quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Primeira comunhão

"A única igreja que ilumina é a que queima."
P. Kropotkin

Registro do abominável dia da minha " primeira comunhão" ao lado do meu avô e irmã.
 Quando criança  fui submetido a forçada vassalagem  a um imaginário soberano. Fui submetido ao assujeitamento da inocência,  ao silênciamento dos corpos e das imaginações, na corte celeste de um metafísico despota universal... justo eu que mesmo na idade da inocência já era avesso a miséria da fé.

domingo, 5 de dezembro de 2021

MÚSICA E SEC. XX

Apesar dos horrores de suas guerras, o século XX foi um século profundamente musical. Quem nasceu nos novecentos é naturalmente sensível a melancolia de qualquer canção antiga que lhe serviu de pano de fundo em algum momento. A música a mais intensa expressão da memória. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

INTROSPECÇÃO

Já faz anos que não  faço novas amizades e apenas conheço pessoas novas. Tenho me desinteressado pelos outros, me fechado em meus passados, buscando fugir para o interior dos meus mundos mais profundos. Talvez esta seja uma tendência na vida de quem envelhece e acumula entes queridos no cemitério. 

MINHA CIDADE

Não  tenho orgulho da cidade onde nasci. Ela não  passa de um canto perdido de mundo moldado pelo massacre de indios e pela escravidão  dos negros. É um lugar de exploração e probreza, onde uma pequena elite transforma perpetuamente o futuro em ruinas. 

sábado, 27 de novembro de 2021

SONHOS 80

Recorrentemente sonho com minha vida nos anos 80 com meus pais. tempo da minha adolescência e do apogeu da vida adulta deles. Ninguém  era feliz, mas todos estavam bem.

UM ESTUDANTE CONTRA AS PROVAS

Nos meus tempos de estudante achava que as provas e testes escolares eram uma forma de matar qualquer experiência interessante das aulas. Através  destes artifícios não se media conhecimento, mas a obediência e a capacidade mimetica quando o que importa é a capacidade de inventar, fabular. Toda educação para mim sempre foi um aprendizado da imaginação. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

MEU FUTURO É O PASSADO

O passado, esta opaca sombra que sobrevive a si mesma como memória, tem para mim mais realidade do que o pesente e a concretude do agora. Pois, para mim, tudo que importa já aconteceu. O futuro é para os outros. Nasci, afinal, no século passado. O passado é minha casa e meu futuro.

NASCIMENTO

Sinto falta dos meus pais, do mundo que eles significavam para mim. Um mundo de afeto e acolhimento, que já não existe mais, e que com seu desaparecimento, concluiu meu nascimento. Nascer é morrer por dentro, é perceber a existência como abismo, a realidade como  um ambiente hostil.

domingo, 7 de novembro de 2021

O ESTUDANTE CONTRA A ESCOLA

Nos meus anos de estudante, nunca achei que como "aluno" eu era parte da escola, ao contrário dos professores e funcionários.  via-me, como os meus pares, como objeto da escola, sua "vitimas", ou, como preferem dizer, um aluno.
Mas o lado positivo da escola estava para mim fora da sala de aula. Eram os laços sociais cultivados durante o recreio ou depois da hora da saida. Os conformismos e saberes impostos pelas disciplinas, eram coisas fora da vida, da realidade. Nunca tive como ideal ser um bom aluno.

sábado, 6 de novembro de 2021

DESENHOS

Passei minha infância e adolescência desenhando inspirado por hqs. Criei para mim um meta universo de seres e lugares imaginários onde  existia livre do meu próprio eu. Meus desenhos não tinham autoria, diziam uma recusa do mundo, da vida, como me era ensinada.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

PRIMEIROS DESENHOS

Eu tinha menos de cinco anos quando, embriagado de imaginação,  desenhava no chão, na terra do quintal de casa dos avós.
Criava um quadro de ação, 
apagava,
e o desdobrava em outro,
externando uma história, 
que dentro de mim corria nas mãos.


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

INFÂNCIA E META REALIDADE

 

Na minha sensibilidade e imaginação infantil o universo das HQs e dos brinquedos estavam entrelaçadas na invenção de um mundo paralelo onde a vida era mais real do que a realidade.

Eu não associava as aventuras dos meus heróis a qualquer forma de fuga da realidade. Pelo contrário, tratava-se de uma realidade mais viva, mesmo que artificial e imaterial. 

Para uma criança a realidade é um dado incerto...


 


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

ANCESTRALIDADE

Ancestralidade não é um conceito metafísico. Não remete ao simulacro de qualquer noção ingênua de espiritualidade.
Ancestralidade é herança genética, composição dos corpos de gerações que compartilham um patrimônio molecular, uma gama de possibilidades ou combinações, um padrão bio psiquico bastante concreto que se renova em cada novo indivíduo. A ancestralidade é bio-histórica. Pertencer a uma familia é participar de uma história viva da qual apenas parcialmente estamos ciêntes no corpo e na consciência.  Minha biografia é um pequeno capítulo de uma longa existência coletiva.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

ANOS 70

Era 1971.
Não existia internet.
Todos escutavam rádio
ou viam televisão;
Recebiam cartas
e escreviam diários
depois da leitura dos jornais.

