sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

QUASE SEM PASSADO

Não sei definir meu lugar dentro da historia da minha família. Na verdade se quer conheço o histórico familiar de meus próprios pais e dos meus avós. Tal ignorância é característica da minha geração. 

A memória coletiva ou social não nos é atrativa. Aliás, muito precariamente lidamos com nosso próprio passado pessoal. Somos demasiadamente consumidos pelo presente e por expectativas de futuro que nunca se realizam. Fomos educados à não olhar para trás. Envelhecer não nos proporciona tempo para lembrar....

domingo, 17 de dezembro de 2017

NÃO ME LEMBRO...

Não me lembro da primeira vez
Em que provei o gosto de um chocolate,
Do meu primeiro dia na escola,
Do meu primeiro amor...

Não me recordo da emoção
de ter feito qualquer coisa
Pela primeira vez.
É como se tudo fosse
Pré estabelecido, cotidiano
E indefinido,
No devir concreto das coisas.

É como se eu não fosse
Um redescobrimento constante
De mim mesmo
Além da prisão de todas as definições
E conceitos vividos.
è como se nada um dia 
houvesse sido inventado
por uma primeira vez.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

VIDA E MEMORIA II

A memória é uma faculdade essencial para nossa definição como indivíduos enraizados em uma experiência pessoal do tempo e da vida. Mas é uma ilusão achar que nossas lembranças são suficientemente estruturadas para permitir uma representação satisfatória de nosso arquivo biográfico. 

Todas as nossas lembranças somadas dão conta de uma parcela mínima de tudo aquilo que vivemos um dia. Fato que afeta consideravelmente nossas impressões mnemônicas. A maior parte do que vivemos simplesmente esquecemos.  Quem, afinal, consegue lembrar de todos os aniversários ou réveillons? 

O modo como lembramos é o que realmente é determinante porque expressa nossas eleições subjetivas e valores. Por outro lado é incômodo  perceber a deterioração  e a fragilidade de nossas lembranças e admitir sua seletividade.

Contrariando nossas expectativas, a vida não cabe em lembranças e o que passou passou. Não viveremos de novo e isso não faz qualquer diferença.

É sempre o que vivemos agora que importa. Mas esse agora, de modo muito perturbador, apenas serve para inventar novos esquecimentos e memórias.

O passado é a pior parte do tempo, a que mais nos afeta afetiva e existencialmente.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

VIDA E MEMÓRIA

Aprendi a frequentar o passado como matéria viva dos fatos que me consomem. Me tornei mestre na arte da evasão cronológica. Fiz do tempo dos mortos morada privilegiada dos meus pensamentos. 

Sei que o presente não ocupa lugar proeminente no acontecer de mim mesmo, que meus atos banais e cotidianos pressupõe uma espécie de arcaísmo biográfico oculto na sombra das imagens de infância.

O futuro é sempre um tempo cada vez menos possível. Minhas urgências habitam meu passado afetivo e idealizado como memória e referência de ser neste mundo.

sábado, 9 de dezembro de 2017

A DESCOBERTA DA POESIA

Não me lembro exatamente de quando comecei a escrever poemas. Mas posso dizer com certeza que Fernando Pessoa foi o primeiro poeta que li. Tinha 17 anos quando peguei emprestado em uma biblioteca pública uma coletânea de seus versos e me fascínio com seus heterônimos. Creio que a experiência de sua leitura inspirou-me a rabiscar meus próprios versos. 

Eu era um adolescente melancólico e dado a solidão. A poesia apresentou-se para mim como uma vocação. Fazia versos como quem escreve um diário.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A SOLIDÃO COMO DESTINO

Poucas pessoas foram realmente importantes em minha vida. Falo no sentido da intimidade de longo prazo que normalmente é uma exclusividade do núcleo familiar. 

Tive grandes amigos que frequentei intensamente por certo período. Mas não gozei do privilégio de amizades de infância ou de décadas de viver cotidiano e compartilhado. Tive isso exclusivamente com uma ex namorada. Mas nunca vivi qualquer coisa próxima da rotina de uma união estável. 

Sempre fui, em alguma medida, um grande solitário e  considerei, invariavelmente, a convivência com meus pares um modo de confrontar a mim mesmo, uma forma de cuidado de si.

Se na infância meu mundo era profundamente marcado pela fantasia das HQs, a partir da adolescência me tornei um leitor de filosofia e literatura, um amante dos livros. E foi nesta condição que me inventei como adulto. A minha vocação para solidão sempre foi latente. Mesmo quando eu era demasiadamente jovem e cultivava o ideal do amor romântico, minhas idealizações erótico afetivas me conduziram a solidão como um imperativo idealista. Justamente por isso perdi a virgindade tardiamente e para viver meu único caso de amor.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

SOBRE MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS

Como todo mundo passei por várias idades, épocas e lugares. Pouca coisa permaneceu constante ao longo da existência. Mas são essas poucas coisas que fazem diferença. Seja de forma positiva ou negativa. 

