terça-feira, 10 de dezembro de 2019

IIMAGINAÇÕES DE INFÂNCIA

Precisei vislumbrar a inconstância dos meus quase cinquenta anos, para perceber que a infância nada contém de infantil. O infantil é  uma invenção  do nosso modo de guardar e lembrar a infância.  

A infância é  apenas um plano de experiências intensas moduladas por uma imaginação  selvagem meio a margem da sociedade . Por isso as crianças precisam ser tuteladas e adestradas. Elas ainda existem em estado de quase liberdade da vontade. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

MEMORIALISTA


Tudo era muito  diferente de hoje
Quando todos que eu amava estavam vivos.

A Lua era menina naqueles dias,
e o sol um garoto garboso cujo brilho
acordava em todos intensa alegria. 

Até parece que faz muito tempo que nasci
naquele outro mundo que me viu surgir.
Mas juro que foi ontem.
Só não foi aqui.




quarta-feira, 20 de novembro de 2019

DEVER SER

Ao longo das duas primeiras décadas da minha existência,  Entre a tutela das figuras parentais e a normalização imposta pela escola, cultivei a imaginação como uma meta realidade, fiz do brincar uma forma de criar em mim o mundo. Tal experiência foi em mim tão poderosa que me condenou a ser um adulto inadaptado e melancólico.
A vida para mim deveria ser outra coisa que apenas podemos intuir.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

A VIDA QUE NÃO SERÁ



Há  um futuro impossível que me atormenta como fantasma dos meus passados não vividos. 

Há uma potência de vida perdida no meu destino.
Na vertigem do vir a ser há múltiplas possibilidades interditadas
E a vida vale pelo que não foi ou será
Nas desventuras do possível.

domingo, 17 de novembro de 2019

ESCOLA E CONVIVÊNCIA

Sempre odiei a escola. o que chamam de educação  é  uma espécie de lavagem cerebral através  da qual a sociedade nos apodrece. Apesar disso, sempre gostei da camaradagem das turmas de escola. Foi onde aprendi a conviver e fazer amigos, onde fui inventado entre os outros como indivíduo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A DITADURA DOS ADULTOS

A tutela dos pais e a escola como semi prisão e instituição de adestramento de consciências,  definem a infância formal. A imaginação  e as brincadeiras funcionam como as contrapartidas da liberdade contra as imposições da ditadura dos adultos. 

Gosto de pensar que fui uma criança  inconformada com a dominação  dos mais velhos. Mas isso é  muito relativo. Toda criança  torna-se cúmplice de seus parentais algozes.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

MEMÓRIA DE MANACASCATA


Até onde sei, manacascata é  uma fruta originária da Amazônia. Em minha infância de pequena província ela foi presença  intensa no quintal da casa dos meus avós. Hoje em dia , entretanto, não  tenho notícias deste pequeno fruto que as novas gerações  parecem ignorar até  mesmo o vestígio.

É estranho como os hábitos e a economia de coisas que nos ambienta se transformam nos usos possíveis do mundo através das épocas. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

SOBRE PRESENTES DE ANIVERSÁRIO

Não  tenho lembranças de festas de aniversários durante minha infância. Criado sem frequentar as ruas, confinado ao quintal de casa, nunca the amigos para reunir entre bolos e bolas de ar.
Mas me lembro vivamente da emoção  de muitos brinquedos de dupla celebração  de dia das crianças  e aniversário de 14 bis de outubro.

Não  há nada que defina mais o encantamento da infância do que a nostalgia da magia da experiência do acontecimento  de um brinquedo novo.

sábado, 12 de outubro de 2019

INFÂNCIA E NOSTALGIA

Grande parte da nostalgia que as lembranças  de infância provocam, deve-se a uma triste constatação: sou incapaz de experimentar hoje a mesma atmosfera anímica,  sensibilidade de fantasia, pertencimento a vida e ao mundo, que me definiam como criança.  

Tornar-se adulto é saber morrer algo que nos é  essencial a nossa elementar condição  de viventes.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

NOSTALGIA

Amanheço  na ambiência de tempos antigos 
Onde o passado atualiza o presente.


Sei na superfície do agora
Um passado mutante
que captura o último segundo
 nas texturas,
Velocidades e ritmos,
 de velhas canções  de infância.

O tempo inventa o contratempo de um exílio

Onde só  posso ser vivo onde já  não  existo,
Onde os mortos ainda caminham comigo,
E  não  me sinto sozinho.





RECUSA DO VERBO SER

Não sou mais a criança  ou o adolescente que fui um dia em família quando todos estavam vivos. Mas não me tornei adulto no meu desespero de ser gente,  de inventar o nada onde me queriam tudo.

Contra as máscaras e artifícios do jogo social descobri em mim qualquer inspiração  animal.

Sempre duvidei da eficácia do verbo ser.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A POSSIBILIDADE INCERTA DE SER EU


Meus arquivos de livros, músicas e filmes, são uma extensão da minha consciência de mundo. Neles identifico minha subjetividade, a marca da existência coletiva, dos outros,  na imanente experiência de ser eu. Mas, afinal, o que ignifica ser eu?