A realidade era tão certa
quanto o almoço de domingo.
Ninguém duvidava das grandes certezas universais.
Mas a vida, entretanto, já era uma grande porcaria
nos retrocessos do progresso
pós industrial.
A morte estava sempre
na ordem do dia
nos tempos da guerra fria
e todos sabiam de economia.

sábado, 30 de outubro de 2021

FIM DO TEMPO

A cidade onde nasci
habita dentro de mim,
mas é outra no mapa,
contra toda a minha memória. 
Ninguém sabe sobre a casa
onde cresci,
sobre as pessoas que conheci.
Ninguém mais lembra da minha história. 
Meu tempo partiu com a aurora,
rumo ao abismo do esquecimento.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

MEMÓRIA E IMPESSOALIDADE

A mídia televisiva e impressa  faz parte da minha memória pessoal, do meu modo de lembrar as décadas e experiências passadas. De fato, boa parte de nossa identidade é impessoal, massificada, por mais íntima e singularizante que podemos considerá-la.
 Somos produtos de uma época, moldados por hábitos e comportamentos coletivos. Não somos senhores de nossa própria identidade e de nossa memória. Por isso não deixamos vestigios.
Se há um modo de subjetivar e singularizar memorias, não  há como compartilhar o mais intimo de tal experiência que, fatalmente. há de morrer conosco.

domingo, 24 de outubro de 2021

FICÇÕES E MEMÓRIA

Tenho saudades de dias perfeitos.
Mas nunca vivi dias perfeitos.

O fato é que o passado se torna melhor 
com o acumular dos anos.

sábado, 23 de outubro de 2021

CONSCIÊNCIA NÔMADE

Meu passado é minha pátria.
Minha vida é minha cidadania.
Habito uma biografia
e não pertenço a nenhum Estado.
Sou minha história de vida,
e, mesmo nela,
não encontro qualquer identidade.

sábado, 16 de outubro de 2021

LEMBRANÇAS

Cultivo lembranças . Mas sei que elas não são o passado, mas qualquer modo de me saber no tempo dos outros e do mundo. Lembrar é inventar-se, acrescentar algo a realidade de nossos dias. Um algo que lhes escapa, sob o desfarce de nostalgia.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

BIOGRAFIA

Uma biografia não  cabe em palavras,
cria o infinito do seu tempo menor
na exploração do silêncio
de um viver maior. 

Biografia é um verbo de carne,
imaginação de mundo,
que não se reduz
a mentira de um eu
e as convenções de uma época.

Ela é a experiência de um devir biológico 
destituido do universal.

Toda biografia é esquecimento.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

DOIS TEMPOS

Divido minha vida em dois momentos: os tempos em que tinha mãe e o tempo em que sobrevivi orfão. Plural e singular, estes dois tempos definem dois sentimentos de mundo. Um vinculado a matriz biológica da minha vida e outro perdido dela, como se reinventado o momento do parto como um ser lançado ao caos do mundo.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

INFÂNCIAS E ABERRÂNCIAS

Quantas infâncias aconteceram em mim
e ainda correm pelos jardins do sem tempo até a toca do coelho branco?

O mundo ainda é uma brincadeira
na potência  da imaginação criadora,
mesmo que eu tenha adultado,
me tornando racional e amargo.

As crianças que fui um dia
ainda sonham e brincam
em qualquer parte de mim
anunciando delírios e paradóxos
contra os hortodoximos das ordens dos eus.

Elas sabem os incorporais,
encontros e acontecimentos,
seguindo junto com Alice através do espelho.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

MORTE E MEMÓRIA

O tempo ensina a saudade como matéria viva da realidade em voráz movimento sem sentido. 
Construimos nosso futuro mirando nosso ilusório passado biográfico. 
De onde supostsmente viemos importa mais do que para onde vamos. A vida nos ensina a morrer através da memória na medida em que nosso mundo pessoal encolhe e se desmancha no ar. Mas a existência não é linear, não sabe a distância entre dois pontos perdidos no infinito.

domingo, 10 de outubro de 2021

ÓCIO E HIGIENE DOMÉSTICA

Minha mãe tinha mania de limpeza. A maior parte do tempo estava a limpar ou arrumar a casa em tarefas sucessivas e intermináveis de de ordem doméstica. Quando adolescente, lavar diariamente o banheiro e alguns comodos de piso frio, além de molhar as plantas, eram afazeres que faziam parte da minha rotina. Mas como todo jovem, meu objetivo era não  fazer nada a maior parte do tempo. Lêr, assistir TV, e escutar música, era o que realmente me ocupava.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

