sexta-feira, 24 de agosto de 2018

INVENTÁRIO EXISTENCIAL

A vida tem sido para mim uma sucessão de improvisos cristalizadas. Os anos passam no acúmulo de inercias e cada vez menos me reconheço em minhas rotinas. Todas elas desde sempre quase definitivamente provisórias....

O passado é para mim um arquivo aberto de coisas que quase foram, de caminhos interrompidos. Talvez eu tenha chegado a idade de inventariar todas as possibilidades perdidas. É crucial para o meu pouco futuro saber quem eu não consegui ser.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O DIA EM QUE FUI EMBORA...


Não guardo lembrança do dia em que deixei a província onde nasci para estudar na capital. Era tudo muito improvável, uma espécie de desvio do que parecia ser a coisa mais natural. Todas as dificuldades estavam postas e eu não tinha absolutamente nada planejado. Simplesmente, de repente peguei um ônibus e estava indo embora sem fazer a mínima ideia daquilo que me esperava. Assistiria a aula magna do inicio do semestre letivo da faculdade e depois  veria onde iria dormir. Este era o meu plano brilhante. Foi assim que botei o pé esquerdo no mundo. Era o ano de 1992. Mesmo sem ter bons motivos eu estava feliz...



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

NOSTALGIA E TEMPO PRESENTE

Atribuo a demasiada importância  que as memórias de infância e de juventude possuem em nosso acervo pessoal de lembranças a um traço de nossa cultura.  Associamos a maturidade e a velhice à um período de desencanto com a vida. É quando somos escravos de obrigações, preocupações e exigências sociais,  que nos roubam a espontaneidade e o prazer de viver.  A infância e a juventude são o contrário disso. 

O passado só nos apresenta como uma espécie de idade do ouro porque o presente é para nós um tempo de carências e urgências infinitas. Já o futuro, quanto mais envelhecemos, se perde em um horizonte de incertezas.

A falta que sinto do pequeno mundo familiar e privado da juventude é para mim, antes de tudo, uma profunda recusa do tempo presente e de  suas mazelas coletivas.

O QUE SOU EU?


As tantas descontinuidades naturalmente estabelecidas ao longo da sucessão de conjunturas biográficas por mim vividas, sugerem uma multiplicidade de personas. Não me sinto único, contido em mim mesmo, através de um ego estruturado e constante, subordinado a uma espécie de desenvolvimento evolutivo. As circunstancias mudam, eu envelheço, em diversas geografias existenciais, estratégias de subjetivação e contextos relacionais.

Tenho realmente dificuldades para me auto definir ao longo do tempo, para me reconhecer em um plano pessoal onde se revelaria de modo inequívoco minha singularidade enquanto pessoa humana.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

INSIGNIFICÂNCIA VITAL

Estou preso a um determinado espaço e a um intervalo incerto de tempo. Vivendo uma época e, consequentemente, suas limitações.

Sei que não posso dar conta de qualquer experiência do mundo, pois ele não se apresenta para mim como uma totalidade.  Tudo em minha  vida é fragmentado e descontínuo no acontecer banal de algumas rotinas. 

Existo desfeito no fluxo de signos e símbolos através de um impreciso território existencial.

Minha presença entre os outros é quase invisível e tudo que tenho a dizer não passa de tagarelice.

BRINQUEDOS E IMAGINAÇÃO



Os pequenos bonecos de borracha de super heróis vendidos pela Guliver nos anos de 1970  não fariam muito sucesso entre as crianças de hoje. Atualmente a fantasia já não se conforma a um território simbólico próprio, distinto da realidade. Pelo contrário, ela se faz mais sedutora quanto mais é capaz de simular o real a ponto de converte-se em seu duplo mais que perfeito.

Os brinquedos antigos, ao contrario, exigiam uma boa carga de imaginação e fantasia. Éramos crianças prodigiosas na arte da invenção e da simulação. Agora a imaginação exige ficções hiper realistas. Nossos velhos e toscos bonecos de borracha foram substituídos por figuras de ação articuladas que, mesmo mantendo ainda algum atrativo, não rivalizam com os vídeo games que, diga-se de passagem, não param de evoluir. Gostaria de ter tido essa opção na minha época. Ser criança nestas primeiras décadas do século XXI é uma experiência realmente mais rica que pões em questão o próprio conceito de infância. Depois da internet  qualquer pirralho de dez anos tem acesso durante um único dia a um volume de informações e dados que eu certamente precisaria na minha juventude de vários anos para acumular as duras penas.

SOBRE A BANALIDADE DE NOSSAS LEMBRANÇAS


Sempre acharemos o passado mais atraente do que o presente, caso tenhamos vivido uma vida pacata e sem acidentes. Sabemos desde sempre que o olhar retrospectivo preenche os acontecimentos passados com um brilho que eles nunca tiveram.

Convertidos em memórias eles ganham outras cores, revelam outras ambientações e recortes. Justamente por que são despidos de suas urgências e imperfeições. Qualquer boa lembrança tem mais realidade do que o instante presente, pois goza de uma plenitude de sentido, de uma significação transparente, que compensa sua falta de realidade que, diga-se de passagem, é paradoxalmente uma virtude.

Confesso que cultivo muitas boas lembranças. A grande maioria remonta a infância e aos vigorosos anos da adolescência. É quando a gente inventa um jeito de saber e sentir o mundo que nos é tão próprio como uma digital.

As experiências acumuladas nas duas primeiras décadas de uma vida definem o rosto, o modo como sentimos e apreendemos as coisas a partir de determinados filtros ou conjunto de verdades/valores. Mas para mim a adesão a certo modo de ver e pensar o mundo é sempre uma forma de despersonalização, de adesão a alguma formula impessoal de ser e viver que introjetamos como um padrão.

