Entre o fim dos anos oitenta e
durante todo os anos noventa, a
militância comunista ocupou boa parte do meu tempo e influenciou minha rotina e
interesses. Como muitos adolescentes questionadores eu encontrava nos “marxismos” a reposta aparentemente perfeita para todas
as contradições e imperfeições do mundo que me cercava. Nada mais compatível
com o imaginário ocidental da segunda
metade do século XX, definido pela bipolaridade ideológica entre o bloco
capitalista e socialista, onde muitos garotos digeriam as avessas a propaganda
anti comunista, tomando o comunismo como
uma referencia para a luta pela
liberdade e autenticidade; como expressão de rebeldia, apesar de todas as limitações e problemas do
socialismo real.
A militância no velho partido
comunista me proporcionava também algo próximo de uma vida social. Junto a
juventude do partido participei de encontros e congressos em diversas regiões
do país. O pouco que conheço dele deve-se as atividades e funções que
desempenhei como ativista. O mesmo posso
dizer do desenvolvimento de certo senso de responsabilidade e compromisso que
aos poucos viria com a disciplina da militância.
A aposta no comunismo fazia com que o mundo fizesse algum sentido
para mim, preenchia a vida de um propósito. Foi, por exemplo, decisivo para que
eu escolhesse uma faculdade de História e começasse a vislumbrar a hipótese
de me tornar professor. Mantinha, ainda
o adolescente rockeiro e mais simpático ao anarquismo dentro de mim. Mas do ponto de vista pragmático o
comunismo me proporcionava um horizonte mais promissor no campo da ação.
Meus pais e meu avô não viam com
bons olhos meu envolvimento com política. Isso contribuiu para que eu adotasse
uma postura mais reservada em relação a eles. Muitas vezes viajava por força das
atividades do partido sem comunica-los para onde ia por mera provocação. Devido
meu temperamento rebelde adotei neste
período uma postura de franca autonomia em relação a eles. Nunca compartilhava intimidades.
Por outro lado, era época de
Perestroika e de questionamentos a ortodoxia vermelha, mesmo entre os
comunistas. Por isso nunca fui um esquerdista dogmático ou preso a doutrina
marxista. Pelo contrário, o que se colocava como uma questão chave em minha militância era a possibilidade
de uma refundação do partido e reinvenção do próprio comunismo. Ao contrário
dos comunistas formados pela cultura da guerra fria, eu era um comunista da
perestroika e me afastava radicalmente dos radicalismos ideológicos. Com isso
tinha poucos interlocutores entre os meus pares de movimento estudantil.

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