segunda-feira, 20 de agosto de 2018

SOBRE A BANALIDADE DE NOSSAS LEMBRANÇAS


Sempre acharemos o passado mais atraente do que o presente, caso tenhamos vivido uma vida pacata e sem acidentes. Sabemos desde sempre que o olhar retrospectivo preenche os acontecimentos passados com um brilho que eles nunca tiveram.

Convertidos em memórias eles ganham outras cores, revelam outras ambientações e recortes. Justamente por que são despidos de suas urgências e imperfeições. Qualquer boa lembrança tem mais realidade do que o instante presente, pois goza de uma plenitude de sentido, de uma significação transparente, que compensa sua falta de realidade que, diga-se de passagem, é paradoxalmente uma virtude.

Confesso que cultivo muitas boas lembranças. A grande maioria remonta a infância e aos vigorosos anos da adolescência. É quando a gente inventa um jeito de saber e sentir o mundo que nos é tão próprio como uma digital.

As experiências acumuladas nas duas primeiras décadas de uma vida definem o rosto, o modo como sentimos e apreendemos as coisas a partir de determinados filtros ou conjunto de verdades/valores. Mas para mim a adesão a certo modo de ver e pensar o mundo é sempre uma forma de despersonalização, de adesão a alguma formula impessoal de ser e viver que introjetamos como um padrão.

Mas algo que precisa ser dito sobre nossas lembranças ou arquivos subjetivos é que, apesar de sua carga afetiva, elas são de modo geral banais e personificam um conteúdo genérico.

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