Normalmente damos mais valor às mudanças do que as permanências. Mesmo reconhecendo que mudanças frequentemente acarretam perdas.

  Pessoalmente, gostaria de ter algumas certezas cotidianas para melhor aproveitar as pequenas e grandes mudanças em vez de me sentir desenraizado da minha própria existência. Todas as coisas vividas, afinal, são assustadoramente frágeis e efêmeras....

domingo, 3 de dezembro de 2017

SOBRE O EU QUE ME INVENTA

O eu é mais uma forma de habitar o passado do que um artificio da consciência. A memoria estabelece as coordenadas da existência. Ela diz quem nós somos através do modo como lembrarmos. 

O agora é apenas um detalhe de quem somos na contramão do tempo. Não consigo encontrar um ponto fixo onde minha existência caiba neste eu que me organiza como uma coletânea sempre atualizada de pequenas lembranças.

Tudo que sei é que não sou exatamente este eu constante articulado pela memória.

A INTIMIDADE DA EXISTÊNCIA

Ao longo destes anos, que não cabem por inteiro em minha memória, levei uma vida sem grandes traumas. Sofri uma existência banal e discreta. Destas que são logo esquecidas porque não deixam marcas. 

Tudo que vivi diz respeito apenas a mim mesmo. É intraduzível, embora possa ser precariamente domesticado pelo sentido de uma narrativa.

Mas o fato é que o meu modo próprio de perceber é saber o mundo morrerá comigo sem deixar efeito, herdeiros ou perpetuadores. 

sábado, 2 de dezembro de 2017

SAUDADES DA INFÂNCIA

Quando criança, nunca pensei muito no tipo de adulto que seria um dia. Hoje penso o tempo todo na criança que fui , embriagado de nostalgia. 

O passar dos anos é um acúmulo de perdas e transformações sem horizonte. E a vida adulta a pior parte de toda biografia. Acho mesmo que somente durante a infância soube todo o encanto de estar vivo. Não sobra muito depois disso.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

DEPOIS DOS QUARENTA

Admito que depois dos quarenta anos deixei de lado minha boa vontade com a vida, minha necessidade de o tempo todo buscar coisas novas, e me conformei aos fatos estabelecidos.

Parei de sonhar e descobri a realidade, a serenidade de viver um dia de cada vez, sem grandes expectativas.

Depois dos quarenta anos,  eu aprendi a ser um pouco mais eu e menos o mundo. Descobri que a existência podia ser um pouco mais simples. Passei a viver do que tenho ao alcance  das mãos e a ignorar o horizonte.

Abri mão da felicidade para não me sentir mais infeliz.

domingo, 26 de novembro de 2017

FANTASIA ADOLESCENTE

Nos meus tempos de ensino médio, as vezes ficava imaginando como seria minha vida adulta. Não era do tipo ambicioso que sonha bons empregos. Só especulava sobre morar sozinho e todas as coisas que poderia fazer liberto da tutela dos meus pais.
Vendo minha vida hoje, tais devaneios me parecem tão ridículos quanto distantes de qualquer bom senso. Ironicamente, sinto saudades daquela fase adolescente em que morava com meus pais. Naquela época os dias eram mais vivos e minha existência parecia próspera.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O MAIS ANTIGO DOS MEUS BRINQUEDOS

O primeiro marcante brinquedo do qual me lembro foi um presente de natal. Eu devia ter menos de cinco anos na ocasião. Era um boneco do superman de plástico com braços articulados. A capa lhe dava uma certa elegância e majestade em minha imaginação infantil. Lembro-me que quando ele ficou descascado e velho, ganhei um segundo, dado meu enorme fascínio por aquele simples brinquedo.

SOBRE O CAPITÃO AMÉRICA

O Capitão América, juntamente com o Homem Aranha, passou a ter uma revista própria no Brasil em 1979, através da Editora Abril. Era o início de uma época de ouro para os amantes de HQs.

O que me encantava no Capitão América era o fato de ser um velho soldado da segunda guerra, arrancado de seu tempo ( todos que havia conhecido estavam mortos) e tentando ser um herói no seu futuro, que era nosso presente. Era um personagem, portanto, essencialmente trágico e paradoxal.

Me surpreendia o fato de seu escudo indestrutível servir tanto para a defesa quanto para o ataque, comportando-se, sabe-se lá de que forma,  como um bumerangue. 


O fato é que um super herói, para mim, precisava ter algo de triste. E não há nada mais triste do que um herói que perdeu seu próprio mundo. A mesma ideia é personificada, de forma mais poética, pelo surfista prateado.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SOBRE O VÔO NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Quando em pequena idade, lá pelos quatro ou cinco  anos, me tornei um aficionado por HQs , nem mesmo sabia ler. Minha mãe lia às histórias enquanto eu me encantava com as imagens e desenvolvia um profundo senso de fantasia ou intimidade com o mundo da imaginação.

