segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

UM GOSTAR DA VIDA



Os ritmos da minha vida no inicio dos anos 2000 eram mais dinâmicos do que em outras épocas. Eu dava especial atenção ao lazer, às horas livres. Não falo do tempo que perdia em botecos vendo a vida passar e observando as pessoas. Também tinha o habito de ir ao cinema e frequentar exposições. Fazia de tudo para fugir a rotina e não cair no tedioso circuito do trabalho/casa casa/trabalho. Nutria um gosto juvenil pela vida, uma curiosidade infantil pelas coisas. 

Quanto mais jovens mais somos ingênuos. Mas a ingenuidade nos faz ter certo gosto pela existência. Com o passar dos anos fui perdendo a inocência. Afinal, nem tudo vale a pena e as agitações sociais perdem o encanto quanto começamos a nos dar contra do quão frívolo é o cotidiano.  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

SOZINHO



No inicio dos anos 2000, eu vivia um pouco como cigano. Herança dos anos de graduação. Aluguei quartos, dividi apartamento, morei de favor em casa de amigos. Tudo que importava era ter um teto para dormir. Mas nada parecido com um lar. No fundo, eu me sentia um desabrigado da existência. Vivia sozinho e esta era a principal diferença quando comparava a vida na capital com a antiga vida de província quando morava com meu pais. De muitas maneiras, a solidão me definia. Sempre me definiu. Eu idealizava demais a vida e desprezava a mais elementar realidade. Tinha meus livros e neles havia mais realidades do que no meu dia a dia. Inapto a construir uma vida sozinho, me sentia condenado a ser um pouco a parte dos outros.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

SUBJETIVIDADE E MEMÓRIA SOCIAL

Não posso familiarizar ninguém com os códigos e estruturas de sensibilidades e experiências concretas que em diversos momentos definiram meu cotidiano vivido. Muito menos fornecer um panorama factual que permita interpretações externas da minha trajetória pessoal e biográfica que propiciem a hipotéticas interpretações, recortes de significações que extrapolem minha narrativa, na exata medida em que mergulham minhas vivencias em contextos menos abstratos e demasiadamente concretos. Talvez a ponto de me reduzir a um estudo de caso, considerando as especificidades da cidade e o meio social em que nasci em uma dada época. Tal tipo de leitura ilusoriamente realista, não seria suficiente para invocar meu próprio testemunho pessoal e muito menos as significações e apetites que definiram minha experiência da existência.  

Considero, assim, pouco preciso qualquer formulação autobiográfica que não considere as fantasias, sonhos e ilusões que definem cada época de vida. De certa maneira, habitamos mundos diversos que variam de acordo com nossa idade biológica e social e, também, variam com o modo como somos atingidos subjetivamente pelo fluxo de experiências. Cada momento ou fase de uma existência é definida por um conjunto de questões subjetivas especificas.

Considerando que o significado de uma vida inteira é sempre uma construção que denuncia as forma peculiares como significamos a própria vida e o mundo, tudo que fazemos é preencher de significado o vazio de nossa existência perecível e efêmera.    

MEMÓRIA PESSOAL E FANTASIA



A memória pessoal é uma associação livre de ideias e sentimentos personificadas por imagens do passado pessoal filtradas pelas tonalidades emocionais do presente. Tais imagens nos dão identidade e, de certa maneira, configuram nossa forma de perceber o mundo. A lembrança esta longe de ser uma atividade ingênua ou lúdica, mas um mergulho em formas ancestrais de consciência da realidade que remetem a grandezas impessoais. Lembrar a casa em que crescemos, figuras parentais ou determinados eventos e experiências, transcendem o pessoal e nos lançam ao modo próprio de ser do humano.  Quanto mais envelhecemos, mais o passado se torna uma vivencia mítica que parece situar-se fora do tempo e espaço, quase como uma lembrança onírica. Lembramos de nós mesmos como um outro e das circunstâncias passadas como um período edílico. É preciso atingir certa idade para se compreender tal fenômeno e perceber o passado se afogar no crepúsculo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

BREVE NOTA AUTOCRITICA



Mesmo afastado da vida acadêmica, permaneci preso ao ethos do eterno estudante. Talvez esta tenha sido a maior de todas as minhas limitações: viver mais de livros do que dos fatos. Confesso que sofro de certa inadequação a existência. Disso não tenho duvidas. Mas, como dizem, nunca é tarde para começar de novo. Mesmo que o passado e o próprio tempo pesem nas costas como um fardo quase insuportável. Não podemos ser nada diferente daquilo que nosso passado nos fez ser. Mas não é crime sonhar com o futuro.

TRABALHO E ROTINA



Trabalhar por quase duas décadas em um mesmo lugar é uma experiência de despersonalização. Na fluidez de rotinas e protocolos nos confundimos tanto com nossa persona que nos desfazemos de quem somos, nos tornamos nosso próprio personagem na medida em que começamos a fazer parte do lugar. Afinal, o trabalho é um modo de socialização, de se reduzir a uma função. Precisamos nos acomodar aos fatos, as pessoas e situações.

Ao longo dos anos muitas pessoas passaram pela instituição e seguiram suas vidas. Eu, entretanto, fui ficando, me acomodando e me confundindo com a história do lugar. É como se o trabalho se tornasse um destino. Isso envelhece, pois nos tira a vivencia de desafios, de construir situações e coisas novas que nos levem a crescer como indivíduo produtivo.  Ficar preso durante anos a variações da mesma rotina nos rouba a alma. O tempo passa e não nos transforma.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

SOBRE A NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA



Escrever a vida não é um inventário de acontecimentos. Mas uma arqueologia da presença. Uma narrativa biográfica deve para mim comunicar um modo de ser. Isso é mais do que compartilhar experiências e vivencias. É estabelecer a própria singularidade diante de um mundo que nos afirma iguais. 


Em uma sociedade massificada dizer ás coisas que vivem em nós não é uma tarefa fácil, pois tendemos a compartilhar imagens de cultura. Assim, uma serie de TV se torna um artifício de memória tanto quanto a casa em que crescemos, apesar de sua impessoalidade.


Não entendo um esforço autobiográfico como um balanço da existência, como um labor mnemônico onde interdições e esquecimentos são tão decisivos quanto nossa capacidade de rememorar. 

A reflexão autobiográfica é um labirinto onde nos confrontamos com a fragilidade e perenidade de nossa condição humana.