SOBRE A FRAGILIDADE DE NOSSAS LEMBRANÇAS

As lembranças  que me pesam na memória  não dão conta do passado, oferecem uma pálida imagem do que foi vivido. Mas como poderia ser diferente? O passado esgota-se em si mesmo como esquecimento. Pois o eu é uma experiência  descontinua condicionada ao presente. Um presente que nunca é o mesmo como o próprio  eu. O passado é o oposto da ação. E a vida é ação, superação,  que ignora seus próprios  vestigios.
 A memória que importa é aquela lembrança involuntária marcada no corpo: saber comer, falar, respirar, ou, simplesmente, reconhecer. Não a memória  afetiva da identidade, dos momentos. Por isso as lembranças são tão frageis.

domingo, 3 de outubro de 2021

MEUS MUNDOS

O mundo é feito das experiências e imagens que acumulamos dentro de nós. Pode-se dizer que em cada época da vida vivemos em um mundo diferente e único. Partindo do mundo de intensidades e imaginações da infância, cheguei ao mundo quase deserto dos meus pós cinquenta anos. Foi uma viagem triste e tediosa. Mas cheguei aquele mundo onde vida e morte se nivelam em uma nadificação radical da existência. 
Todos os meus mundos de antes não cabem no mundo de hoje, que faz de horizonte, a vertigem do abismo e do sonho.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

COMUNHÃO

Quando minha existência  estava contida no viver dos meus pais, eu me sentia dentro do mundo.Existia desfeito entre as coisas compostas pela imaginação.O tempo me abrigava. E a infância era maior do que ser criança, porque eu me sabia através  dos outros.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

FALSA NOSTALGIA

Todos os meus adultos
estão mortos.
Mas de tão velho
tenho me surpreendido
criança
entre passados 
e futuros imaginados.

domingo, 5 de setembro de 2021

PASSADO PRESENTE

Contemplar o passado não é uma modalidade de evasão, é uma estratégia para reinventar o presente de forma mais consciênte e, portanto, de modo mais independente do pragmatismo e pressões do dia a dia. 
Sempre acessamos e experimentamos o passado a partir dos desafios do momento de agora, das expectativas que temos em relação ao futuro ou a falta dele.
Memória é consciência e, como tal, pressupõe ação, movimento. O passado não é uma coleção de registros de nossa experiência biográfica, mas expressão de nossos valores e sentimento de mundo sempre em mutação. Aquilo de que me lembro e o modo como lembro define minha subjetividade, diz o mundo que particularmente habito, meu espaço vital e seus tempos íntimos em constante movimento e transformação.  O passado não é conservador.


O SUPERMEN DE JOHN BYRNE II

o Superman de John Byrne, propunha uma reinvenção da personagem após a Crise nas Infinitas Terras e a reorganização do universo DC dela decorrente. Foi, definitivamente, uma das melhores fases do superman nos quadrinhos. Através dela, ele definitivamente afirmou-se de vez como imagem por excelência do arquetipico do herói solar semi divino. Mas é justamente sua humanidade, seu ideal  ético que o torna singular no traço marcante de Byrne. Os anos 80 não teriam sido os mesmos para mim e muitos outros adolescentes da época sem essa redescoberta do herói. Ele representava, antes de tudo, uma esperança no mundo, uma generosidade, que aqueles anos, marcados pelo fim da guerra fria e do fantasma de uma terceira guerra mundial, encarnavam de um modo  ingenuamente otimista. Byrne soube modernizar o último filho de Krypton, torna-lo contemporâneo, mantendo a aura mágica da era dourada dos quadrinhos que o engrandecia como ideal moral.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

NÃO IDENTIDADE

Ao longo dos anos e das épocas da vida fui tantas versões diferentes de mim mesmo, que não sei mais quem sou. Mas isso não importa, visto que não serei lembrado.

O SUPERMEN DE JOHN BYRNE

A vida humana, projetada no fim de Krypton pelo mestre John Byrne no final dos anos 1980, hoje faz mais sentido do que nunca em tempos de emergência global. Em sua versão, o fim de Krypton, começa com uma pandemia: a "morte verde" , causada por radiação. É assombroso em uma releitura ver isso ecuar no futuro  presente de 2021.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A CASA ANTIGA

A casa é de todos.
Dos vivos, dos mortos,
e dos bichos.

Mesmo vazia,
ela ainda é de todos,
e guarda nas paredes
o cheiro de nossas vidas,
os ecos de nossas histórias.
Todos os nossos vestigios.

