consciência nossos mortos estão apenas ausentes. Mesmo que seja uma ausência permanente. A inexistência de um ente querido é inconcebível, assim, como é inconcebível nossa propria inexistência.

 Demorei muito tempo para entender que o luto consiste nesta negação irracional da morte e todas as suas extremas consequências.

Não compreendemos como alguém pode deixar de ser...
Essa é uma das razões pelas quais muitos de nós são presas fáceis das ilusões religiosas e suas metafísicas.

domingo, 9 de novembro de 2025

A MORTE DA MEMÓRIA

Meus pais, meus avós, meus vizinhos , primos , donos de padaria e mercearia, vendedores ambulantes de picolé, jornaleiros,  etc. estão todos mortos.

Aquele velho cotidiano de infância, todos os seus personagens ou protagonistas,  desapareceram sem deixar vestígios.
 Só sobraram em meus silêncios, lembranças mudas que parecem resquícios de sonhos antigos.

Neu passado morrerá comigo.
Não pertence a ilusão da História.


CREPÚSCULO

Lembro-me dos crepúsculos da minha infância.
Era tudo poesia quando o sol se despedia e a noite nos cobria de melancolia.
Hoje isso não acontece mais.... Não há qualquer mansa agonia na paisagem que anoitece.
Hoje mal percebemos  quando anoitece.
O céu  noturno já em silêncio....



sábado, 25 de outubro de 2025

SOBRE A INUTILIDADE DA VIDA

Algumas décadas de existência 
não me levaram a nada.

Nasci, cresci e morrerei qualquer dia,.
sem deixar legado,
pois, tudo que vivi, amei e sofri,
terá sido em vão.

Mas estar livre é justamente isso:
Não pertencer a nada,
nem mesmo a si mesmo.

O passar dos anos nos ensina
que tudo é perecível,
incerto e provisório.

Ninguém está seguro
em seu próprio chão.


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

O BOM FRACASSO

Minha vida se resume ao bom fracasso de ter me tornado um poeta razoável,
de nunca ter tido dinheiro,
bom emprego, filhos e longos relacionamentos.

Tenho orgulho de não ser um exemplo.

ELDENORA GATA ARISCA



Eldenora era a gata mais arisca
de uma linhagem de sete gatinhos.
Cedo tornou-se órfã
e foi buscar pelo mundo 
o aconchego do seu próprio cantinho.

Vagou  por muitos telhados
levando sempre consigo 
a lembrança e o carinho 
de seus familiares felinos.

Eldenora, apaixonou-se pela vida,
colecionou aventuras, experiências,
teve suas crias,
suas boas noites  e maus dias.

Vive, ainda hoje, cheia de manias,
sobre um teto de zinco quente, 
cercada de filhos, netos e alguma poesia.

Mal lembra a inquietude de seus tantos caminhos, descaminhos e experiências
sobre  telhados e  céus estrelados,
buscando seu caro cantinho.

Mas, depois de tudo, 
mesmo tendo encontrado um destino,
Eldenora permanece arisca
 e sente falta da antiga e velha linhada de sete gatinhos.










sábado, 6 de setembro de 2025

O FRACASSO COMO META

Espero, sinceramente, que minha vida se torne um caso de fracasso exemplar. Não quero  ser bem sucedido em um mundo onde somos coletivamente co-responsáveis pelas mais absurdas e cotidianas atrocidades. Recuso-me a participar ativa e tragicamente do progresso da Humanidade.

Definitivamente, não quero ser importante, fazer a diferença ou ser, de alguma maneira, vitorioso em meio a tamanha barbárie. Pois isso significaria minha rendição a padrões e convenções, aos pequenos e grandes absurdos da minha época e cultura.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

DESENHAR NA TERRA

Uma das minhas mais antigas e solitárias brincadeiras de criança era desenhar histórias na terra Com um graveto qualquer. 
Desenhava um quadro, apagava e fazia o seguinte. Pacientemente construi, assim, uma narrativa que ganhava vida e se perdia quase ao mesmo tempo.
Assim eu começava a inventar um mundo dentro de mim, na contramão da realidade.

CONSCIÊNCIA, MEMÓRIA E NOSTALGIA

O passado não é apenas feito de pessoas, lugares e experiências perdidas.  
 Memória não  é só lembrança.Mas, essencialmente, consciência e, como tal, continuidade, presença.
A memória é o que nos define como viventes, como singularidades.
A memória é uma coisa viva que nos define no mundo. 
Cada um de nós é um efêmero e circunstâncial arranjo de memórias que personificam um modo próprio de fabular, de saber o mundo.
Parte considerável do meu dia consiste em me perder em lembranças, saudades e nostalgias....
Nada nos é mais angustiante do que a transitoriedade de todas as coisas.


sábado, 16 de agosto de 2025

INFÂNCIA E FANTASIA

Para meu eu  criança brincar personificava o sentido da vida, pois era uma atividade que entrelaçava a imaginação e a realidade, encantando pessoas e mundos.
O mundo adulto era, então, um mistério encantado na incerta fronteira entre o pensar e o sonhar 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

CADERNO DE VERSOS

Um naco de papel sujo de tinta.
Assim eu definia meu antigo
caderno de versos
hoje para sempre perdido e esquecido.

