Com a mudança de escola a esfera
privada da vida familiar deixou de ocupar a centralidade do meu acontecer
cotidiano. Comecei a frequentar o centro da cidade como intinerário diário ampliando aos poucos as fronteiras geográficas
do meu mundo vivido. Ir sozinho para escola era ao mesmo tempo conquistar certa
autonomia individual, como também descobrir coisas novas. No caminho descobri
uma pequeno sebo de livros, vinis e quadrinhos. A Livraria do Estudante, como
era chamada. Ela me foi apresentada por um colega de escola. Era um lugar
pequeno e desorganizado com um forte cheiro de coisa velha. Sempre havia algum
disco de dance music ou soul tocando,
contribuindo para uma ambientação singular.
A Papelaria do Estudante logo se
tornou um espaço magico para mim. Cotidianamente economizava o dinheiro da
merenda para comprar gibis. Com alguns trocados conseguia sair de lá com pelo
menos meia dúzia. O preço era calculado de forma bastante subjetiva pelo proprietário
do lugar. Um sujeito magro e pequeno com uma voz grave e meio metálica. Graças
a este estabelecimento, que era o único sebo da cidade, minha coleção de
quadrinhos em muito pouco tempo ganhou corpo a partir da compra sistemática de
gibis usados. Já não dependia da boa vontade dos meus pais trazerem algum em
suas idas ao centro da cidade ou quando na companhia de qualquer um deles
passava em frente a uma banca de revistas.
Assim, ao mesmo tempo em que começava
a fazer do ambiente escolar um espaço de socialização, minha tendência a introspecção também se consolidava na medida
em que me dedicava mais aos gibis. O que pode ajudar a entender minha discrição
na escola. Me relacionava bem como todo mundo, mas sem estabelecer vínculos profundos. Geralmente
fazia apenas um amigo mais próximo.

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