A casa é tudo que resta...
é ela quem de nós recorda
em segredo,
como um túmulo coletivo
ou um monumento a saudade.







domingo, 29 de agosto de 2021

MÚSICA E ILUSÃO

Desde muito cedo ouvir música foi para mim ser afetado por uma intensidade da realidade, por uma nostalgia de coisas não vividas, de uma potência da existência que, paradoxalmente, de tão prazerosa me conduzia a melancolia por personificar um encanto vital que escapava ao cotidiano.

SOBRE A MAGIA MIDIÁTICA DOS NOVECENTOS

Sou de uma geração analógica. Cresci sem internet. Tal afirmação me parece ridícula. Mesmo reconhecendo o quanto a nossa subjetividade tornou-se dependente das tecnologias digitais. Mas tal dependência é sempre relativizada por um filho do século XX. Foi ele que inventou as mídias e definiu sua época de ouro através do radio , do cinema , da fotografia e da televisão. Foi o século XX quem reinventou a imagem e sua sedução.  As telas dos computadores e celurares do século XX, com toda sua autodefinição, são incapazes dedespertar nos olhos a  magia de outrora.

CONFLITO DE GERAÇÕES

Medir a vida em anos, me definir por uma idade, sempre me pareceu uma convenção ridícula. Talvez, por isso, nunca gostei de comemorar aniversários.
 Desde pequeno tenho a fantasia de que sou mais velho do que sou. Sempre me identifiquei com a imagem do velho sàbio, portador de um cajado e de uma longa barba branca,  arquejado pelo peso do tempo.
Hoje, ao alcançar meio século de existência, sinto-me centenário diante dos jovens de hoje. Paradoxalmente, considero o velho saltibanco que há em mim mais jovem do que eles, com seus egos inflados, excesso de informação e overdose tecnológica. Os jovens de hoje são quase adultos zumbis idiotizados e adaptados ao distema.
Sou feliz por não ter tido filhos e contribuido , assim, para fazer do mundo um lugar pior.


MITOLOGIA DA MEMÓRIA

Sempre tive uma péssima memória, seja de longo ou de curto prazo. Mas isso nunca me impediu de cultivar o passado, de rememorar as épocas da minha vida. 
A memória afetiva é feita de uma coletânea de imagens/momentos deslocadas de seu contexto e de colorido onírico. Lembrar é, para mim, antes de tudo, sonhar. O passado é o dominio do atemporal, do mítico, que extrapola o vivido. Sei que nada é realmente como me lembro. Mas meu modo de lembrar, me diz quem me tornei.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

TRISTEZA

Existir sempre me foi solitário.
Sempre duvidei da realidade,
das identidades,
e de todos os destinos do mundo.

No fundo, sempre soube,
que a vida é sonho,
perda, ilusão 
e saudade.

Meus melhores dias nunca aconteceram,
enquanto passava os anos
esmagado pela multidão.


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

DO LUTO A SAUDADE

Ninguém existe inteiramente em seu próprio corpo. Por isso, a morte dos outros é uma perda de si mesmo, a interdição de um mundo comum e cotidiano, que nos faz questionar nossa própria sobrevivência ao outro, quando sua ausência inaugura desertos.
No fundo, nosso tempo é o tempo dos outros, coabitamos a vida dividindo o mesmo hoxigênio em nossos caminhos cruzados.
Viver é, portanto, uma ação compartilhada, uma composição de corpos e afetos, que nivela a vida e a morte na intensidade e intimidade de  laços que nos atravessam.Por isso, a morte do outro carrega um pouco de nossa própria morte, e a justifica.



quarta-feira, 4 de agosto de 2021

SAUDADE

 

A morte redesenha o passado,

sepulta o futuro,

e reduz o nada da eternidade

ao instante de um susto.



No adeus cravado na memória,

A vida me apequena no assombro cavado

pelo teu silêncio,

Enquanto me fere e conforma um adeus

que não cala a saudade,

que não da conta da vontade de te ver de novo,

enquanto a vida grita:

nunca mais.















sexta-feira, 30 de julho de 2021

LIVROS

Os livros sempre foram para mim uma experiência de sensações,  mais do que de conhecimento ou saber. Cada livro que me penetrou o corpo na aventura de uma boa leitura, me comunicou sensibilidades e modos de existência,  contra todo logocentrismo e elitismo das letras públicas e institucionalizadas em orientações normativas do dizer e do pensar. Livros para mim são ferramentas de transgressão,  de questionamento do normal e do cotidiano. Todo livro que me tocou , seja de filosofia ou literatura, foi antes de tudo um acontecimento poético e estética  do espanto de qualquer forma de sublime.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

INFÂNCIA E MITOLOGIA

Sou habitado pelo sem tempo de infâncias .
Infâncias vividas e sonhadas
em um devir criança
que fazem de mim um velho alado voando o chão. 

Sou o impessoal da natureza selvagem,
mais animal do que gente,
na intensidade do meu passado
através do vivido da imaginação presente.

Sou mar, céu e vento
na apoteose do anormal e do singular.