Algumas questões hoje pueris eram para mim decisivas. Não conseguia entender como o superman e outros heróis da DC podiam voar. Afinal, eles não tinham asas. Os heróis da Marvel, ao contrário, pareciam mais realistas, se assim se pode dizer, em relação a isso.

O homem aranha sacudia-se em suas teias, o Hulk pulava longas distâncias e o Thor era impulsionado pelo seu martelo.

Batman era a minha principal referência. Talvez justamente por não ter super poderes. Um herói para mim não era propriamente uma espécie de semi deus. Ele precisava ter alguma coisa de humano e, só mesmo tempo, de extraordinário. Batman me parecia a melhor tradução disso.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

LIVROS, HQ E MUSICAS

Uma coisa que pode ser dita sobre mim, é que ao longo de toda vida habituei mais em HQs, livros e músicas do que na minha própria vida. Até hoje nunca me arrependi disso. Acho que a fantasia e a arte é o que proporciona vida a nossa existência ordinária.

FRUSTRADO

Nunca tive problemas para admitir que fui uma criança feliz que se tornou um adulto frustrado. Não porque tinha grandes ambições. Mas, simplesmente, porque me preocupei mais com minha satisfação pessoal do que com a conquista de um lugar ao sol. 

Fiz opções que não me garantiram sucesso material ou prestígio social. Não me arrependo disso. Mas é estranho crescer e viver em um mundo onde somos educados para o sucesso , avaliados pelas conquistas materiais e não pelo tipo de ser humano que nos tornamos. Sei que é meio clichê dizer isso, mesmo que seja profundamente sincero. O que importa é que pelo menos nunca tive filhos para saber o que isso significa.

A INFLUÊNCIA DA TV SOBRE A MEMÓRIA PESSOAL

Uma constante na vida urbana da época em que vivi é a presença da televisão como uma espécie de companhia e artefato de ambientação nas rotinas diárias. Boa parte de minhas memórias são televisivas. É surpreendente a quantidade de tempo destinada a não viver a vida através do repouso do entretenimento televisivo. Tal comportamento perpassa todas as minhas idades e, pode-se mesmo dizer, formatos minha sensibilidade e modo de ver o mundo. A influência e lugar da televisão é realmente assombrosa. Mesmo eu não me identificando com a maior parte de sua programação, confesso que indiretamente sou afetado por ela no trato social e no meu modo de lembrar o passado. Quando penso em minha infância, por exemplo, minha memória afetiva é cadenciada pela programação de TV . Já falei sobre isso anteriormente. A novidade agora é uma observação simples: não sei se essa memória midiática pode de fato ser considerada relevante em uma história de vida. Afinal, ela é pré moldada e um fenômeno de massas e impessoal.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

DECÊNIOS

Cada década traz um conjunto novo de fatos, perspectivas e sensibilidades bem características. Assim, em um período de dez anos, a existência muda em suas rotinas, nos oferece cenários cotidianos diversos. Mesmo que nada de muito significativo aconteça. O mero passar do tempo muda as coisas e, no mínimo, envelhecemos e já não temos a mesma aparência ou os mesmos hábitos.

Cada década tem sua linguagem, suas questões e bem definem um momento de vida e biografia. Nem sempre é muito clara a forma como uma década se articula com a outra em nosso devir biográfico. Geralmente a memória apenas estabelece seus contrastes e rupturas.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

GEOGRAFIA AFETIVA

Os lugares que frequentava antigamente estão perdidos para mim.Seus endereços estão vazios das referencias que cotidianamente aprendi em rotinas antigas. Nada mais diz em suas geografias as experiências e acontecimentos das quais fui protagonista ou testemunha muda. Tudo está diferente. Inclusive eu, que ao revisita-los, me perco do meu próprio passado. Inutilmente procuro em tudo marcas daqueles caros momentos arquivados na memória. Mas é inútil. Nada do que fui ainda resta nestes familiares espaços que se reinventaram.


domingo, 5 de novembro de 2017

SOBRE O ESQUECIMENTO

Lamento às pessoas e coisas das quais já não me recordo. Nem todas as experiências vividas viram memórias. A maior parte é relegada ao esquecimento, a poeira do tempo de uma vida inteira. Mas o que me perturba um pouco é ser parte da poeira do tempo de alguém. Mas depois de certa idade começamos a nos defrontar com nossa "desimportância" e reconsideramos nossas prioridades, valores e auto estima. 
Aprendemos, assim, a envelhecer...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