Sou multiplicidades, indeterminação e incerteza na paisagem da realidade vivida. Um acumulo de memorias que condicionam sensibilidades e comportamentos. É na espacialidade do tempo como devir que me configuro como multidão.  Não vejo a possibilidade de descrição biográfica da minha existência, pois sou apenas um fragmento epocal, uma miragem no acontecimento humano sobre a face da terra.


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O TEMPO DOS MEUS AVÓS

Os objetos antigos tem gosto de coisas não  vividas, mas intensamente familiares.


O mundo dos meus avós é  parte do meu presente como vestígio de experiências perdidas, como marca arcaica de um devir de clã que soube de mim antes do meu nascimento.

Há  uma sombra minha em fotografias antigas, tiradas antes de mim, em acontecimentos de histórias contadas, quando a infância inventava o eterno, na etérea essência do tempo  nos quais  meus avós eram apenas crianças.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

CORPO E MEMÓRIA

O corpo é a alma do tempo.
Nele cada sinal é uma marca de vida,
Cada lembrança  um caminho de existência,
E cada  ato um gesto de cuidado de si e dos oitros.
O corpo é memória viva,
Registro mudo de uma existência
Que se inventa mundo
Em impessoal poesia.

domingo, 15 de setembro de 2019

FAROESTE

Lembro que meu pai, quando era mais jovem e eu apenas uma criança, adorava filmes de  faroeste. Talvez lembrasse a infância dele. Mas como eu poderia imaginar a infância do meu pai? Nunca imaginei meu pai antes da paternidade.  Há algo de egoísmo nisso. Nunca enxerguei meu pai fora do meu próprio mundo.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

CONSCIÊNCIA E MEMÓRIA


O efeito do que já se foi estrutura a existência. Não, propriamente, no sentido da definição  de uma identidade individual, mas da delimitação de uma memória singular do mundo, da experiência do real, como campo de singularidade e devir.


O passado é uma marca e um modo de ser. Mas ninguém tem um passado.  O passado é múltiplo e uma forma de diálogo. Ele não  é a mera percepção  de um antes e um depois, mas a percepção  da permanência, da insistência de uma vida inteira.
Saber um passado se confunde com a própria consciência.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O CAVALEIRO DAS TREVAS E O CREPÚSCULO DA INFÂNCIA


Em 1989, quando estreou nos cinemas a versão de Batma do diretor Tim Burton, estrelada por Michael Keaton e Jack Nicholson, me  juntei ao coro do puritanos que torciam o nariz para qualquer adaptação cinematográfica de clássicos dos quadrinhos.

Mas poucos anos antes, Flank Miller havia lançado seu Cavaleiro das Trevas, O retorno, minissérie em quatro volumes quer transformaria definitivamente o Batman dos quadrinhos. Foi seu trabalho realmente singular e surpreendente que  repaginou o  homem morcego, convertendo-o em uma espécie de anti herói muito diferente do vigilante encapuçado com o qual, até então, estávamos acostumados.

Com o clássico de Miller o  Batman ficou mais adulto e sombrio nos quadrinhos, mas foi somente com o uniforme totalmente negro da adaptação para os cinemas de Burton que nos demos conta do quanto ele   já não era mais o mesmo.

Eu crescia e Batman crescia comigo.... Isso tinha um gosto de desencanto com o mundo que só mais tarde fui entender. Foi também nos anos 90 que parei de colecionar quadrinhos. A vida adulta se anunciava melancolicamente a minha juventude. Já não era mais possível para mim manter certa sensibilidade infantil ou fantasiosa  sem assumir uma certa decepção existencial com a vida e o mundo.  Eu me tornava “um jovem” por aqueles anos, sem me dar conta de que perdia a infância.   


MEU PAI E MEU AVÔ


Minha existência se inventava através do meu pai e no meu avô.
Eramos distantes em nossa proximidade. Mas a presença deles  me fazia sempre jovem, eterno aprendiz de mim mesmo.

Agora, é na ausência deles que descubro minhas faltas, minha velhice por parte de pai e de mãe.

Cheio do vazio deles vou acariciando meus abismos,
Vou me desconstruindo no desabamento dos anos.

Não importa a quantidade de tempo que cobre o fato de suas mortes. O vazio da casa antiga guarda sempre intensamente o silêncio deles dentro dos meus possíveis futuros.  


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CHUVA ANTIGA



A ausência do sol
Inventava a chuva
Que acordava os telhados.

A terra molhada tinha jeito de bolo.
E o vento trazia o frio.

Era bom estar em casa
Sabendo a vida pela janela
No aconchego do quarto.

A lentidão das horas vestiam preguiças
Apagando o quintal fechado.
Mas restava a vida presa na televisão
Para colorir o tempo
E o  café com pão
no colo de vó.


A HORA DO BANHO



O cheiro do sabonete
definia a água e a hora do banho.

Eu cabia em uma bacia,
Quase não era gente.

Há algo de intermediário
Entre o animal e o homem
através da criança.

Pois ser criança é não ser ainda
completamente humano,
é quase ser coisa,
imaginação e vontade.
Uma força viva da natureza...


