As lembranças que tenho sobre
minha infância são tão fragmentárias e vagas que não dão conta de uma reconstrução
muito fiel das minhas rotinas, questões e vivencias daquela época. Não tenho,
portanto, qualquer ilusão quanto ao resgate de um passado factual. Sei que
entre a lembrança e os fatos existe um insuperável abismo.
Qualquer narrativa autobiográfica
esta condicionada ao eu atual do narrador e as suas configurações existenciais.
Além disso, toda lembrança equivale a alguns esquecimentos. Toda memória é
seletiva. O que é o mesmo que dizer que o passado em sua objetividade nunca nos
é plenamente acessível.
Lembrado, o passado não é
acontecimento bruto, mas a composição de um mosaico de imagens existenciais e
experiências, que revelam a percepção que temos de nós mesmos. Idealizada pela
nostalgia, o passado que a lembrança nos oferece é mais afetivo do que efetivo.
Isso não o torna menos confiável. Só revela que o passado é o que nos diz a
cada instante quem somos, seja de modo retraído
ou transbordante, de acordo com as exigências da hora.
No momento destas linhas, por
exemplo, a infância figura para mim como um referencial quase onírico a
despertar um forte desejo de evasão de um presente sem atrativos.

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