quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

MEMÓRIA E VIDA

As lembranças que tenho sobre minha infância são tão fragmentárias e vagas que não dão conta de uma reconstrução muito fiel das minhas rotinas, questões e vivencias daquela época. Não tenho, portanto, qualquer ilusão quanto ao resgate de um passado factual. Sei que entre a lembrança e os fatos existe um insuperável abismo.

Qualquer narrativa autobiográfica esta condicionada ao eu atual do narrador e as suas configurações existenciais. Além disso, toda lembrança equivale a alguns esquecimentos. Toda memória é seletiva. O que é o mesmo que dizer que o passado em sua objetividade nunca nos é plenamente acessível.

Lembrado, o passado não é acontecimento bruto, mas a composição de um mosaico de imagens existenciais e experiências, que revelam a percepção que temos de nós mesmos. Idealizada pela nostalgia, o passado que a lembrança nos oferece é mais afetivo do que efetivo. Isso não o torna menos confiável. Só revela que o passado é o que nos diz a cada instante  quem somos, seja de modo retraído ou transbordante, de acordo com as exigências da hora.


No momento destas linhas, por exemplo, a infância figura para mim como um referencial quase onírico a despertar um forte desejo de evasão de um presente sem atrativos.

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