Mas eu só percebia isso
Na hora do banho,
no cheiro de asseio 
que me fazia sentir limpo
como um brinquedo novo.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

BOEMIA E SOLIDÃO

Uma das primeiras coisas que aprendi na adolescência,  depois que deixei minha cidade natal  para estudar na capital do estado, foi a me abrigar em bares, passar horas bebendo sozinho e matutando sobre a vida.


Era uma forma de saber de mim quando já  não sabia mais nada do mundo. Foi assim que comecei a me perder de tudo, realizando a grande solidão que sempre me habitou.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

PRESENTE & PASSADO

Passado diz respeito à perdas e esquecimentos. Lembranças são  como a casca oca de um ovo quebrado. Um acontecimento, ao contrário, é  o efeito ou a duração  de uma experiência. É  no plano abstrato e etéreo do infinito que as lembranças persistem pálidas, que se inventa o arranjo sempre provisório da memória.


Mas não posso saber quem já fui um dia através das minhas próprias  lembranças. Elas apenas refletem este eu de agora que as concebe. Pouco revelam sobre o passado. É justamente este  o charme secreto da memória:  A percepção  de nós mesmos como devir e incerteza, como algo sempre provisório.

MUNDOS ARTIFICIAIS

Creio que não  vivo apenas entre dois séculos, mas entre dois mundos: o mundo da TV e o mundo da internet.   Ambos sequestram nossos afetos, desejos,  opiniões e imaginação.  Os dois criam um modo de vida, rotinas que configuram lembranças e vivências.

Nossa memória é  midiática porque em grande parte é  formatada pela experiência destes dois  mundos artificiais. Isso é o mesmo que dizer que nossa subjetividade é pública e social. Não  há  algo como uma vida privada, uma originalidade pessoal. A maior parte de nós é  constituída pelo "comum", reduzido a experiência do entretenimento, de um prazer estético artificial. Desde a segunda metade do século XX, a vida urbana nos condiciona ao  artificialismo tecnológico. 

Conhecer a si mesmo já não  é uma questão relevante.

sábado, 3 de agosto de 2019

MEUS 18 ANOS

Tenho saudades de mim mesmo com 18 anos.
Mas faz tanto tempo que tive 18 anos,
Que não  me lembro mais  de quem eu era com 18 anos.

Vivo até hoje um luto pelos meus 18 anos...
Em qualquer parte do tempo
Meu eu ainda apodrece com seus 18 anos.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

ECOS TROPICALISTAS EM UMA ADOLESCÊNCIA DOS ANOS 90


Se o rock e, especialmente o heavy metal, sempre representaram para mim um ethos, um modo de vida construído a partir de uma dada sensibilidade musical, alguns álbuns de MPB, sempre me comunicaram qualquer sentimento, nostalgia, ou, simplesmente, ambientações de infância. Diferente do rock, cuja sonoridade me diz sempre o presente e o futuro, certa MPB me comunica  um passado remoto. Não é por coincidência que os três álbuns que melhor traduziram para mim tal sentimento sejam tropicalistas.

 Refiro-me ao lírico, saudosista e delicioso Domingo de Gal Costa e Caetano Veloso (1967), que é quase uma reverência a revolução da bossa nova e a João Gilberto,  o primeiro álbum de Caetano Veloso (1968) e o primeiro  álbum solo  de Gal Costa (1969). Neste dois últimos, a tropicaria explode em cores e sonoridades únicas.

Os três álbuns juntos compõem um único passeio sonoro existencial. Nunca  consegui separa-los como experiência musical. Mesmo tendo adquirido e conhecido cada um deles  em momentos diferentes ao longo dos anos 90; época em que todos os meses me deliciava com a compra de pelo menos um vinil novo.







domingo, 28 de julho de 2019

SOBRE CARROS E BICICLETAS

Nunca aprendi a dirigir. Jamais me passou pela cabeça  ter um carro. Seria uma concessão  desnecessária as convenções  da vida contemporânea. 

Estar preso a um carro, uma casa, Um emprego... existir se tornou uma prisão.  Mas posso pelo menos evitar esta prática cela que é  o carro.

Passarei a vida inteira aprendendo a ser livre. Talvez eu precise reinventar o hábito de pedalar.

Lembro-me de quando criança  ganhei minha primeira bicicleta. Foi o presente dia presentes. Nada ensina mais a liberdade a uma criança  do que uma bicicleta.

sábado, 27 de julho de 2019

PANTERA NEGRA E QUESTÃO RACIAL


Quando criança eu não tinha uma consciência muito clara sobre racismo. Mas possuía uma consciência da minha condição  de negro em uma sociedade de brancos. Por isso heróis negros como o falcão, Luke Cage, Pantera Negra e tempestade dos X Man me chamavam tanta  atenção. 


A primeira aparição  do Pantera Negra se deu em uma aventura do quarteto fantástico. A maravilha de um rei negro africano, descrito como o homem mais rico do mundo e senhor de avançada tecnologia, era uma imagem cara a minha imaginação  de criança  negra. Ela feria  o dissimulado e cotidiano preconceito que, mesmo sem saber entender, eu percebia existir. Afinal, estava habituado a ver negros em situações subalternas. Mesmo que nunca tivesse sido vítima direta de qualquer situação de preconceito. 