Sou o intempestivo de toda indeterminação
no delírio de uma biografia.



terça-feira, 27 de julho de 2021

MEDO DE ESCURO

Quando pequeno eu tinha medo do escuro e da noite. Mas não  creio que seria adequado, no meu caso, qualificar tal medo como transtorno ou fobia.  Era pura e simplesmente uma insegurança de criança  que quase se confundia com o medo da solidão.  
De qualquer forma, eu só dormia com a luz acesa, mas tinha o medo abrandado pela companhia dos meus pais. O maior de todos os medos era o pesadelo de ser abandonado. Contra todos os outros,  bastava eu estar com meus pais.
Acho natural que toda criança tenha medo de escuro dada sua total dependêndencia dos adultos para garantir sua própria sobrevivência.  
Mas o meu medo era alimentado por fantasias irracionais de conteúdo impessoal.  Imaginava fantasmas e criaturas sobrenaturais espreitando no escuro. Óbviamente, nunca me deparei com nenhuma entidade metafísica.  Mas o medo não se alimenta de provas empíricas e nem se ilude com ponderações racionais. Eu tinha medo, e pronto.
Não  sei dizer com que idade o medo se dissipou. Talvez por volta dos meus quinze anos. É  impossível  precisar. 
Para a criança que fui, o mundo era uma coisa enorme e desconhecida. Apenas em casa eu me sentia realmente seguro  sob todos os cuidados das figuras parentais. A vida se resumia em estar em casa. O lado de fora era a televisão , através da qual, o mundo apresebtava-se domado.


A VIDA CONSUMADA ANTES DO FIM

 

Causa um profundo espanto que tudo aquilo que me definiu o cotidiano e a existência durante tantos anos, seja sob a forma de pessoas e lugares, tenha desaparecido repentinamente nas brumas do esquecimento e da ausência de uma hora pra outra.

Definitivamente, nada agora é realmente importante e sobrevivo ao meu passado como uma sucata inútil esperando encontrar minha própria ausência como colapso físico e orgânico da minha nula existência.

Meu tempo presente é sobreviver a quem fui entre os outros sem qualquer expectativa de por vir.

sábado, 24 de julho de 2021

VIDA E MORTE

Meu mundo se tornou menor com a morte dos meus pais e de outras pessoas próximas. Tal subtração ontológica   me impôs uma certa indiferença em relação  a vida e ao mundo. Tudo me parece  tão efêmero e transitório que quase não merece cuidado, que não  cria significado. A morte nos lembra o quanto não pertencemos a vida.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

A CASA ANTIGA

A casa antiga é  agora uma distância no mapa da minha vida. Um ponto perdido de passado, lugar de memória  no território do impossível. Já não  tem realidade  na matéria do inatingivel.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

ENVELHECIMENTO E PRECARIEDADE

Envelhecer nos leva a confrontar nossa finitude em seu sentido mais radical . A morte dos pais e de outros entes queridos, experiência comum  na segunda metade da vida, não raramebte, ingendra em nós novas sensibilidades e questões,  deslocando o ego do centro da consciência.  Embora não  seja uma regra, tendemos a encarar a vida de modo menos pessoal. Percebemos que uma parcela consideravel de nossa experimentação da vida, escapa ao nosso controle e que somos mais precários em nossas  modos de viver do que gostariamos de admitir. 
Cheguei ao cinquenta anos assombrado com a solidão que define  minha presença no mundo, ameaçado por todas as possibilidades de desdobramento da minha biografia.

LEMBRANÇA E VIDA

 

No álbum de fotografias

dos anos dourados da família,

a vida figura plena,

intensa e infinita.

Hoje, entretanto, quase todos estão mortos.

Sou eu um dos poucos sobreviventes

de um passado comum perdido

que ainda hoje nos define o possível da vida.

 

No triste silêncio do álbum de fotografias

Dói a vazia memória de dias seguintes

que foram arrancados do nosso futuro

que jamais se fez presente.


quinta-feira, 1 de julho de 2021

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

Não  há  consciência  sem esquecimento e lembrar é,  paradoxalmente, a forma mais corriqueira de esquecer. Afinal,  o que é o passado além do pertubador silêncio de um túmulo?

quarta-feira, 30 de junho de 2021

SOB A GUARDA DOS PAIS

 

Infelizmente, só sabemos da preciosidade que é a tutela dos pais durante nossa minoridade quando é tarde demais. Livres das obrigações da persona adulta, não perdemos a maior parte do dia vivendo inutilmente para sociedade em troca de dinheiro. Usamos nosso tempo livre para o exercício da imaginação e de invenção do mundo na duração das coisas no tempo. Hoje, a lembrança desta cândida realidade que parecia cotidianamente tão banal, aperta o peito de saudade….

