quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

NOVAS ROTINAS

Com a mudança de escola a esfera privada da vida familiar deixou de ocupar a centralidade do meu acontecer cotidiano. Comecei a frequentar o centro da cidade como intinerário diário  ampliando aos poucos as fronteiras geográficas do meu mundo vivido. Ir sozinho para escola era ao mesmo tempo conquistar certa autonomia individual, como também descobrir coisas novas. No caminho descobri uma pequeno sebo de livros, vinis e quadrinhos. A Livraria do Estudante, como era chamada. Ela me foi apresentada por um colega de escola. Era um lugar pequeno e desorganizado com um forte cheiro de coisa velha. Sempre havia algum disco de dance music  ou soul tocando, contribuindo para uma ambientação singular.

A Papelaria do Estudante logo se tornou um espaço magico para mim. Cotidianamente economizava o dinheiro da merenda para comprar gibis. Com alguns trocados conseguia sair de lá com pelo menos meia dúzia. O preço era calculado de forma bastante subjetiva pelo proprietário do lugar. Um sujeito magro e pequeno com uma voz grave e meio metálica. Graças a este estabelecimento, que era o único sebo da cidade, minha coleção de quadrinhos em muito pouco tempo ganhou corpo a partir da compra sistemática de gibis usados. Já não dependia da boa vontade dos meus pais trazerem algum em suas idas ao centro da cidade ou quando na companhia de qualquer um deles passava em frente a uma banca de revistas.


Assim, ao mesmo tempo em que começava a fazer do ambiente escolar um espaço de socialização, minha tendência a  introspecção também se consolidava na medida em que me dedicava mais aos gibis. O que pode ajudar a entender minha discrição na escola. Me relacionava bem como todo mundo, mas sem  estabelecer vínculos profundos. Geralmente fazia apenas um amigo mais próximo. 

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