Se no universo DC, durante muito tempo, os super heróis foram exclusivamente brancos, o universo Marvel  fazia soprar , de forma pioneira nos quadrinhos,  um pouco do vento fresco das lutas sociais dos anos 60. De algum modo muito positivo isso teve um efeito em meu imaginário infantil.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

NO DIA DA INDEPENDÊNCIA NACIONAL


Enquanto estudantes do ensino fundamental e médio, por vontade e gosto da minha mãe, tanto eu quanto minha irmã, participávamos todos os anos do desfile da independência nacional. Isso cobre os últimos anos da década de 70 e inicio da década de 80 do século XX. 

Não me agradava participar disso, mas me submetia a tal experiência para agrada-la. Em cidade provinciana, naquela época, os desfiles da independência tinham certo brilho como experiência comunitária.

O autoritarismo dos tempos da ditadura ainda eram, então, muito presente. Louvar a pátria fazia parte do dantesco catecismo cívico.  Além disso, defendia-se a bandeira da escola em que se estudava. Cada uma queria o maior destaque e os aplausos da multidão. 

Minha escola era particular e moldada pela filosofia de sua diretora conservadora. Todos os dias eramos enfileirados no pátio para cantar  hinos e fazer orações. Hoje tudo isso me parece um pesadelo. Mas toda  dimensão politica destes costumes aberrantes me escapavam quando criança.  

Mesmo assim, era desagradável usar luvas, segurar bandeiras, e passar horas em pé sob um sol quente vestindo uniformes coloridos.  Não tenho saudades destas ocasiões. 

quarta-feira, 17 de julho de 2019

PASSADO PESSOAL

Tenho um passado que me faz viver contra o presente e o futuro. É  um passado modesto, feito de cenas quebradas de infância, experiências domésticas,  rotinas de escola, e vivências banais de mundo.


Nada que valha um momento de História.

Este passado presentificado como afeto, como vazio, ocupa meus pensamentos, define sensibilidades, estabelecendo uma estética de existência. 

É através  dele que me defino, que me estranho, no indeterminado tempo do instante onde quase não  sou agora.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

DA MORTE DOS EUS


Atualmente quase não  me conheço.
Mas todos sabem quem sou.
Quem é,  afinal, este eu?

Quem foi aquele eu que morreu
Sem qualquer vestígio de morte?


A criança  que eu fui
Está morta

Mas em mim continua presente
Como uma incômoda ausência.
Tenho saudades dela...

sábado, 13 de julho de 2019

O ACONTER BIOGRÁFICO

O eu não  está no centro de um esforço  autobiográfico, mas os outros. Lembrar é vivenciar vínculos no tempo e no espaço.  Há algo de profundamente  impessoal em qualquer biografia. É  o compartilhado, o que é  comum, que define a singularidade  de uma existência. Sou o resultado da composição de pessoas e coisas ao longo de um tempo determinado. Não  posso saber de mim sem falar do outro, do fora de mim mesmo. Toda lembrança é coletiva.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

SOBRE INFÂNCIA E CRIANÇAS


Não tenho qualquer empatia com crianças. Não reconheço nelas nenhum traço da minha própria infância. As épocas mudam e o modo de ser criança também. Mesmo qeu sejamos todos perpassados por um devir infantil apesar da persona adulta.

Minha experiência de infância é algo incomunicável as gerações seguintes. Proporciona uma espécie de pertencimento a uma época e conjunto de códigos e experiências lúdicas que figuram na memória como uma espécie de marca ancestral de um paraíso perdido.

Minha infância me define. Justamente por isso não tenho simpatia por crianças.



quarta-feira, 10 de julho de 2019

A VIRTUALIDADE DE SER


A criança que fui um dia não existe mais. Suas memorias e pensamentos são como uma sombra em minha experiência de tempo presente. Sou um outro que a sucedeu no tempo e no espaço sem saber direito de si mesmo.

A impessoalidade de ser alguém me assombra no exercício de viver. Existo sobre o signo da indeterminação. O outro é a condição da prática de mim mesmo. A identidade que a memória me proporciona, é representação virtual de um constante vir a ser. No final das contas, quase nada sei sobre mim mesmo.      


segunda-feira, 1 de julho de 2019

MORTE E INFÂNCIA

Os tardios anos de maturidade, velhice e desencanto pouco importam na vida.  O determinante é  poder dizer que foi uma infância  plena e feliz que nos conduziu a isso. Apenas  uma boa infância faz a morte valer a pena.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

NOMADISMO

Confesso que me perdi entre a cidade que nasci e aquela que escolhi para viver. Na verdade tive poucas escolhas. As opções foram dadas pelas circunstâncias. Fui tragado por geográficas existenciais e coletivas. De mim pouco se fez ver na aventura das paisagens em movimento. 

Agora, em parte alguma há lugar que me sirva de casa...

sábado, 8 de junho de 2019

ENTRE DOIS SÉCULOS

Nasci no século XX e vi o século XXI começar sem muito brilho, inaugurando uma era de transformações e incertezas. Parte de mim persiste em pensar o mundo a partir de categorias do século passado. Outra parte angustia-se com o tempo presente e quer ir além dele, romper os limites do possível. Mesmo sem saber como.