segunda-feira, 7 de junho de 2021

GENEALOGIA

O peso das mortes e ancestralidades que me carregam no vento através  do tempo, desnudam a atualidade dos meus 15 anos de idade, o sem rosto de uma época onde eu era feliz entre os outros que carrego comigo no atemporal da vida e da morte.....
Sou hoje aquele menino que nunca mais serei.
Sinto saudades até mesmo
de tempos que não vivi.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

INFÂNCIA

Lembro da minha infância  como uma espécie  de estado de pensamento onde o corpo sabia do mundo do ponto de vista das coisas. Tudo era intenso...

quinta-feira, 20 de maio de 2021

LEMBRANÇA E MEMÓRIA

Lembrar de mim
é recordar pessoas, 
lugares & coisas
que me sustentam o rosto.
Sou do lado de fora
de mim mesmo
um lutar inútil contra o tempo,
um resistir a queda livre
de existir em vertigem
no abismo sem fundo
do esquecimento absoluto.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

VIVER É UM MODO DE DESAPARECIMENTO

Tudo que vivi em meio século  de existencia não  cabe no tempo,
é  esquecimento que não  para de acontecer em segredo,
em algum delirio e movimento
da inconsciência das pedras
que me decoram um céu entreaberto na lembrança dos meus mortos.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

TEMPOS SOMBRIOS

Quando eu era jovem, nas últimas décadas do século XX, a tecnologia alimentava fantasias de um mundo futurista de avanços ilimitados da humanidade e da civilização. Mesmo que o fantasma insano de um apocalípce nuclear fosse sua contrapartida. 
Hoje, a tecnologia, tornou-se um dispositivo que define o tempo presente e a incerteza de nossa condição humana. O futuro, por outro lado, é  assombrado por pesadelos destópicos e a civilização e o progresso revelam-se um desastre ambiental que ameaça todo o eco sistema, a natureza da qual somos parte.
Envelheço em tempos propícios ao ceticismo, a uma profunda má vontade com a vida, com toda fé ou razão possível que ouse atribuir virtudes a miséria de nossa condição humana.

terça-feira, 11 de maio de 2021

A CASA

A casa se resume ao sofar da sala
e as imagens na televisão.

A casa onde o tempo não passa.
Onde nada acontece
e as coisas se estragam.

A casa prisão 
onde me escondo do mundo.
Onde tudo é  tarde
e a vida não tem solução. 


segunda-feira, 10 de maio de 2021

SOBRE TORNAR-SE UM ORFÃO

Vivi uma adolecência banal,  conformado aos lugares comuns da juventude da minha época. Meus pais pareciam eternos,  a maior certeza do mundo era sabe-los em minha vida.
 Por mais distante que me sentisse deles, reconhecia o vínculo que nos fazia parte de uma mesma experiência de mundo e tempo.
A presença deles definia minha juventude, minha condição social de filho.
Apesar de ter quase meio século de vida, foi somente quando me tornri orfão que comecei de fato a envelhecer,  a experimentar qualquer declínio de ser.


domingo, 25 de abril de 2021

VIDA PEQUENA

Nasci em cidade do interior,
entre o tédio e o provincianismo,
vocacionado a um futuro duvidoso,
as margens  das incertezas do mundo.
Não  preciso lêr as estrelas 
para saber os silêncios da vida
e a imensidão dos desertos do meu coração.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

ANOS 70

Minha vida foi plena
apenas nos anos 70.
Naquela época 
todos da minha familia
estavam vivos
e tinham a idade certa. 
Eu era apenas uma criança
e sabia todo encanto
de um mundo que não existia
mas dentro de mim
era intenso.
Entretanto,
é  preciso dizer:
a vida nunca foi boa.
Ninguém nunca foi realmente feliz.

O PÓS VIDA DA MINHA EXISTÊNCIA TRISTE

É no passado onde estou vivo.
Hoje apenas persisto,
como um eco de quem fui
ou do ontem que ainda acontece
em qualquer parte de mim
onde me acordam os mortos.

terça-feira, 13 de abril de 2021

ANIVERSÁRIOS

Não  tenho qualquer memórias de festas de aniversarios. Elas nunca foram importantes. Creio mesmo que nunca tive festas como Marco de tal ocasião.  Quando criança, tudo que me ibteressava na data dos meus anos era o encanto de algum brinquedo novo. Dada a proximidade do meu aniversario da crlebração do dia das crianças, sempre exigia dois. Normalmente era atendido pelos meus pais.
Como fui criado sem brincar na rua, não tinha sequer amigos para convidar para qualquer festa.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

ENVELHECER E MORRER

Envelhecer é  viver o suficiente para ver a existência  se tornar um exercício  de memória, um habitar o passado contra o presente, quando a morte se torna  o único horizonte possível. 
Desaparecer do mundo , perder-se de si mesmo, ser esquecido, apagado do cotidiano. Eis o que define a morte como fato social ao qual estamos todos condenados.

terça-feira, 23 de março de 2021

CONTRA O CONCEITO DE ANCESTRALIDADE

ancestralidade não  é  um vonceito que da conta da falta que dinto dos meus pais e dos meus avós. É  uma ideia que não  explica o quanto a vida dekes esta contida na minha, mais do que minha propria vida na ausência  deles.
Eles não  se tornaram ancestrais quando morreram e vão além  da memória  dentro de mim.

segunda-feira, 22 de março de 2021

O QUINTAL

 

As mangueiras não existem mais no fundo do quintal.