O TEMPO E O VAZIO

Muitas pessoas passaram pela minha vida.
Poucas ficaram,
me viram mudar com os anos.
O tempo desfez algumas certezas,
Inventou despedidas
E geografias de vento e memórias.
A cada ano me vejo um pouco mais vazio,
Absurdamente ausente
De mim mesmo.

sábado, 28 de outubro de 2017

O PASSADO COMO FUTURO

Meu passado pessoal é frequentado por muitas coisas e pessoas perdidas,  é testemunho de épocas de intensa existência.
Frequento   minhas memórias mais do que vivo o presente. Pois sinto como se algo perdido, faz muito tempo, habita-se agora em mim como o vazio de possibilidades desfeitas. Não fui capaz de atualizar meus passados no tempo presente. É como se não fosse possível de ser por inteiro em qualquer futuro, uma vez que me deixei perdido pelo meu próprio caminho.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O PESO DA INFÂNCIA

As boas lembranças que temos da infância define o adulto que somos. Posso dizer que a criança que fui é hoje a sombra do adulto que me tornei, seja através das minhas qualidades, defeitos ou contradições. A sensibilidade que define o modo como percebo o mundo, como relaciono com os outros, meus gostos e preferências pessoais, são consequências da criança que fui.

Envelhecer é para mim uma forma de dialogar com si mesmo, de inventar um passado para definir o presente. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

INFÂNCIA PERDIDA: O CASO DOS CARROS DE LATA DE ÓLEO

Quando eu era criança, e as latas de óleo eram de alumínio, era comum utiliza-las para produzir brinquedos. Geralmente pequenos e rústicos carrinhos de lata decorados com fina imaginação.  Inventar brinquedos era próprio as crianças dos anos setenta do ultimo século. Estava longe de ser uma exceção. Qualquer criança fazia isso.  


Causa-me, entretanto, certa estranheza de perceber que nas infâncias de hoje, a imaginação já não inventa brinquedos. Não há nada da criança que fui entre as crianças de hoje. As vezes chego mesmo a duvidar se posso considera-las crianças no mesmo sentido que eu fui um dia. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim. Apenas estou diagnosticando o abismo que agora me separa da infância e de tudo que se refere ao universo infantil. 
Afinal, carros de lata de óleo saíram de moda...

NOSTALGIA

O tempo passou...
Muita gente morreu,
Os lugares já não são os mesmos,
As rotinas desabaram
E já não me reconheço
Na atual fachada da casa antiga.
Tudo mudou.
Até mesmo eu.
Mas mesmo mais velho
Ainda me sinto um pedaço perdido
Daqueles tempos onde tudo que eu era
Não havia desaparecido.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

O FLUIR DAS SENSIBILIDADES

O modo como sentimos e sabemos o mundo, muda como nosso cotidiano. Assim se definem as épocas de uma vida. Mas os critérios para sua definição é puramente subjetivo, salvo pelas especificidades definidas por cada uma de nossas idades biológicas. O que sei é que já não sinto ou tenho as mesmas prioridades e sensibilidades  que me definiam, pelo menos, a pouco mais de dois anos. Por outro lado, percebo reminiscências de outras fases e épocas em minha atual subjetividade. Isso significa que não se trata de um processo inequivocadamente  linear. Também depende do quanto apreendemos das experiências que nos configuram o cotidiano. Não é raro termos uma leitura bastante limitada de nossos próprios dias vividos e suas atualizações constantes. Mudamos o tempo todo, mas vivemos como se fossemos constantemente os mesmos. Mas a identidade pessoal é demasiadamente fluida e incerta. Quanto mais envelheço mais me percebo amargamente consciente disto.



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

NADIFICAÇÃO BIOGRÁFICA

No intervalo de algumas décadas vivi uma existência banal entre algumas épocas. Não realizei qualquer feito digno de nota no devir da espécie. Fui apenas uma pessoa qualquer mergulhada em suas rotinas e ritmos de experiência.

Praticamente tudo que me aconteceu foi a variação insignificante de uma biografia vazia que se reduz a uma página ilegível, inútil, que nem vale a pena ser lida.

Tal nadificação do meu ser resume para mim a própria condição humana. Tudo é desimportante e perecível, como o esforço inútil destas  breves palavras.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

UM DESENHO

Eu era um adolescente quando fiz este desenho mal feito. Gostava de me traduzir através de imagens, me dizer por intermédio das imaginações. Sofria uma febre de imensidões, de vontades... Tinha toda a potencia que define a juventude e suas metafisicas imensidões....

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

QUANDO EU ERA JOVEM

Não é apenas a vontade de ser jovem de novo que me leva a nostalgia  dos anos de infância e adolescência. Creio que o sentimento de pertencimento ao mundo e a vida é o que mais intensamente sustenta essa fome de passado.

