Embora a mudança de escola para terminar o ensino fundamental durante os anos oitenta tenha representado uma mudança qualitativa em meu mundo vivido, eu ainda era apenas uma criança. Conhecia melhor a cidade em que morava, tinha minha turma da escola e minhas paixões platônicas como todo pré adolescente. Mas minhas preocupações cotidianas ainda eram claramente infantis e o mundo da escola e da casa não se comunicavam. Constituíam, ao contrário dos vasos não comunicantes. Entre eles minha introspecção se forjava, minha subjetividade aflorava através de uma sensibilidade formatada por idealizações e fantasias provenientes dos modelos e valores que havia construído através do universo das HQs. Isso me isolava um pouco. Mas não era um incomodo.
Os anos oitenta apresentavam uma estética e sensibilidade bem diferente da década anterior. Pode-se dizer que eles formataram aquilo que hoje em dia conhecemos como cultura pop. Mas esta é uma longa discussão que prefiro não enfrentar aqui.
Em um primeiro momento a relação com o mundo dos quadrinhos se fortaleceu através das visitas praticamente diárias a livraria do estudante para adquiri gibis. Era um destino certo depois das aulas e a caminho de casa. Fora isso, comecei a apresentar um certo incomodo ou resistência a educação religiosa que me era imposta. Não em função de qualquer coisa que tenha ouvido na escola. Era uma inquietação difusa e intuitiva que me fazia, por exemplo, não ficar muito a vontade para acompanhar minha mãe a missa dominical.
Nunca fui do tipo religioso. Nunca fui de pensar muito sobre religiosidade. Naquela época a crença em papai noel era mais importante para mim do que qualquer especulação sobre jesus de Nazaré ou a objetividade de um deus único. Estes assuntos não me interessavam. Mas estavam começando a me incomodar. O que me lembro, muito vagamente, é que era do tipo que fazia perguntas incomuns durante as aulas de catecismo e, para algumas indagações, recebia a pior de todas as respostas que se pode dar a um pré adolescente inquieto: "Mistérios".
Isto resultou em minha conversão ao ateísmo quando tinha em torno dos quinze anos. Cheguei a tal condição pelo simples fato de que o deus do qual tanto falavam não se manifestava, não respondia a qualquer chamado. Em um primeiro momento guardei o fato comigo. Mas ele teria consequências ao longo da minha adolescência.
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