Nem bananeiras, bambus, cana ,

cigarras, marimbondos e mariposas

decoram hoje a paisagem

que tanto nos comunicava

um tempo ancestral

onde a natureza

ainda corria nas veias.

Hoje o quintal é quase um deserto

dentro do que restou de nós.


sexta-feira, 19 de março de 2021

TEMPO E ALTERIDADE

Olho os futuros do mundo
com os cansados olhos
dos meus passados.

O amanhã não  me importa.
O tempo não é  tudo,
e a vida transforma
o sentir e o saber
do meu corpo imerso
no inacabamento do instante.

O amanhã  não  é  nada
diante do abismo do agora.
Todos os dias tenho nascido de novo
e me surpreendido o fantasma de um  outro
que escapa do espelho.


terça-feira, 9 de março de 2021

A SOLIDÃO COMO MODO DE VIDA

fui uma criança solitária no ceio familiar. Apesar de toda atenção dos meus pais, de ter uma irmã, sempre me sinti prisioneiro do meu mundo interior e das minhas fantasias.
 Só tive convívio social através da escola. Mas nunca fui capaz de construir grandes amizades, mesmo sendo sociável. Vivia pulando de uma paixão platônica a outra. Além disso. minha mãe não me deixava brincar na rua com outras crianças, o que me fez tomar a solidão como um modo de ser.
Acabei me tornando um adolescente ainda mais solitário e romântico pouco adaptado a realidade. Por fim,  me tornei um adulto de vidarelativamente  isolada e perdido no mundo. Alguém incapaz de adaptar-se ao teatro da existência comum e suas tantas contradições.
Chego aos cinquenta anos reconhecendo na solidão um modo de ser. Não mais como um fardo, mas como uma necessidade.

quarta-feira, 3 de março de 2021

A MISÉRIA DA VIDA ADULTA

tornar-se adulto é se transformar em um escravo de qualquer  trabalho que nos condena a não viver para sobreviver.
Existimos para o vazio do consumo e para ditadura dos boletos. Não existem biografias. Fomos reduzidos ao quantitativo de números.

ANCESTRALIDADE

Depois que nossos familiares morrem eles se tornam ancestrais. Ganham uma outra vida na intensidade da memória. Se tornam um campo afetivo, uma presença abstrata, que não cabe na experiência da ausência. trata-se, antes de tudo, de uma falta que nos preenche tornando o passado uma palavra obsoleta.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

LUGAR DE VIDA

Meu lugar de vida
Sempre foi a aconchegante casa antiga,
De muro baixo e varanda,
Quintal, jardim e esperança.

Meu lugar de vida
Agora mora na memória
E eu vivo perdido,
Como uma criança semi morta,
Num desabrigo de ermo e mundo.

domingo, 31 de janeiro de 2021

FOGUEIRAS

Quando pequeno, lembro dos meus pais queimando lixo no quintal. 
O fogo me fascinava.Era divertido alimentar a fogueira...
De todas as coisas da natureza o fogo é uma das mais encantadas. Toda crianca sabe disso.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

A ERA DE PRATA DOS QUADRINHOS

 




Nascido em 1971, minha relação com o imaginário das HQs foi profundamente impactada pela evolução da chamada "Era de Bronze" dos quadrinhos americanos (1970-1986) e pelo revisionismo "pós-Crise das Infinitas Terras" (depois de 1986). Foi neste intervalo cronológico que colecionei sistematicamente quadrinhos. Principalmente aqueles ligados aos universos DC e Marvel.

Seguindo a conturbada conjuntura social e política norte americana de fins dos anos 60 e inicio dos anos 70, a era de bronze caracterizou-se por histórias menos maniqueistas e uma construção mais realistas das personalidades e dilemas dos chamados super-heróis. Além disso, muitas histórias passaram a refletir os conflitos políticos e questionamentos filosóficos e morais do período. É nessa época que, embora criado nos anos 60, o Pantera Negra adquiri mais visibilidade, assim como ganham protagonismos heróis negros como o Falcão, enquanto parceiro do Capitão América, e Luck Cage, para citar o reflexo dos confritos raciais nos Estados Unidos. Do ponto de vista do realismo impossivel não lembrar da morte da namorada do Homem Aranha, em 1973, durante uma batalha com o Duente Verde. Posteriormente seu pai, chefe de polícia, acaba também falecendo, desta vez em um confronto entre o herói e o doutor Octopus.