O ceticismo é o horizonte da minha experiência do imediato agora. Não sou seduzido por qualquer projeção de futuro, mas tomado pela angústia diante dos limites de tudo que é. 

A vida possível apresenta-se degradada, adoecido, exibindo um cheiro antigo de morte. O século XXI escapa a qualquer ilusão de progresso. Ele tem um gosto de caos. Desperta uma desmedida nostalgia  em relação a um passado ainda recente onde todo horror ainda era suportável.

terça-feira, 4 de junho de 2019

IRONIA BIOGRÁFICA

Não me lembro do meu nascimento.
Não identifico o marco do fim da minha infância.
Não sei quando me tornei velho.
Não tenho qualquer ideia sobre o definitivo momento da minha morte.
O mais elementar da minha existência está condenado ao mais banal esquecimento, como se não fosse importante.

sábado, 25 de maio de 2019

VAZIO BIOGRÁFICO

Depois de quase cinco décadas de existência, ainda sou incapaz de dizer o que foi ou o que é minha vida. Tudo que me acontece está condenado ao esquecimento. Nada do que me parece importante é para sempre. 


A morte é a principal invenção dos meus dias. E o que é a morte, além da expressão de singularidade, da fatalidade imposta pelo lugar comum da biologia?

De fato, não há nada de importante que eu possa dizer sobre minha perecível existência que não seja o eco da fábula da humanidade.

O ÔNIBUS IMAGINÁRIO

Um simples volante velho e um antigo tanque de cimento era tudo que eu precisava, no início dos anos 80, para passar horas brincando de motorista de ônibus no quintal de casa. 

A imaginária experiência de dirigir era saborosa. Hoje, entretanto, sou incapaz de entender como tal brincadeira me fascinava tanto.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

NUNCA TIVE UM CARRO

Nunca tive um carro. Também nunca ganhei o suficiente para ter um carro.  Não aprendi a dirigir. Meus pais também nunca tiveram carro. Andar a pé sempre me pareceu a forma mais adequada de locomoção. Sempre achei pessoas com carro arrogantes e prepotentes.

MEMÓRIA E LEMBRANÇA


Independente da minha idade atual,em relação a memória dos meus avós ou dos meus pais, sempre me sinto um jovem, uma eterna criança. A grandeza impessoal que eles representam enquanto imagens arquetípicas,  determina a atemporalidade da minha vivência juvenil em relação a eles. Trata-se, assim, de um sentimento de si que transcende a concretude da infância enquanto experiência objetivamente vivida.

Há em mim uma fragilidade ontológica e relacional que extrapola a corporeidade moldada por uma “consciência etária”, ou seja, pela persona etária ou social que me define em sociedade. Em relação as figureas parentais ocupo uma função, pertenço a uma dada ambiência  parental, a uma simulação mítica do núcleo familiar, que constela uma experiência arcaica e irracional que me reduz a condição atemporal de criança.

O biográfico e o impessoal se enlaçam na codificação mnemônica revelando uma dimensão atemporal e mítica da experiência de lembrar. Não é apenas minha vida que a memória invoca, é um sentimento de mundo e existência, um modo de ser.


sábado, 18 de maio de 2019

O ENCANTO DA PRAIA

Quando criança considerava a praia um lugar mágico. De fato era algo fora da vida cotidiana, uma experiência reservada ao período de férias escolares. Com regularidade incerta minha mãe nos levava ( eu e minha irmã) para passar uns dias  na casa de um tio.Ele morava em uma cidade turística e de belas praias. A experiência do mar me fascinava e contrastava com o medo que minha mãe sempre teve dele.

Curiosamente, depois de adulto, raramente fui a praia. Mas nunca esqueci o gozo que a vivência do mar me provocava na infância. Hoje sou incapaz de experimentar qualquer coisa parecida.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

VARIAÇÕES DO EU


Não sei quantos de mim existem espalhados pelo tempo da minha pequena vida. Mas sei que são muitos. Alguns mal lembro que fui um dia, embora sejam variações de um mesmo rosto.

Admito que as variantes  que definem  qualquer pessoa ao longo de uma  existência, todas as descontinuidades e impasses que dão substância a experiência biográfica, me provoca vertigem.

O meu ser de hoje é, dentre todas até agora, a versão mais desvalida de todas as que até então foram possíveis. Trata-se justamente daquela que se avizinha da velhice, que a toma como problema.  

MEMÓRIA E INVOLUÇÃO BIOGRAFICA: EXPOSIÇÃO DE UMA PSEUDO TEORIA


A memória é o modo como produzimos o passado. Ele só pode existir na medida em que lembramos. E cada um tem seu próprio modo de lembrar e significar suas lembranças. As vezes  fazemos isso com tamanha intensidade que arrancamos as cores do momento presente e destituímos o futuro do posto de senhor de todas as espectativas.

De fato, depois de certa idade, o passado passa a ser nosso lugar de identidade e existência. Ele se converte em uma espécie de paraiso perdido, em que pese todas as idealizações envolvidas.