Na época eu não gozava de tal perspectiva, achava minha vida profundamente desinteressante e até mesmo frustrante, como toda boa criança e, depois, adolescente problemático. Mas agora sei o quanto morar com meus pais me proporcionava um lugar no mundo, o quanto  a rotina domestica era um abrigo existencial.

Ao mesmo tempo, vivia descobertas e redescobertas diárias, tinha todas as vontades e tempo do mundo para experimentar a existência. A vida, simplesmente, tinha mais gosto. O  futuro estava inteiramente aberto diante das minhas escolhas. É claro que só temos plena consciência da riqueza dos anos de juventude quando já não gozamos mais de seus benefícios.

Lamento não ter levado as últimas consequências todo o potencial daqueles anos de formação e crescimento, daqueles dias em que a existência ainda gozava de pleno sentido.

Mas lamento ainda mais não poder contar com a segurança da vida em família, com um universo privado ordenado e pleno de referências.



segunda-feira, 31 de julho de 2017

MEMÓRIAS DE ÉPOCA

Pertencer a mesma geração é lembrar do passado através das mesmas músicas, dos mesmos programas de televisão, brinquedos e hábitos cotidianos que definiram uma época. No fundo há muito pouco de pessoal em tudo isso. Mas é como nos percebemos no tempo e configuramos nossa experiência mais pessoal. Assim, a memória de um se entrelaça a memória dos outros, e produz algo mais do que a memória bruta dos acontecimentos.  

sexta-feira, 14 de julho de 2017

LEMBRANÇAS

A percepção presente
Invoca lembranças
Que me surpreendem
Com instantâneos oníricos.

Sou outro em cada lembrança
Me desconhecendo no tempo.
Sou como uma sombra de todas
As possibilidades ontológicas
Do meu rosto.

Mas tamanha é a força
Do fluxo de minhas lembranças
Que o tempo presente
Não tem importância.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

ENVELHECER

O passado é sempre mais interessante do que o presente. Pois remete a juventude, onde tudo é mais intenso e pleno. Sempre que penso no passado, experimento qualquer coisa  a mais  que um previsível  sentimento de nostalgia. Falo de uma sensação incomoda de envelhecimento.


Não sou como antes e nada é  como antigamente. Envelhecer não é um premio. O leque de possibilidades e o envolvimento com as coisas se torna decrescente com o passar dos anos. Não tenho qualquer pudor em admitir isso. O tempo passa contra a gente.

SER ADULTO

Qual o momento no qual a criança se torna um adulto? Certamente ele não existe. É um processo, muitos responderiam com a devida razão. Mas a questão é se tal processo de algum modo realmente atinge sua meta. 

Pessoalmente, não me sinto um adulto. Minhas emoções, sentimentos e imaginações, embora diferentes das que me caracterizavam na infância,  não contemplam nenhuma maioridade existencial. Diria mesmo que me  sinto em muitos sentidos superior a criança que fui um dia. Ao contrário, não tenho mais a mesma capacidade de aprender ou me adaptar as situações. Perdi a velha curiosidade e o vigor físico intelectual. Minhas percepções são  mais restritas e minhas atitudes mais previsíveis. Não tenho a mesma capacidade de inventar e criar. Se ser adulto significa independência, autoconfiança e adaptação ao mundo, acho que nunca nos tornamos plenamente adultos. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

TEMPO E INCERTEZA

O devir trans histórico de uma vida inteira não cabe na memória. É acontecimento continuo e sem forma, pura inconstância aberta em acontecimento. Sou hoje o acumulo de tantas experiências, perdas e mudanças que não me reconheço direito no que me tornei hoje. Afinal, tudo que sou é provisório e incerto, como este instante em que escrevo.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

NOS TEMPOS EM QUE EU ESCUTAVA MÚSICA

É curioso como determinados hábitos se perdem da rotina da gente.  Durante a adolescência passava horas escutando ininterruptamente meus velhos vinis. Ouvir musica era um ritual diário e privilegiado momento de evasão e, muitas vezes, melancolia. Minhas circunstâncias e percepções sempre eram acompanhadas por um pano de fundo musical.


Hoje, embora a musica continue sendo essencial para mim, já não tenho o habito diário de escutar musica . Mesmo quando escuto, já não vivo o mesmo encanto de antigamente. Tenho, ao contrário, certa nostalgia do passado e dos tempos em que de fato escutava musica. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A DECADÊNCIA DA EXPERIÊNCIA

Certos hábitos que definiam o cotidiano e  eram tão naturalizados se perderam com o passar da época. Mas, embora remetam ao mais corriqueiro mimetismo cultural, acabam se convertendo em referencial afetivo e parte da nossa  memoria mais  pessoal.

Certos programas de TV,  tipos de comida, musicas e pequenos hábitos cotidianos, preenchem a economia de nossos hábitos e se convertem em perdas que se acumulam, sem que percebamos, no simples devir das praticas coletivas.