Talvez, tenha sido oportuno
seu extravio.
Pois eram versos sem brilho,
um futil exercício de inquietude
feitos por um eu que já não existe,
que não os reivindica para triste memória.

Jaz para sempre perdido
meu antigo caderno de versos,
permanecerá apagada 
sua irrelevante história.

quarta-feira, 25 de junho de 2025

INFÂNCIA E TEMPO LIVRE

A invenção da infância não se confunde com o ideal de um corpo e uma consciência em formação, aos quais atribuimos uma inocência e ingenuidade idealizadas.
A infância defini-se, acima de tudo, pelo tempo e pela imaginação livre, pelo ócio criativo. Apesar da rotina da escola e da casa ditadas pelos ritmos e lógicas dos adultos, a criança é senhora do seu tempo.

O que mais me provoca nostalgia quando recordo a infância é justamente a memória do lúdico tempo livre de brincadeiras e fantasias quase infinitas através do qual a vida tinha gosto e fazia sentido.



quinta-feira, 19 de junho de 2025

FELICIDADE

A felicidade é estar em casa
lembrando um passado
que não tem tempo ou lugar. 

É ignorar o mundo,
estar em si mesmo,
saber-se  em paz
longe de tudo .

A felicidade é uma ausência,
é qualquer coisa sem nome
que não existe mais
enquanto o ego da gente
ainda se desfaz.

domingo, 15 de junho de 2025

NOSTALGIA OU QUASE UTOPIA

Tenho saudades de um passado
em que todos estavam vivos
e a felicidade era banal 
como um pedaço de pão.

Naquele tempo a vida
era o simples passar das coisas.
Nada tinha razão 
ou demandava explicação.

A vida era apenas a vida.
Tudo o mais, era ilusão.
 


sexta-feira, 23 de maio de 2025

A MAGIA DA INFÂNCIA

O gosto da vida era outro
quando meu corpo
habitava a infância.

Naqueles dias, em que tudo parecia possível,
a vida tinha a vitalidade da eternidade
e eu plenamente existia como demiurgo
entre todas as coisas vivas e inanimadas
que definiam a humanidade.






quinta-feira, 15 de maio de 2025

HQs E IMAGINAÇÃO

Desde a primeira infância, quando minha mãe lia os quadrinhos para mim, as HQs abriaram as portas de uma meta realidade sem a qual a vida não faria sentido.
Muito cedo aprendi o quanto a imaginação era essencial a experiência de uma existência significativa. Pois, o cotidiano, em sua concretude e imediaticidade, nunca foi suficiente para mim...
Nunca vi HQs como mero e inofensivo entretenimento.
Nunca vi muita diferença entre heróis e deuses e os quadrinhos sempre me pareceram mais importantes do que qualquer religião.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

LUTO E ENVELHECIMENTO

Hoje, todos os adultos que me importavam na infância, minhas figuras parentais mais próximas, estão mortas. Eu mesmo já tenho uma idade superior a meio século. Tal situação, quando eu era mais jovem, era inconcebível,a mais perfeita  definição de pesadelo, embora fosse uma consequência natural do simples passar dos anos.
É certo que boa parte de mim morreu com cada um deles, assim como meu mundo diminuiu com o permanente luto que me oprime. 
A morte dos meus entes queridos  é  a contrapartida do meu próprio envelhecimento. Agora sou eu o  adulto, o velho, cuja existência se estreita e naufraga, aos poucos, em seu próprio passado, acumulando vazios e perdas.
A morte em sina que nada na singularidade de uma existência realmente importa, visto que é perecível e fadado ao mais completo esquecimento.

terça-feira, 29 de abril de 2025

INFÂNCIA & ANARQUIA


Quando criança eu queria ser grande,
romper com a infância,
com a tutela paterna,
com a escola,
e superar os limites do quintal de casa.

Eu queria viver tudo, me fazer absoluto,
saber muito mais do que qualquer adulto.

O mundo repousava
na palma da minha mão 
como um brinquedo velho e gasto.

Quando criança eu transgredia,
através da imaginação,
o próprio conceito de infância
e me inventava demiurgo.

domingo, 27 de abril de 2025

HEAVY METAL, PERIFERIA E ANOS 1980

Nos anos 1980, em um canto provinciano e marginal deste vasto território onde hoje incertamente se identifica o Estado brasileiro, enquanto a mídia nacional inventava o fenômeno do renascimento do rock nacional sob as ruínas da ditadura e através das expectativas do processo de redemocratização, eu descobria o heavy metal que então se inventava no norte da América e na Europa..
Minha rebeldia, assim se imaginava, não apenas política, naquele contexto de reinvenção nacional, mais, acima de tudo, globalmente , de algum modo impreciso e contra cultural, revolucionária. Isso, considerando ser, ao mesmo tempo niilista e revolucionário, além de qualquer projeto coletivista e vazio de sociedade.
Naquele momento, ser Head banger, pelo menos segundo os hesteriotipos, era ser um adolescente branco, liberalmente rebelde de classe média urbana. Mas, muitos de nós já cresciam na periferia e se definiram como punks os metaleiros sujos que reeditavsm através de zines, bandas e underground, um novo suspiro de contra cultura.




quarta-feira, 16 de abril de 2025

INFÂNCIA

Na infância,
eu sabia minha vida
como o centro do mundo.