Não existe isenção na memória. Ela é tão seletiva quanto nossos desejos. A memória desautoriza a representação linear de um tempo irreversível e qualquer evolucionismo biográfico. Chego mesmo a pensar que toda minha vida é a história da degeneração de uma criança através da sua suposta conversão em adulto. Para mim a vida é um processo de degeneração que nos conduz da perfeição da infância a deformação completa coroada pela  morte.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

IMPOSSIBILIDADE BIOGRÁFICA


Para mim a vida esta longe de ser um processo linear e evolutivo do nascimento a morte. O ciclo vital de uma existência singular é como uma espiral onde, por exemplo, a criança, o adulto e o velho, existem sincronicamente.

A vida adulta e a infância coexistem de algum modo naquele que sou hoje como uma espécie de superposição de planos de existência, ou sensibilidades  concorrentes.

Nem mesmo me considero um ego preso ou apegado a uma experiência privada de uma época, de um lugar ou núcleo familiar. Há algo de profundamente impessoal e instintivo em tudo que constitui minha experiência vivida. O dado biográfico é, para mim, secundário. Isso me permite melhor aceitar o caráter perecível de tudo aquilo que vivo, vivi e viverei no acumulo precário dos anos.

A vida é como um grande oceano no qual não passo de uma gota d’agua.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

A INADAPTAÇÃO COMO VOCAÇÃO

O funcionamento do mundo sempre me pareceu algo absurdo. Quando criança tudo fazia mais sentido para mim através dos filmes da TV ( era raro eu ir ao cinema) , das HQs e, mais tarde, dos livros. 

A escola não mudou isso. A vida escolar se resumia para mim a um artificialismo abstrato através de seus conteúdos impostos, de sua desagradável rotina de exercícios, testes e provas.

Eu me alimentava silenciosamente de fantasia à margem de todo cotidiano. Confesso que isso nunca mudou. Permaneci a vida inteira inadaptável ao existir pragmático e normativas da realidade social.

Mas a música era minha mais intensa forma de evasão, meu modo predileto e mais eficaz de me desligar de tudo.

Nunca fui capaz de aderir satisfatoriamente a uma persona, a uma função ou identidade social. Não foi fácil para mim escolher uma profissão. Não me sentia seduzido por nenhuma vocação. Acho que foi por isso que escolhi a graduação em História, tendo sempre a filosofia como vocação. Mas eu era de família humilde e tinha receio de não conseguir ganhar a vida através da filosofia. Não sei bem porque a História me parecia uma alternativa mais viável. Hoje sei que nunca me livrei da filosofia.... minha vida profissional se definiu por improviso e arranjos provisórios que se tornaram definitivos. Como já disse, o funcionamento do mundo sempre me pareceu algo absurdo. Nunca achei que teria um lugar nele. Eu tinha uma imaginação demasiadamente intensa e pouca vocação para a realidade. Só com muita sorte poderia ser alguma coisa na vida. 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

MÚSICA E AMBIÊNCIA


Desde a mais elementar infância tive consciência de que a vida possui um componente sonoro determinante.

Os sons, e a música espacialmente, dão ritmo a nossa experiência do real. Uma música que nos toca é um lugar, um ambiente. 

Música é essencialmente movimento, um deslocamento. Ela é a forma mais direta de dizer memórias , afetos e deslocamentos.

Minha mãe sempre cantava. Quando criança a medida do mundo era para mim a intensidade e textura de sua voz.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

CASA


Minha casa sempre será a casa dos meus pais. Mesmo que já não a tenha como residência por quase trinta anos, é lá que ainda moro como um ausente.

 Não subestimo a memoria afetiva do lar familiar, o fato de ser esta casa antiga, incondicionalmente, minha referencia de abrigo ou, simplesmente, meu lugar no mundo.

Mesmo que meu quarto esteja vazio é lá que me guardo sempre do tempo e do acontecer do mundo.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O CÉU E MINHAS IMAGINAÇÕES



Não me lembro até qual idade cultivei uma espécie de deslumbramento pelo céu. Talvez até os dez anos, arriscando um palpite muito arbitrário. O fato é que perdia sempre algum tempo pela manhã, no final da tarde, e , principalmente a noite, contemplando o firmamento. A lua e as estrelas me fascinavam. Mas era um pouco antes do crepúsculo que as nuvens pareciam contar histórias. Adivinhava em suas formas desenhos de rostos, animais e paisagens grandiosas. Era como se o céu contasse uma história sempre melancólica antes do anoitecer.

Eu me sentia terrivelmente pequeno diante do céu.  

sábado, 30 de março de 2019

O VAZIO DAS MINHAS AMBIÇÕES

Deixar a casa dos meus pais e a cidade onde nasci, foi o incerto movimento de buscar um futuro. Jovem e destemido, me deixei levar pelas minhas melhores expectativas. 

Mas nada dos velhos sonhos de vida e destino se concretizou. Eu mudei, acordei dos sonhos e me surpreendi abandonado a simples realidade. 

Inventar um destino se revelou maior do que minha capacidade de lidar com o mundo. Acabei refém do avesso dos meus sonhos. A vida se tornou o que podia ser e não o que eu queria. Hoje nem sei mais o que agora me diz  o querer. Já não tenho ambições. Tudo se resume a simplesmente sobreviver...

terça-feira, 26 de março de 2019

OBJETOS E AFETOS


Lamento não ter preservado alguns objetos que tão profundamente definiram meu cotidiano ao sabor do passar dos anos. Falo de alguns brinquedos, HQs, roupas, desenhos, álbuns de figurinhas e outras coisas que me fogem agora. 