Mas algo que precisa ser dito sobre nossas lembranças ou arquivos subjetivos é que, apesar de sua carga afetiva, elas são de modo geral banais e personificam um conteúdo genérico.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

UMA LEMBRANÇA QUALQUER

Recordações perdidas e fragmentos soltos frequentam o quarto quase vazio das memórias antigas. Entre estas lembranças existe uma, especialmente, que se destaca por sua vitalidade. Ela parece, assim, remeter a um acontecimento de ontem, mas o fato que lhe sustenta o rosto já acumula décadas de desaparecimento. Não há como explicar sua intensidade. Trata-se de um simples fragmento descontextualizado, um retalho de tempo, que não preenche dois minutos de um dia. Sua força, definitivamente, não esta na alusão a um fato, mas a uma atmosfera, a uma ambientação, que define o tempo/lugar de uma experiência.

Assim, simplesmente me lembro de estar com meus pais em casa, em qualquer dia de infância, simplesmente brincando, fazendo coisas banais. Não há qualquer significado nesta lembrança, apenas um gosto de ser nas coisas que me comove em mil intensidades de nostalgia.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

SINGULARIDADE , SOLIDÃO E MEMÓRIA

Com o passar dos anos aprendi que minhas memórias e experiências, que o mais essencial da minha existência, não diz respeito a ninguém. Nem mesmo posso comunicar o que o mundo foi e é através dos meus olhos e pensamentos. Este sentimento de singularidade é também um saber de solidão. Mas acho que é isso que torna a vida de todos nós possível. Tudo que somos esta fadado ao desaparecimento. É com ele que lidamos durante a vida inteira.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ONDE EU NASCI



O céu de onde nasci não é como o daqui.
Parece mais vivo e o sol é mais intenso.
O próprio vento parece ter outro gosto,
Lá onde meus olhos aprenderam o mundo.

Onde nasci não é uma cidade,
Não é um país.
É apenas um canto perdido  terra
Que só eu vi .


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

O PASSADO CONTRA O PRESENTE


As simples rotinas de infância e adolescência me deixaram um vazio eterno de experiências. Mas bem sei que são os arranjos da memória, o olhar retrospectivo, que fundamentam esta nostalgia quase excessiva dos meus primeiros anos.

Não cabe falar de uma felicidade perdida ou de uma idade de ouro de minha particular existência. Meu eu mais jovem jamais aprovaria esta leitura póstuma que surpreendentemente o ignora.  Bem sei que naqueles anos de vigor juvenil nada do que hoje me parece importante tinha qualquer relevância.

No fundo a idealização afetiva do passado é uma crítica do momento presente, uma forma de inconformismo existencial.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

LEITURAS DE FORMAÇÃO III

Alguns autores ou pensadores cuja leitura me entusiasmava e inspirava quando adolescente hoje me são totalmente indiferentes.  A quase totalidade deles são marxistas ou vinculados de algum modo a tal tradição.  Hoje posso dizer que quatro autores ainda me inspiraram de modo mais contínuo e pro fundo, constituindo leituras para vida toda: Jung, Foucault, Deleuze  e, obviamente, Nietzsche. Os três primeiros se reúnem em torno deste último. Tal afinidade eletiva traduz buscas e inquietações. Angústias que acho que hão de doer a vida inteira através de minhas reflexões rotas.

PASSADO E FUTURO II

Lembrar o passado sempre me incomoda. Parece que todas as coisas vividas são um sonho sonhado em alguma noite perdida. Parece faltar realidade a tudo aquilo que agora se perpetua como precária lembrança e um dia teve o gosto da concretude da mais imediata das horas.

Tal como o passado é o futuro. Etérea abstração que foge ao tempo das sensações e dos atos. E, entretanto, comovem mais do que a própria vida. É como se faltasse verdade a esta paradoxal experiência que tomamos por realidade.

TEMPO DE AMAR



No inicio dos anos dos 2000 vivi meu único e duradouro caso de amor romântico. Eu ainda era demasiadamente jovem e inexperiente nas coisas do coração e mesmo tendo passado dos trinta anos mantinha certa ingenuidade adolescente sobre o comercio afetivo do eu e do outro.

Por um pouco mais de cinco anos me conformei a rotina de um enamorado. Depois disso, sem qualquer motivo, o encanto se quebrou. Ela era mais velha e, ao contrario de mim, tinha sua vida estruturada em laços de família. Eu ao contrário seguia errante sem saber o que esperar do futuro.

Foram anos de encantamento. Mas não duraram para sempre.


MORADA EXISTENCIAL

Morar em uma cidade diferente daquela na qual cresci foi para mim uma experiência ruim. É como exilar-se do passado, perder uma parte do mais profundo referencial de si mesmo. 

Não importa o quanto plantamos memórias onde vivemos, o lugar onde experimentamos a infância, é sempre onde nos sentimos em casa.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

HISTÓRIAS DE FADA





Lembro-me dos livros de histórias infantis dos primeiros anos de escola fundamental. Eram coloridos e preenchidos por narrativas breves e compreensíveis para quem ainda aprende a ler e apresenta um padrão cognitivo mais imagético do que verbal.

Ainda guardo profundo carinho por livros infantis. Não são apenas outro tipo de leitura onde a imaginação predomina sobre os conceitos e enunciados, são também uma modo de construção da experiência através de narrativas que inspiram afetos, sensibilidades.

Creio que os “livros de historinhas de fadas” era a única parte da primeira escola que realmente significava alguma coisa para mim em termos de aprendizado e crescimento pessoal.

Narrativas como Cachinhos Dourados e a Família Urso ou o Patinho Feio frequentaram minha imaginação de modo realmente muito criativo.