Sempre acharemos o passado mais atraente do
que o presente, caso tenhamos vivido uma vida pacata e sem acidentes. Sabemos
desde sempre que o olhar retrospectivo preenche os acontecimentos passados com
um brilho que eles nunca tiveram.
Convertidos em memórias eles ganham outras
cores, revelam outras ambientações e recortes. Justamente por que são despidos
de suas urgências e imperfeições. Qualquer boa lembrança tem mais realidade do
que o instante presente, pois goza de uma plenitude de sentido, de uma
significação transparente, que compensa sua falta de realidade que, diga-se de
passagem, é paradoxalmente uma virtude.
Confesso que cultivo muitas boas
lembranças. A grande maioria remonta a infância e aos vigorosos anos da adolescência.
É quando a gente inventa um jeito de saber e sentir o mundo que nos é tão próprio
como uma digital.
As experiências acumuladas nas duas
primeiras décadas de uma vida definem o rosto, o modo como sentimos e apreendemos
as coisas a partir de determinados filtros ou conjunto de verdades/valores. Mas
para mim a adesão a certo modo de ver e pensar o mundo é sempre uma forma de
despersonalização, de adesão a alguma formula impessoal de ser e viver que
introjetamos como um padrão.
Mas algo que precisa ser dito sobre nossas
lembranças ou arquivos subjetivos é que, apesar de sua carga afetiva, elas são
de modo geral banais e personificam um conteúdo genérico.