O cotidiano muda o tempo todo e quase não nos percebemos dentro das épocas. O fato é que o impessoal é, cada vez mais, expressão paradoxal do que se apresenta para nós como intimidade e subjetividade.


Sofremos de um vazio de experiências na decadência de nossos jogos de intimidade. 

SOBRE OS DILEMAS DA VIDA ADULTA

Quando mais jovem eu era voluntarioso, como é próprio da idade. Tinha muitas vontades, idealismos e otimismos em relação ao meu futuro. Tudo parecia fácil. Como se eu fosse predestinado a realizar tudo aquilo que acreditava.

Tamanha autoconfiança me fez pouco adaptável a chamada maturidade e a uma boa adequação as obrigações e pragmatismos da vida adulta. Sempre estive mais preocupado em me afirmar contra o mundo do que ser parte de seus lugares comuns.

Não me arrependo de nada. Mas reconheço que decantei do desafio de uma vida estável e confortável. Preferi a eterna jovialidade do espirito critico e indomável. Viver é um jogo que quis jogar de acordo com minhas próprias regras.  O resultado disso não podia ser outro: o amargor de um certo sentimento de fracasso pessoal.


Não vivo como queria e muito menos como preciso. Entre eu e o mundo há o abismo de um saudável desajuste. Mas quem disse que existem vidas perfeitas e plena realização pessoal?  Cada um vive como lhe foi possível ao final de tortuoso percurso  existencial. Ou nos adaptamos ao mundo ou o mundo nos pesa nas costas como uma desagradável obrigação diária. Entre perdas e ganhos, o mais importante é manter-se fiel a si mesmo.

O PASSADO É TUDO QUE FAZ SENTIDO

Todo meu passado vivido,
Agora reduzido a um conjunto
De lembranças vagas,
É tudo que guardo de mais caro.
Sou em tudo aquilo que fui,
Mais intensamente do que
Em qualquer versão ainda possível de um eu futuro.
 Meu passado é tudo que faz sentido,
É onde ainda aconteço,

Apesar do silencio do mundo.

terça-feira, 20 de junho de 2017

TEMPO VAZIO

Berram em mim muitos vazios
Que reinventam o gosto
Dos meus antigos dias.

Sei ansiedades e angustias
Que habitam o sem tempo.
Pois sou em restos de existências
O apagado efeito de algumas lembranças,

Ontem eu era futuro.

Agora sou menos que um passado.

domingo, 18 de junho de 2017

MEMÓRIA DE VELHOS

O passado muda o tempo todo. Na medida em que envelhecemos aprendemos a cultivar melhor nossas lembranças e nos abrigamos em nossas memórias de uma forma que elas passam a nos definir mais do que nossos atos cotidianos. Assim, nos tornamos plenamente quem fomos. Atualizamos o rosto através de nossas ausências.

Ao mesmo tempo, nos damos conta de que o mundo já não lembra do mesmo modo como lembramos. Somos em nosso passado intimo, seguindo vestígios de uma existência pessoal e irremediavelmente perdida, que nada mais diz ao passado dos outros.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

RELACIONAMENTOS E ADOLESCENCIA

Não tive namoricos adolescentes. Era do tipo que  frequentava livros, TV e quadrinhos . Vivia fechado em meu próprio mundo e não sabia, naturalmente, como me aproximar de uma garota. Sofri alguns amores platônicos sem consequências. Hoje acho graça disso, dos meus arroubos de romantismo solitário que alimentava idealizações vazias.


Creio que era demasiadamente sensível e  idealista para viver a experiência de qualquer relacionamento real. Quando amadureci emocionalmente, passei a não me importar mais com relacionamentos. Mas até chegar a este ponto, percorri um longo caminho de desencontros.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

OS LABIRINTOS DA LEMBRANÇA

A memória possui seus esconderijos e se alimenta da repetição abstrata de tudo aquilo que  deixou de ser, mas ainda nos assombra como lembrança. O apego ao passado nos domina na medida em que envelhecemos. Passamos a nos preocupar com nossa trajetória pessoal  e perdemos o interesse para o tempo do mundo e da vida social.


 Mas o passado tem suas áreas sombrias que colorem as lembranças ao sabor das precariedades do agora. Nossas representações do ontem guardam o sentimento daquilo que nos falta agora. É difícil separar o passado do presente. O primeiro é sempre dito pelo segundo e assim, em considerável medida,  perde-se no que permanece impreciso ou esquecido apresentando-se como uma pálida imagem de si mesmo. 

