Na ocasião eu ainda não tinha
descoberto o rock como referencia de identidade e prazer adolescente. Mas me
lembro de ter acompanhado pelos noticiários locais as noticias sobre a morte
trágica de John Lennon. Não tinha, então, muita ideia de quem ele era, mas a
noticia me impactou de alguma forma. O fato é, obviamente, mais significativo
hoje para mim do que foi na época. A verdade é que no inicio dos anos 80 eu
começava a entrar na pré adolescência e
ampliava meu campo de experiências e impressões sobre o mundo e a vida.
Na escola nova comecei a cursar a
quinta série do ensino fundamental. A interação com os colegas de classe passou
a ser mais intensa e efetiva. Logo percebi o profundo abismo que me separava
dos meus pares. Havia até então vivido fechado quase que hermeticamente na
bolha do cotidiano familiar, imerso em minhas fantasias infantis. As outras
crianças sabiam mais do que eu sobre coisas corriqueiras pertinentes as codificações societárias. Eu, por exemplo,
não tinha qualquer conhecimento sobre sexualidade e gênero enquanto meus
colegas já haviam descoberto as diferenças anatômicas entre meninas e meninos e
se divertiam com meu total desconhecimento sobre as gírias sexuais e palavrões.
Apesar disso, os meninos não se misturavam
muito com as meninas. Brincavam separadamente durante o recreio apesar de
eventuais e pontuais interações e algumas exceções. Mesmo eu que era criado com uma irmã, não
tinha qualquer empatia com o universo feminino e via as meninas como uma espécie
de tabu. Quando mais tarde uma colega de turma demonstrou algum interesse por
mim, demonstrei certo desconforto com o fato deixando claro publicamente minha
contrariedade. Passei a trata-la com antipatia. O fato é que neste inicio dos
anos oitenta, a escola começou a se apresentar para mim como um espaço de
sociabilidade contraposto a esfera privada/familiar, estabecendi novos desafios a construção de um eu no mundo.

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