A memória materializada em peças de vida é quase um pedaço de tempo a ser tocado, sentido e revivida. Hoje sei o quanto nossas posses mais corriqueiras não são descartáveis. Os usos não as esgotam. 

Infelizmente, os objetos desapareceram, assim  como muitas pessoas que agora visito em fotografias.Nem  mesmo a casa na qual cresci é a mesma. É como se o tempo fosse algo físico e concreto e não uma invenção da memória e da consciência.

sábado, 9 de março de 2019

A MÚSICA DA MINHA VIDA?

A música é uma experiência constante na minha experiência da existência. Na infância decorava o ambiente de casa através do rádio e da televisão. Além disso minha mãe estava sempre cantando enquanto se dedicava aos afazeres domésticos.

A musicalidade dos anos setenta do século XX, década na qual cresci, é plena de harmonia e lirismo. Os arranjos e a melodia ainda definiam a música popular.

Eu sempre estava em busca da canção que serviria de pano de fundo para minha existência. Durante muito tempo acreditei ter encontrado em um antigo sucesso de Flank Valli:  Can't take  my eyes of you na versão dance de Glória Gayno. A letra de amor é banal e um pouco tosca para sensibilidade contemporânea. Ela realmente nada tem nada de especial. Mas quando jovem demais eu a elegi como emblema. Eis um exemplo de como experiências idiotas se tornam intensas para alguém de pouca idade. Durante muito tempo considerei esta canção a música da minha vida sem ter tido uma namorada ou um grande amor adolescente para justificar o encanto.

quarta-feira, 6 de março de 2019

UMA QUASE LEMBRANÇA DE FAMÍLIA

Não conheci minha bisavó Mafalda ( que diziam lembrar minha mãe). Não soube meu avô quando jovem e não faço ideia de como ele conheceu minha avó. Nem mesmo consigo imaginar minha mãe criança. Mas o tempo deles, do qual estive ausente, é parte de tudo que sou hoje. Minha vida quase não me pertence.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

MÚSICAS ANTIGAS

Gosto de escutar músicas antigas oriundas de um passado que nunca vivi. O ontem se tornou para mim um refúgio. Gosto do eco de coisas passadas e remotas que me distraem  do tempo presente. 

Gosto da ilusão de ser livre do peso do tempo, frequentar a imaginação de épocas perdidas, a ambientação de anos esquecidos.

Meu futuro hoje é olhar para traz.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

SOBRE A INFÂNCIA

Sei que os tempos de criança são uma construção social, que a infância que nos visita como memória não passa de uma invenção afetiva e fantasiosa de uma consciência adulta. 

Nada disso me impede de afirmar que a vida adulta me tirou muito em troca de pouco. Na infância eu provava a existência através da generosidade de meus afetos e imaginações. Pouco sabia da aridez do mundo e ainda gozava de alguma autonomia frente à coerção social. A vida adulta me tirou tudo isso para me fazer escravo de minha própria sobrevivência. De repente me surpreendi sozinho, vazio e infeliz inscrito em uma realidade de deserto urbano.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

SOBRE LEMBRAR DE SI MESMO

Lembro-me de lugares, pessoas e acontecimentos em diferentes momentos da minha vida. Mas não sou capaz de lembrar de mim mesmo quando mais jovem. Nada mais natural. Quase não prestamos atenção à nós mesmos. Não tenho lembrança da experiência do meu corpo, do meu rosto, dá minha voz. Mas sei que fui muitas outras pessoas dentro deste mesmo corpo que não existem mais.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

UMA FOTOGRAFIA ANTIGA

Nossa foto antiga virou quadro.
Habita agora o branco de uma parede
Onde não existe passado.
Apenas o silêncio presente,
A falsa inércia das coisas inanimadas.
A lembrança já não tem sentido.
Foi reduzida a referência vazia.
A foto já não diz nada.
A saudade não cabe em fotografias.
O passado é feito de tudo que não mais existe.
A foto tem efeito de pintura,
De reinvenção arbitrária
De qualquer realidade perdida.
Ela não comunica o que os olhos não sabem,
O que se perdeu através do devir e da vida.

OPOSIÇÕES

Partilhamos as mesmas emoções e sentimentos. Mas nunca as mesmas opiniões.
Dentro de cada um de nós há um mundo diferente.
A realidade tem a aparência de nossos caprichos. Somos juízes do mundo e advogados de nós mesmos.
No fundo nunca estamos juntos.
Existimos em palavras que nos separam.
É assim que vivemos seguindo entre despedidas e encontros.
As pessoas passam e a vida continua.
Poucas ganham acento na memória.

A VIDA EM FAMÍLIA

Sinto saudades da rotina doméstica da vida  com meus pais. A limpeza da casa, a hora das refeições, de ver TV. Os afazeres pequenos e banais da manutenção da vida , davam um gosto de ordem e segurança que definia o micro cosmos familiar. Era seguro e certo o estar entre os outros, tínhamos certezas uns dos outros... Ninguém nunca estava sozinho. Mas cada um vivia a parte enterrado dentro do seu próprio mundo. Nunca nos conhecemos direito.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

FRACASSO

Ao longo da vida sempre fui inadequado, alguém marginal aos rumos da existência comum.

