quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

MILITÂNCIA POLÍTICA E SOCIABILIDADE


Os três anos nos quais refiz o ensino médio foram decisivos para minha formação como ser humano. Acho que só então a condição de estudante se converteu em uma identidade derivando um ethos. De todas as matérias eu me interessava demasiadamente por  História e , por conta própria, já me aventurava  lendo historiografia é dando certa dor de cabeça para os professores de historia e geografia. Acabava me destacando como aquele aluno que interagia pretensamente de igual para igual. Hoje avalio que eu era excessivamente confiante, para não dizer arrogante. É realmente lamentável o sentimento de verdade  que um pouco de leitura marxista  pode inspirar. Eu me sentia capaz de explicar o mundo.  Julgava ter todas as respostas para os dilemas da  humanidade. Acreditava mesmo que a politica podia nos garantir um futuro melhor e estava disposto a fazer qualquer coisa por isso.


 Quando entrei no partido comunista, então impactado pela Perestroika e vivendo uma crise cada vez maior de identidade, realmente apostava que um dia veria um mundo novo acontecer de alguma forma, apesar de tudo. Meu otimismo era tão grande quanto minha ingenuidade. Enxergava as coisas através de um filtro ideológico que me fazia ser bastante reducionista e, em certas situações, até mesmo insensato.  Nem mesmo a queda do muro de Berlim, em 1989, e a clara  situação de crise do socialismo real abalaram minhas convicções, mas as renovavam, no sentido da aposta sincera na hipótese de um socialismo renovado.  

A militância politica também era um meio de socialização e meus colegas de grêmio logo se tornaram meus melhores amigos. Passávamos mesmo muito tempo juntos. Através da militância fiz outras amizades igualmente importantes. Em pouco tempo tinha alguns bons interlocutores. Passávamos horas debatendo politica e teorias. Alguns frequentavam minha casa e ficávamos conversando enquanto ouvíamos alguns vinis de rock, musica erudita e até mesmo MPB. Nossas imaginações frequentavam mais os anos 60 e 70 do que propriamente aqueles estranhos  anos 90 nos quais ainda brincávamos de viver. Sem saber vivíamos os melhores anos de nossa juventude. Tudo nos parecia possível. tenho saudades desta época. 

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