Toda experiência era mágica
e meu corpo era a medida
de todas as coisas.

Tudo era intenso, profundo
e único.





quinta-feira, 10 de abril de 2025

SOBRE O PASSADO

Meu passado não deixou muitos vestigios.
Apenas  meia dúzia de registros
que não alimentam memórias ou nostalgias.

O passado, afinal, 
é feito do que já não existe,
do que não mais importa,
do que não mais nos transforma,
do que não tem futuro.

É, na melhor das hipóteses,
notícia antiga de jornal velho
que nos devora a alma.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

LEGADO

Eu me torno o que faço do meu passado,
eu me transformo nos limites do meu  tempo e  espaço.

Eu me desfaço sem deixar legado,
pois desapareceço em meus silêncios.
Meu futuro é o esquecimento
e pouco me importa o momento.




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

BALANÇO FINAL

Minha vida foi
o que pode ser
além do certo e do errado,
do fracasso e do sucesso,
do ideal e do concreto.

Tudo nela, simplesmente,
aconteceu, aleatóriamente,
e no final, alguém morreu, prematuramente,
iludido de ser um eu.




domingo, 2 de fevereiro de 2025

RETALHO DE NOSTALGIA

O café preto pela manhã, acompanhado por pão doce e com creme,
o almoço geralmente feito pelo meu pai, sempre melhor do que o da minha mãe,
o bolo de banana nas tardes de domingo,
os programas de rádio e as rotinas da televisão, o jornal do dia, a revista em quadrinhos, compõem o cenário hoje quase onirico dos tempos idos e edílicos de infância e tutela familiar.
Não há nada que se compare a isso nos anos de falsa autonomia de vida adulta. Absolutamente nada... Ser adulto é viver sem alma, arrancado do mundo e nostálgico de um passado que nunca foi um paraíso, mas é irracionalmente, lembrado como tal.

ÚLTIMOS DIAS

Tenho a convicção de que meus melhores dias já foram vividos,
que meu eu vencido decai no tempo  desaparecendo do mundo.

Minha existência não deu conta da vida que lhe devorou.
Não sou digno do menino que fui um dia.
Minha vida vai terminar  sem conclusões ou brilho entre o vazio e a agonia.


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

QUARTO DE ESTUDO

Desde adolescente um dos meus maiores sonhos de consumo era ter um conjunto de escrivaninha e estantes de madeira para decorar o meu quarto e acomodar minha biblioteca. Nunca realizei este singelo desejo que, surpreendentemente, permanece atual, nos dias de hoje quanto já passei dos cinquenta anos e sustento meu próprio teto. No fundo, ter saído da casa dos meus pais não me levou a uma bem sucedida emancipação da tutela familiar. Me tornei um adulto pouco funcional e totalmente inadequado a sociedade atual. Eis um fracasso do qual sinceramente me orgulho.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

LEMBRANDO O FUTURO

Eu me lembro da juventude dos meus pais,
do futuro dos meus avós,
do vizinho chamando no portão
e de um mundo que não existe mais.

Eu me lembro dos mortos, dos vivos 
e dos não nascidos,
de muitos futuros perdidos,
da vida que ficou para traz
sem ninguém perceber.

Meu lembrar transcende o tempo,
é visitar um lugar de sonho, afetos, transformações e urgências,
onde desfilam ainda em festa
o futuro de muitos passados urgentes.

Eu me lembro....
 



terça-feira, 14 de janeiro de 2025

CONTRA O PESO DOS ANOS

Contra o peso do anos
insiste o tempo da vida
que sustenta lembranças,
laços e rotinas.

Vida que segue vaidosa
 e feminina,
quase centenária,
contra o tempo que corre.

Vida que persiste,
transcende espectativas,
afirmando o passado 
contra o futuro.

Amanhã será, ainda,
outro dia,
um novo instante de VIDA,
apesar do peso dos anos.




domingo, 12 de janeiro de 2025

SUBJETIVIDADE E MEMÓRIA

Minhas memórias afetivas morrerão comigo. Como meus sonhos elas não fazem parte da realidade, embora configurem minha autoconsciência e percepção de mundo.
Sou em certa medida aquilo de que me lembro com nostalgia. Sou um passado que não para de assombrar o presente, afirmando a transitoriedade de tudo.
Mas tais memórias não criam uma identidade, fundam um sentimento de finitude e incerteza diante de tudo aquilo que é.
O passado já não é parte do mundo tal como aquele menino que fui um dia. Eis a premissa de minhas estratégias de subjetivação.