Em frente à casa dos meus avós
havia uma linha férrea. Corria sempre para o portão quando escutava a composição
carregada de cana de açúcar se aproximando. Entre as crianças da rua era um
costume tentar arrancar algum pedaço de cana dos vagões em movimento, apenas
por diversão. Pessoalmente, eu era medroso demais para isso. Preferia ver o trem passar à uma distancia segura.
Alias, nos idos dos anos setenta,
era habito ficar no portão apreciando as modas. Sempre aparecia algum vizinho
para trocar um dedo de prosa. Encontros triviais e cotidianos eram frequentes
entre vizinhos estabelecendo laços de proximidade no âmbito privado de um modo
que hoje em dia já não acontecem mais. As pessoas participavam de forma mais
intensa do cotidiano uma das outras.
Isso me incomodava. Na presença
de pessoas estranhas perdia um pouco da espontaneidade. Quando os adultos
recebiam visitas, evitava, por exemplo, me alimentar para não ter que dividir o
alimento com elas. Era um capricho de criança que estava de acordo com a
etiqueta da época. Era considerado deselegante ou inconveniente chegar na casa
de alguém na hora do almoço ou da janta.
Quando eu e minha irmã
acompanhávamos nossa mãe em visita a casa de algum parente, éramos orientados a
nos manter discretos. Nada de brincar, correr ou falar alto. Coisa que ficava
difícil de atender quando nos juntávamos a outras crianças. Acabávamos vitimas
de castigos quando terminada a visita.
Nenhum comentário:
Postar um comentário