TEMPO PERDIDO

Sinto falta do café da manhã simples do tempo de infância.
Do almoço caseiro,
Da casa antiga e dos dias dos meus pais.
Sinto falta dos meus avós
E daquela época  antiga
Onde eu não sabia que a vida
Era então tão simples

Que justificava todos os sorrisos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

MEU MÍNIMO MUNDO

Sempre levei uma vida de pão com manteiga, de dinheiro curto e prazeres pequenos. Sempre estive preso a minha pequena realidade intima. Nunca fiz grandes viagens ou colecionei aventuras. Jamais fui ousado. Mantive uma ingenuidade infantil diante das coisas, uma má vontade com o mundo, que só eu sei no desalento dos meus dias. Não nasci para ser grande. Meu desafio sempre foi aprender a ser pequeno na simplicidade do cotidianamente vivido.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ENTRE O PASSADO E O PRESENTE

Nas ultimas décadas do século XX eram grandes as expectativas em relação a chegada do novo século e milênio. De modo geral esperava-se novos ares e um momento de grandes novidades. Afinal o século XX chegava ao fim com reviravoltas espetaculares como o fim do socialismo real, reunificação da Alemanha e uma confiança absurda no progresso técnico científico.  Mas a grande expectativa era em relação ao bum do milênio que revelava o ceticismo coletivo em relação as novas tecnologias digitais. Quem poderia imaginar que o novo século seria tão formatado por tais tecnologias e o virtual se tornaria o grande artificio de nosso modo de conceber o mundo e transformaria significativamente nosso cotidiano e sensibilidade. Justo ele que não foi concebido ou antecipado pelas utopias futuristas do século XX.


O mundo de hoje não poderia ser previsto quando nasci. O mesmo pode ser dito para minhas expectativas pessoais de futuro privado. Não temos o mínimo controle sobre o futuro apesar de todas as nossas previsões. Nada antecipava a vida que levo hoje. Não encontro sinais do presente quando penso em meu passado. Digo o mesmo em relação a existência coletiva. Não aprendemos nada com a história além de contrastes, distancias e descontinuidades. Não vejo continuidades e permanências essências entre o meu passado e meu presente. Fato que me leva a temer o futuro. Mesmo que ele seja mais curto do que o suposto por minhas expectativas.  

PASSADOS PERDIDOS

Dentro de mim moram passados
Onde gritam esquecimentos
Que sufocam  a memória
E inventam o imediatismo vazio
Deste simples momento.


Dentro de mim moram passados
Que não cabem no agora.

Talvez um dia eu me lembre
De tudo aquilo
Que não deveria
Ser esquecido
E me descubra outro
No mais profundo vazio

De mim mesmo.

sábado, 13 de maio de 2017

SOBRE O PASSADO QUE MORREU EM NÓS


Muita coisa vivida foi esquecida

Por mim e por todos.

Sobraram apenas pedaços

De nossos passados compartilhados

E cada um de nós

Carrega sua versão dos fatos.

O que  foi se foi

E já não faz diferença.

O tempo passou e ainda estamos aqui

Tentando adivinhar a vida.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

LEMBRANÇAS

Minhas lembranças tem gosto de sonho.
O passado me embriaga
E quase não sei do tempo presente
Nesta nostalgia que me abriga.

Eu era mais vivo antigamente.
Agora vivo do cheiro
De tudo aquilo que não mais existe,
Mas persiste dentro de mim

Como uma existência ausente.

domingo, 23 de abril de 2017

SOBRE O HOMEM ARANHA

Eu deveria ter um pouco mais de dez anos quando descobri os quadrinhos do Homem Aranha, primeiro herói do universo marvel.

Diferente de heróis como Batman e Superman, ele personificava um jovem comum com problemas  banais e dificuldades corriqueiras. Também era um herói nova yorquino, de uma cidade real. Nada de Gorthan ou Metropolis que, no fim das contas, são tão abstratas e artificiais quanto a Patópolis do Morcego Vermelho ou do Super pateta e Super Pato.

O Homem Aranha mudou minha forma de identificação como o universo dos quadrinhos. Mas afirmar isso é um lugar comum. Seja como for, através do Homem Aranha os heróis de tirinhas se tornaram mais próximos e humanos, psicologicamente complexos. Tal novidade impactou profundamente em meu imaginário infantil. Até então heróis de HQ eram para mim semi deuses ou deuses incapazes de vivências reais e de uma personalidade pessoal. O Homem Aranha mudou isso para sempre e transformou a cultura dos quadrinhos de um modo que só soubemos posteriormente as consequências....

quinta-feira, 20 de abril de 2017

LEMBRANÇAS DA PRÉ ADOLESCÊNCIA

A agitação dos meninos e meninas na saída da escola acordam nostalgias. Soube eu também este tempo de improvisos e experimentação. Tudo era então tão intenso quanto divertido. Súbitas paixões e quase imediatas decepções ou idealizações solitárias não significavam grande coisa e a vida seguia leve em algazarras. Nada era levado a sério... Eu era apenas um aprendiz de mim mesmo adivinhando ainda aquele que eu sempre seria.
Não aprendia muito com a escola, mas descobria a vida.

sábado, 15 de abril de 2017

A MEMÓRIA COMO EXPERIÊNCIA AFETIVA

A memória compartilhada de épocas da vida, situações e lugares, é o que nos liga de modo afetivo a algumas pessoas. Não o acontecimento, mas a lembrança e sua dimensão subjetiva. 