No universo DC, merece especial destaque nesse mesmo período a série do roteirista Dennis O Neil, associado ao desenhista Neal Adams, envolvendo a parceria entre o Arqueiro verde e o lanterna verde e, posteriormente a Canário Negro, que embarcam juntos em uma road-comic pelas estradas americanas, enfrentando questões como drogas e racismo. A primeira série do Monstro do Pântano é originalmente de 1972 e 1976.

O fato é que foi nesse período que o imaginário dos quadrinhos começou a “crescer” ou “amadurecer”, abandonando temáticas simplórias formatadas pelo moralismo da eterna luta do bem contra o mal, dedicado ao entretenimento inocente de um público infanto-juvenil. Minha geração cresceu neste momento de “amadurecimento” dos quadrinhos e isso fez muita diferença para mim em termos de construção de uma referência ética em minha pratica de vida.


sábado, 23 de janeiro de 2021

NOSTALGIA

Hoje o passado é tudo que tenho contra o futuro.
Há mais  vida na minha memória do que na minha vivência do instante de agora.
Sou basicamente um cadáver que respira saudades.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

ORIGEM

 

Um dia uma criança foi no meu lugar outra versão deste corpo.

Era outro tempo e minha vida acontecia dentro de outras pessoas.

Através do meu eu criança o desejo encantava toda a realidade.

A imaginação era maior do que o pensamento e o tempo.

Tudo parecia para sempre...

Meu corpo era a medida de todas as coisas do mundo.


domingo, 10 de janeiro de 2021

O DESVALOR DA VIDA

O único objetivo que me parece digno na vida seria voltar a ser criança. Como isso é impossível, não tenho qualquer meta ou objetivo. Ocupo-me apenas de esperar a morte. Enquanto isso, sobrevivo a contra gosto e na contramão dos valores e verdades vigentes na sociedade. Vivo sem ilusões de sentido. Viver, para mim, hoje nada significa. A vida em si não é um valor.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

SIR LOCK E XERETA

 

Criado por Carl Fallferg e All Hubard, Sir Lock Holmes é literalmente uma toupeira. O personagem da Disney é evidentemente uma paródia do famoso detetive criado por Connan Doyle. Mas a paródia me encantava nos anos 70 do último século mais do que o original. Por conta disso tive uma relação especial com um brinquedo que me remetia a personagem; O cachorro Xereta da Estrela. Como minha imaginação infantil se apropriava de tais imagens e as articulava hoje me escapa. Só sei que eu levava muito a sério brincar de detetive. Mesmo sem respeitar o estereótipo da figura do detetive particular tão consagrada pela literatura e pelo cinema. Afinal, minha principal referência de detetive sempre foi o Batman, um detetive muito peculiar. Definitivamente, usar cachimbo e sobre tudo era o que naquele período definia um detetive para mim. Mas eu devia ter um cinco anos apenas e pouco sabia sobre o que é um detetive. Hoje nada disso me parece importante. A criança que fui um dia simplesmente não mais existe, assim como suas questões...

 


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

PRIMEIRAS BRINCADEIRAS E RITUAIS DE INFÂNCIA

 

Nos meus primeiros anos, passava horas sentado no chão desenhando histórias em quadrinhos na terra. Desenhava uma cena, apagava e desdobrava em um novo desenho. Demorei um pouco para descobrir o papel. Mas só o fazia, não sei por quê, no quintal dos meus avós. Na casa dos meus pais tinha outras brincadeiras. Adorava morar no jardim dentro das folhagens que me lembravam vivamente uma confortável caverna. Creio que essa foi uma das minhas brincadeiras mais primitivas.

COMO É FÁCIL ESQUECER O PRIMEIRO DIA NA ESCOLA

 

Nem mesmo eu lembro do meu primeiro dia na escola. Tudo que sei é que não queria ir. Mesmo gostando da ideia de comprar mochila, merendeira e desenhar com lápis colorido, ser arrancado do ambiente privado familiar e abandonado na hostil prisão em regime semi aberto da escola, foi para mim um trauma.

Como a maioria das crianças me adaptei à escola. Mas pelos laços afetivos com alguns pares, sempre incertos e provisórios, do que propriamente pela massante rotina desagradável das aulas. Mas eu não era o único esperando a hora de rezar ao tal do menino jesus e ir embora. Meu pai ou minha tia sempre iam buscar a mim e a minha irmã que, diga-se de passagem, nunca frequentamos a mesma turma e , mais tarde seguimos destinos escolares bem diferentes.

Enfim, não me lembro do meu primeiro dia na escola. Mas me lembro muito bem o quanto detestava a escola e só a suportava pela convivência com os colegas de turma. Minha ma~e nos criou sem brincar na rua. Logo, a escola era nossa única forma de relacionamento fora do universo familiar.