terça-feira, 31 de janeiro de 2017

ETERNAMENTE ESTUDANTE



Difícil evitar certa nostalgia quando penso naqueles tempos em que atingia sem perceber os trinta anos de idade e atingia o vigor  pleno da juventude. Apesar do meu temperamento um tanto quanto melancólico, a existência era para mim plena de sentido e pouca atenção dava ao problema da finitude. Mesmo assim a ideia de morte me rendia alguns versos imperfeitos e me preocupava em demasia com as ilusões de amor romântico. Não sabia viver minha juventude e levar as ultimas consequências às possibilidades da idade. Era introvertido e voltado demais para meu mundo intimo e pouco para as exigências do existir concreto. Nunca soube levar a vida. Por isso não tinha uma existência cotidiana estável ou regada. Mesmo após sair da faculdade continuei vivendo de modo improvisado. Nunca tive uma residência  minimamente estruturada e finanças equilibradas. Continuava vivendo como um estudante e , pior do que isso, pensando como um.  

REENCANTAMENTO DO MUNDO



Os anos 2000 foram definidos para mim pela descoberta de novas gramáticas de mundo. Apostava subjetivamente em novidades em qualquer sentido. Vivíamos coletivamente de especulações e expectativas sobre o mito do milênio. Particularmente, vivenciava um momento de “reencantamento” de mundo através de novas gramáticas de conhecimento. A ideia de psique objetiva formulada por Jung me levava a um interesse entusiasta sobre práticas  oraculares  e as possibilidades dos símbolos representarem uma forma privilegiada de acesso ao inconsciente. A realidade objetiva me parecia passível de leituras complexas, nutria aquela velha expectativa surrealista de uma leitura mais rica da pouca vida de todos os dias, mas através de uma inspiração junguiana em vez de  freudiana.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

SOBRE A MORTE DO MEU AVÔ

Foi durante os primeiros anos de  faculdade que recebia missivas da minha mãe informando sobre a deteriorização do estado de saúde do meu avô... Enquanto morava com meus pais desenvolvi uma grande proximidade com ele. Costumava  visita-lo todas as  noites para assistir TV. Naquele período me sentia distante dos meus pais e muito próximo do meu avô. Quando recebi  a noticia de sua morte, embora já esperada, fui invadido por um grande vazio. Uma parte boa do meu passado morria com ele. Já não tinha mais avós... Perdia um pedaço de chão no mundo. Aquilo faria diferença para toda vida, era uma ferida que se abriria com os anos...


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

FRUSTRAÇÕES



Terminar a graduação não foi exatamente uma vitória para mim. Basicamente me surpreendi refém do meu incerto primeiro emprego de comissionado de autarquia estadual e cada vez mais distante de uma carreira acadêmica. Ao mesmo tempo ainda mantinha a rotina de uma vida de estudante. Tudo provisório e incerto  em minha existência, apesar do salário fixo. Acomodado aos fatos me afoguei na rotina enquanto os anos passavam. Este sentimento de estagnação me definiria de modo radical. Mas me sentia impotente... mesmo  depois de uma pós latu sensu em história moderna, feita alguns anos depois na velha faculdade, não superaria tal sentimento de falta de possibilidade de  refazer e reinventar meus dias através de novas perspectivas profissionais.

O FIM DO MILENIO



O fim do milênio e inicio do novo século me encontrou ainda no dilema de conclusão da graduação. Além disso me envolvia amorosamente com a mãe de uma amiga de estagio no museu. Foi um episódio inusitado e inesperado, um capítulo ímpar na minha vida que pode ser considerado essencial ao meu amadurecimento emocional. Afinal, mesmo que tardiamente, foi meu primeiro e mais duradouro relacionamento. Só terminou em 2005 por desgaste natural de suas rotinas. Até hoje somos amigos e ela foi a referencia afetiva mais importante e duradoura  nestes anos de vida na Capital.


 Nos anos 2000 eu ainda mantinha algum otimismo em relação ao futuro. Apostava na mudança e não nas inércias da rotina. Ainda era suficientemente jovem para apostar no amanhã, esta mania ingênua da juventude.


Em 2001, sob a ameaça de ser jubilado, concluía minha monografia e a graduação pondo fim ao meu vinculo formal com a universidade. Foi uma etapa melancólica. Mas o tema do minha narrativa um pouco ousada e pouco academicista era um esforço para pensar a historiografia em um profundo dialogo com a psicologia analítica. Estava obcecado pela obra de Jung naqueles tempos. Eram anos de releituras e redefinições intelectuais nos quais deixava para trás de forma definitiva o marxismo e a militância política. Abandonava de vez as paisagens intelectuais do século XX e tateava as possibilidades oferecidas pelo novo milênio. Aos poucos me aproximava de uma perspectiva pós-moderna ou pós estruturalista.  A mítica de viver um novo século me entusiasmava, tanto pessoal como intelectualmente, muito embora do ponto de vista prático isso não fizesse qualquer iferença.

O LONGO FIM DA GRADUAÇÃO



A vida de estudante era uma condição confortável apesar das limitações materiais e financeiras. Por isso o fim da faculdade, que deveria ocorrer em 1997 ou 1998 foi postergado devido aos meus impasses com o tema da monografia de fim de curso. Ao mesmo tempo, em 1997 comecei a trabalhar como comissionado em uma autarquia estadual. Resquício dos tempos de militância comunista. Um velho membro do antigo partido iria presidi-la e, através de um amigo comum, acabei indicado para ocupar um cargo. Naquele momento havia terminado recentemente o  estagio em um museu e mergulhava em instabilidades financeiras. O emprego me levava a me acomodar  e manter o vinculo acadêmico da pior maneira possível enquanto meus amigos mais próximos se formavam e seguiam suas vidas.

MEMÓRIA E SENTIMENTO DE VIDA



O lembrar biográfico é um resgate de sensações e presenças das quais nos alienamos. Os fatos e atos articulados por um cotidiano ou espírito de época compõem a paisagem da memória pessoal. Por isso pouca referencia faço a acontecimentos concretos e experiências intersubjetivas. Mais importante é resgatar um sentimento de mundo e das coisas, uma “atmosfera existencial”, onde meus pensamentos e sentimentos habitavam. É o envolvimento afetivo com os diversos períodos da minha vida que busco resgatar aqui através do artifício de uma narrativa articulante.