Em grande parte vivemos de vidas inventadas pela lembrança. O acontecimento e o fato bruto são devorados pelo tempo. Há uma certa dose de fantasia no ato de recordar.

Este caráter fantasioso do jogo entre esquecimento e lembrança é o que define a identidade de um indivíduo com suas recordações e leitura de sua própria existência.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

MEMÓRIAS ONÍRICAS II

Comecei a me interessar por psicanálise quando tinha apenas 17 anos. A Interpretação dos Sonhos de Freud despertou minha fascinação pelo onírico e pela fantasia.  levou pouco tempo para descobrir Jung e levar as ultimas consequências a aventura mágica do não eu de tudo aquilo que sou como um questionamento de toda a minha realidade subjetiva.
Aprendi , assim, desde cedo, que a imaginação é a essência da realidade. Convicção que carrego até os dias de hoje e justifica meu encanto pelo universo onírico, pelas gramaticas de fantasia que nos encantam através de toda forma de expressão artística.

terça-feira, 11 de abril de 2017

MEMÓRIAS ONÍRICAS I

Algo que pouco mudou ao longo da vida, foi o padrão de minhas aventuras oníricas. De modo geral, meus sonhos são configurados por paisagens fantásticas e noturnas . As referencias a situações e lugares conhecidos são apenas citações vagas na semelhança de ambientações extraordinárias. 

Meus sonhos sempre possuem um forte componente de evasão e maravilha.

Meu alter ego onírico possui algo de herói e nunca enfrenta dificuldades sozinho. Conheci em meus sonhos pessoas tão interessantes que , definitivamente, nunca teriam lugar na realidade vivida   

sábado, 8 de abril de 2017

SEM IDENTIDADE

Não vejo conexões entre quem sou hoje e meus outros eus de infâncias, adolescências  e maturidades. Sou incapaz de saber um eu unificado dentro de todos os meus tempos vividos. Não sofro do pathos da identidade. Meus passados me deslocam de mim. Sou tantos que não consigo dar conta de mim mesmo.

Eu não sou... Apenas estou através do tempo e do espaço buscando a mim mesmo.

segunda-feira, 27 de março de 2017

ESTRELA CADENTE

Quando eu era pequeno

O céu noturno era mais intenso.

Ainda era possível flertar com estrelas cadentes

E brincar com pequenas ilusões e desejos.

Acreditava em meus pedidos secretos

Como quem aposta no mundo

Mais do que na realidade.

Tudo era tão simples,

Tão nítido e mágico,

Que a vida me parecia possível.


quarta-feira, 22 de março de 2017

A MEMORIA DAS RUAS VIVIDAS



Em alguma medida nos tornamos parte das rotinas do lugar em que habitamos. Toda vez em que fui forçado a mudar de endereço, me senti arrancado de um cenário vivido e lançado ao desafio de recompor minhas rotinas.

A vida pode aparentemente não mudar muito em função de uma troca de endereço. Mas  ela gera uma alteração significativa em nossa cotidiana apreensão do mundo.

O roteiro dos meus percursos cotidianos, como o trajeto  de casa ao trabalho, sempre foi também um frequentar pessoas e lugares cuja especificidade deixavam marcas em meu modo de vivenciar as coisas.

Quando penso nos vários endereços em que morei, lembro de muita gente que nunca mais vi, referencias de ruas e lugares antes tão frequentados, mas nos quais hoje não me reconheço mais. Em uma única década, a face de  uma rua muda muito.  O cotidiano é dinâmico e a própria rotina, em seu repetir infinito, não exclui transformações.

Reencontrar lugares que já me foram íntimos  depois de um grande hiato é  sempre uma experiência de desencontro. Pois os lugares já não os mesmos, assim como também sou outro.

sexta-feira, 17 de março de 2017

CRIANÇAS PERDIDAS



Dos meus poucos companheiros daqueles dias distantes das primeiras infâncias, não reencontrei se quer um, pelos caminhos da vida. Eles pouco brincaram comigo e frequentaram minha existência. Compartilhamos instantes sem grandes  consequências afetivas. Mesmo assim ficaram em mim como doce memória.


Soube já adulto que alguns morreram precocemente. A vida seguiu sem eles, como continuou sem nossas infâncias.


Pensar nisso não me desperta grande nostalgia. Apenas um certo desencanto diante da lembrança de vê-los empinando pipas contra um céu azul e claro.  Coisa que nunca aprendi.