Os três anos nos quais refiz o
ensino médio foram decisivos para minha formação como ser humano. Acho que só
então a condição de estudante se converteu em uma identidade derivando um ethos. De todas as matérias eu me
interessava demasiadamente por História
e , por conta própria, já me aventurava
lendo historiografia é dando certa dor de cabeça para os professores de
historia e geografia. Acabava me destacando como aquele aluno que interagia
pretensamente de igual para igual. Hoje avalio que eu era excessivamente confiante,
para não dizer arrogante. É realmente lamentável o sentimento de verdade que um pouco de leitura marxista pode inspirar. Eu me sentia capaz de explicar
o mundo. Julgava ter todas as respostas
para os dilemas da humanidade. Acreditava
mesmo que a politica podia nos garantir um futuro melhor e estava disposto a
fazer qualquer coisa por isso.
Quando entrei no partido comunista, então impactado
pela Perestroika e vivendo uma crise cada vez maior de identidade, realmente
apostava que um dia veria um mundo novo acontecer de alguma forma, apesar de
tudo. Meu otimismo era tão grande quanto minha ingenuidade. Enxergava as coisas
através de um filtro ideológico que me fazia ser bastante reducionista e, em
certas situações, até mesmo insensato. Nem
mesmo a queda do muro de Berlim, em 1989, e a clara situação de crise do socialismo real abalaram
minhas convicções, mas as renovavam, no sentido da aposta sincera na hipótese
de um socialismo renovado.
A militância politica
também era um meio de socialização e meus colegas de grêmio logo se tornaram
meus melhores amigos. Passávamos mesmo muito tempo juntos. Através da
militância fiz outras amizades igualmente importantes. Em pouco tempo tinha
alguns bons interlocutores. Passávamos horas debatendo politica e teorias. Alguns
frequentavam minha casa e ficávamos conversando enquanto ouvíamos alguns vinis
de rock, musica erudita e até mesmo MPB. Nossas imaginações frequentavam mais
os anos 60 e 70 do que propriamente aqueles estranhos anos 90 nos quais ainda brincávamos de viver. Sem saber vivíamos os melhores anos de nossa juventude. Tudo nos parecia possível. tenho saudades desta época.

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