Mesmo contando com o afeto de alguns e vivendo amizades sinceras, existi a margem dos lugares comuns.

A vida para mim sempre foi uma busca por autenticidade, mesmo que frustrada. Jamais vivi como os outros. Fui menos do que poderia ser. Tenho razões para me considerar um curioso e orgulhoso caso exemplar de fracasso.

SOBRE RELACIONAMENTOS

Só vivi relacionamentos amorosos por volta dos trinta anos. Mesmo assim foram poucos. Cabem nos dedos.
Quando jovem fui uma vítima do amor romântico. Consequentemente não tinha qualquer tino para construção de um relacionamento real.
Na adolescência era fascinado pelo mito de Orfeu e pela poesia. Não tenho o mínimo orgulho da ingenuidade que me movia nos anos de juventude. Muito pelo contrário. Eu lidava mal com a solidão e por isso amarguei certa atrofia emocional por idealizar demais o prazer de uma companhia íntima.
Definitivamente fui um adolescente ridículo.

SER E EXISTIR


Não quero pensar no meu passado como algo que me pertence. Ele é o que me escapa, o que não compreendo.

Todas as descontinuidades, perdas, transformações, que me conduziram a esse instante de aqui e agora são para mim quase ilegíveis.

As vezes penso que não sou uma única pessoa. Cada momento fez de mim uma variação  de mim mesmo. O passado é o presente de vários outros ecoando no imediato do meu agora.
Quem eu sou? No fundo não sei. Talvez eu não seja. Existir é mais do que ser.

sábado, 26 de janeiro de 2019

CONVERSAS MUSICAIS

No final dos anos oitenta e início dos anos noventa do século passado, costumava receber meus poucos amigos na casa dos meus pais. Conversávamos por horas. Mas as conversas sempre tinham como pano de fundo a audição de músicas que nos agradaram. Nossos velhos LOs faziam sempre parte do diálogo. Naquele tempo era possível conversar através da música.

O MITO DO HERÓI

Pode-se dizer que o mundo dos quadrinhos representou nas primeiras duas décadas da minha vida uma espécie de realidade paralela ou fundamento mitológico da vida real. Heróis como Batman, Super Homem, Homem Aranha ou Fantasma, não eram apenas modelos éticos. Eu reconhecia um pouco de mim mesmo neles....Ou algo que eu estava destinado a ser era dito em suas aventuras.

O mito do herói me era familiar. Hoje entendo que trata-se de uma experiência arquétipa. Mas a ideia de descobrir minha identidade secreta,minha vocação para fazer diferença em um mundo definido por tantas imperfeições, foi uma fantasia essencial para muitas escolhas que fiz na vida.

O CREPÚSCULO

Na casa dos meus avós maternos, nos tempos da minha infância onde a terra era fértil e o quintal povoado de árvores, o entardecer era melancólico. O canto intenso das cigarras decoravam o crepúsculo. Não precisávamos de relógios para saber as horas.
Hoje, exilado nos desertos da vida adulta,  vivo horas mortas. O anoitecer é silencioso e mal consigo ver e saber as estrelas do céu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

QUANTAS MORTES CABEM EM UMA VIDA?

Muita coisa mudou no mundo desde que nasci. Eu mesmo não sou o mesmo. Dos muitos outros que fui até hoje guardo traços vagos.

  A criança que um dia me definiu já não existe faz décadas. De certa forma, ela está morta. Constatar essa realidade elementar desperta em mim um assombro. Afinal, quantas mortes cabem dentro da minha vida?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

UM MOMENTO


Há um momento perdido no tempo,
Um eco, uma saudade.
Uma ocasião eterna
De quase felicidade.

Há um passado que me habita
Através de um único e perdido instante.
É uma ferida que dói,
Uma vontade de ter o passado entre os dentes.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

ALÉM DO TEMPO DE AGORA


Sinto em tudo o gosto das coisas de quando eu era jovem.
Ainda tenho como referencia os sabores de épocas idas,
O filtro de algumas memórias antigas.

O tempo presente pouco me importa.
Algo o transcende no embaralhamento epocal.
Um devir que atravessa as coisas,
Que inventa a intuição de antigas permanências.

A vida não se reduz ao momento.


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

AMBIENTAÇÕES E HABITAÇÕES


Minhas referencias de existência provem da experiência de juventude. Foi quando aprendi a saber e sofrer o mundo de uma perspectiva própria, singular. É o que chamo de ambientação, de um modo de habitar a vida que define quem somos como indivíduos.

Ficamos presos a um conjunto de experiências e a um padrão de expressão na medida em que amadurecemos. Pertencemos mais a nossa própria vida do que ela nos pertence. Isso tem vantagens e desvantagens. De depende do histórico de cada um.  
Os lugares que frequentei dizem quem eu sou. Não passo de um dado de algumas pequenas paisagens cotidianas. Elas sempre estão em mim.