sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

PEQUENAS SOCIABILIDADES

Em frente à casa dos meus avós havia uma linha férrea. Corria sempre para o portão quando escutava a composição carregada de cana de açúcar se aproximando. Entre as crianças da rua era um costume tentar arrancar algum pedaço de cana dos vagões em movimento, apenas por diversão. Pessoalmente, eu era medroso demais para isso. Preferia  ver o trem passar à uma distancia segura.

Alias, nos idos dos anos setenta, era habito ficar no portão apreciando as modas. Sempre aparecia algum vizinho para trocar um dedo de prosa. Encontros triviais e cotidianos eram frequentes entre vizinhos estabelecendo laços de proximidade no âmbito privado de um modo que hoje em dia já não acontecem mais. As pessoas participavam de forma mais intensa do cotidiano uma das outras.

Isso me incomodava. Na presença de pessoas estranhas perdia um pouco da espontaneidade. Quando os adultos recebiam visitas, evitava, por exemplo, me alimentar para não ter que dividir o alimento com elas. Era um capricho de criança que estava de acordo com a etiqueta da época. Era considerado deselegante ou inconveniente chegar na casa de alguém na hora do almoço ou da janta.

Quando eu e minha irmã acompanhávamos nossa mãe em visita a casa de algum parente, éramos orientados a nos manter discretos. Nada de brincar, correr ou falar alto. Coisa que ficava difícil de atender quando nos juntávamos a outras crianças. Acabávamos vitimas de castigos quando terminada a visita.


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